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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Amazônia pode perder até 40% da cobertura vegetal e virar uma savana ainda neste século


Estudo sobre os impactos do aumento da temperatura na economia brasileira prevê perdas de R$ 719 bi a R$ 3,6 tri no PIB em 2050. Amazônia pode virar uma savana
LAURA LOPES
economiadoclima.org.br
Até 2100, 40% da cobertura vegetal da Amazônia pode sumir. Região se tornará uma savana
O que faria o Brasil jogar o crescimento de um ano inteiro a cada 40 anos no lixo? A temperatura do globo aumentar. Como o aumento está dando mostras cada vez mais fortes de ser irreversível, o Brasil perderá, por ano, de R$ 719 bilhões, no cenário mais otimista, a R$ 3,6 trilhões de seu Produto Interno Bruto (PIB) em 2050, no mais pessimista. Isso equivale a uma redução no consumo por habitante entre R$ 6 mil e R$ 18 mil de 2008 até 2050 – representando de 60% a 180% do consumo anual per capita atual. Sem as mudanças climáticas, o PIB brasileiro poderia chegar R$ 16 trilhões em 2050. Esse é um dos dados (alarmantes) publicados no relatório "Economia da Mudança do Clima no Brasil: custos e oportunidades" (mais informações em economiadoclima.org.br), elaborado em conjunto pela Unicamp, UFRJ, UFMG, FBDS, Inpe, Embrapa, USP, Fipe, Fiocruz, Ipea e Ipam durante pouco mais de dois anos e lançado nesta quarta (25).

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Relatório do IPCC, publicado em 2007, indica que a temperatura da Amazônia pode aumentar 8°C até 2100

O estudo analisou e quantificou o impacto da mudança climática no desenvolvimento do país, nos setores da agricultura, energia, zonas costeiras e transportes, a partir de duas possíveis trajetórias do clima desenvolvidas pelo Painel Intergovernamental de Mudança do Clima (IPCC, na sigla em inglês). A primeira, A2, prevê altas emissões de gases poluentes e aumentos na temperatura de 3 a 8°C em todo o território brasileiro até 2100. A segunda, B2, prevê baixas emissões e aumento de 2 a 5°C.

De acordo com o relatório, "os piores efeitos da mudança do clima recairão sobre as regiões Norte e Nordeste, as mais pobres do Brasil". O estudo conclui, portanto, que se o país não agir, a mudança climática só fará aprofundar as desigualdades regionais e de renda. "Todos os impactos climáticos têm consequências econômicas e socias. As populações de menor renda são sempre as mais vulneráveis, tanto em termos de moradia quanto também em termos de agricultura familiar", afirma Jacques Marcovitch, coordenador geral da pesquisa. A agricultura familiar, ou de subsistência, é a que tem menos acesso às inovações tecnológicas no setor. Inovações, essas, que levam ao desenvolvimento de novas espécies de plantas mais resistentes ao calor e à diminuição das chuvas.

De acordo com o estudo, até 2100 haverá uma diminuição de 2 a 2,5 mm diários de chuva no Nordeste, causando perdas agrícolas em todos os Estados da região. Esse déficit hídrico reduziria em 25% a capacidade de pastoreio de bovinos de corte e afetaria a vazão de rios importantes para a geração de energia, como o Parnaíba. A redução da vazão pode chegar a 90% entre 2070 e 2100. Na Amazônia, o aumento da temperatura pode chegar a 8°C, reduzindo 40% da cobertura florestal e alterando o bioma da região para savana (sem levar em conta o aumento do desmatamento). No Brasil inteiro, todas as culturas sofreriam redução das áreas de produção, com exceção da cana. A soja chegaria a uma queda de 34%, o milho, 15% e o café, 18%. Para se adaptar a essa mudança, o relatório propõe o desenvolvimento de novas culturas com investimentos de R$ 1 bilhão por ano em pesquisas. A modificação genética é a alternativa mais viável para minimizar os impactos, seguida por novas técnicas de irrigação.

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Gado nas margens da Rodovia Manaus-Porto Velho, no sul do Amazonas
Nas regiões costeiras, e considerando o cenário A2 do IPCC, de maior elevação do nível do mar, o estudo considera que se pode perder até R$ 207 bilhões. O custo de ações de gestão costeira e outras políticas públicas somariam R$ 3,72 bilhões até 2050,ou R$ 93 milhões ao ano – uma bagatela perto do que está em risco.


Para Marcovitch, o estudo revelou que o Brasil já possui competências, na área científica e na área técnica, para estudar esses impactos. "E, mais do que isso, fica claro que dentro da política de desenvolvimento brasileiro, a dimensão das mudanças climáticas deve ser incorporada como parte dele", afirma o pesquisador, que é ex-reitor da Universidade de São Paulo e autor do livro Para Mudar o Futuro – Mudanças Climáticas, Políticas Públicas e Estratégias Empresariais. Uma das prioridades indicadas pelo estudo, e proposta como política pública, é investir em opções de eficiência energética rentáveis, garantindo que o crescimento do PIB também seja gerado de forma "limpa".

Uma das opções, segundo o coordenador, é criar um mercado de carbono: as empresas que reduzem mais as suas emissões são premiadas de alguma forma. Tomando como referência o Plano Nacional de Energia 2030 do governo federal, a redução estimada de emissões seria de 1,8 bilhão de toneladas de CO2 entre 2010 e 2030. Isso geraria um ganho para a economia de US$ 34 bilhões em 2030 (ou US$ 13 por tonelada). Outra recomendação é brecar o desmatamento da Amazônia, que gera mudanças no clima local e regional e pode resultar em uma perda de até 38% das espécies e 12% de serviços ambientais em 2100 (equivalentes a US$ 26 bilhões por ano).


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