O coração de Eloá está sendo transplantado, nesta manhã, em uma mulher de 38 anos, no hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo.
Reportagem de Henri Karam.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Brasil: Coração de Eloá é transplantado em mulher de 38 anos
Cientistas mexicanos usam tequila para produzir diamantes
da Efe, no México
Pesquisadores da Unam (Universidad Nacional Autónoma de México) conseguiram produzir diamantes a partir de acetona, etanol, metanol e tequila, segundo informou nesta quinta-feira o doutor em física Luis Miguel Apátiga, líder do projeto.
Fernando Donasci/Folha Imagem |
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"Um dia passei em uma loja perto do campus da universidade e comprei uma garrafa de tequila", disse o líder do projeto |
Segundo ele, a "curiosidade científica" o levou a produzir diamantes microscópicos a partir da tequila. A história da descoberta remete a 1995, quando esses cientistas investigavam uma maneira de obter diamantes a partir de gases de hidrocarbonetos comuns como o metano, acetileno e o butano.
No final do século passado, conseguiram passar esses gases por uma fonte de energia, romper as moléculas do gás em fragmentos menores e obter átomos de carbono, que foram depositados em um substrato sobre o qual formaram estruturas de diamantes em escala nanométrica.
A primeira aplicação que encontraram para o experimento foi utilizar os diamantes como detectores de radiação, já que são muito sensíveis à luz ultravioleta.
"Detectamos vários tipos de radiação de partículas alfa, beta e ultravioleta. Também fizemos algumas publicações em revistas como 'Journal of Material Science' e 'Materials Letters'", disse Apátiga.
Tequila
Em 2007, Apátiga se mudou para um campus da Unam na cidade de Querétaro, no centro do México, onde retomou as pesquisas. Em vez de utilizar gases, empregou líquidos como a acetona, etanol e metanol, acrescentando também água e introduzindo em equipamentos desenvolvidos na Lituânia para produção de cerâmica.
O mecanismo aquece o líquido a 280ºC e o evapora, depois o leva a uma câmara com uma temperatura de 800ºC, onde as moléculas do vapor se rompem em fragmentos menores, nos quais há átomos de carbono, hidrogênio e oxigênio pela água.
Como às vezes utilizava 40% de etanol e 60% de água na mistura, proporção similar a encontrada na tequila, Apátiga tentou usar a bebida alcoólica.
"Um dia passei em uma loja perto do campus da universidade e comprei uma garrafa de tequila, fizemos o experimento e na primeira tentativa correu tudo bem", lembrou.
Agora os cientistas mexicanos estudam a razão pela qual os diamantes obtidos com a tequila têm uma forma menos circular que os demais produzidos com compostos puros.
"Estamos vendo se os compostos da tequila podem ter algum papel na síntese do diamante", disse.
Erramos: Cientistas mexicanos usam tequila para produzir diamantes
da Folha Online
Diferentemente do publicado na reportagem Cientistas mexicanos usam tequila para produzir diamantes, --matéria da agência Efe, reproduzida pela Folha Online (Ciência - 16/10/2008 - 18h10)-- as estruturas de diamantes em escala nanométrica foram obtidas a partir de átomos de carbono, e não carvão. O texto já foi corrigido Sphere: Related Content
Brasil: Drama em São Paulo termina com duas adolescentes atingidas a tiro
Sequestro com desfecho trágico
Terminou em grande tragédia o sequestro de duas adolescentes de 15 anos que foram mantidas cinco dias em cativeiro num apartamento na periferia da cidade de São Paulo (Stº André) por um metalúrgico de 22 anos, Lindemberg Fernandes Alves, ex-namorado de uma delas, furioso com o final do romance.Perante a intransigência do raptor em se entregar , forças especiais da polícia invadiram o apartamento e uma das reféns, Eloá Pimentel, precisamente a ex-namorada do raptor, acabou por ser baleada na virilha e na cabeça. Ontem, à hora de fecho desta edição, a jovem estava em coma irreversível. A amiga, Nayara Rodrigues, também atingida a tiro, estava livre de perigo, depois de ter sido operada. O criminoso foi preso.
A polícia garante que invadiu o apartamento usando apenas balas de borracha e afirma que os tiros foram disparados da arma de Lindemberg. A invasão só terá sido decidida depois de agentes terem ouvido disparos no apartamento. Mas, segundo testemunhos de jornalistas presentes no local, não foram ouvidas quaisquer detonações.
Lindemberg, inconformado com o fim do namoro, invadiu na segunda-feira o apartamento de Eloá, onde esta estava com Nayara e dois colegas. Estes e Nayara foram libertados pouco depois. No entanto, Nayara voltou ao apartamento na quinta-feira, autorizada pela polícia, para ajudar nas negociações com o sequestrador e acabou por ser de novo feita refém.
UMA PAIXÃO TUMULTUOSA
A paixão que uniu Lindemberg a Eloá, e que terminou de forma tão trágica, sempre foi atribulada. Ela, que tinha apenas 12 anos quando se envolveu com ele, é descrita como uma menina caprichosa, que, conforme foi crescendo e se foi tornando mulher foi aumentando os ciúmes do rapaz, que já tinha 19 anos quando começaram a namorar.
Líder estudantil, cada vez mais bonita e independente, Eloá despertava crescentes ciúmes no namorado, sucedendo-se os rompimentos e as reconciliações. Eloá, hoje com 15 anos, decidiu criar uma página no site de relacionamentos orkut e a relação piorou. Parecia que a história tinha terminado, até que Lindemberg descobriu que outro rapaz começava a aproximar-se de Eloá. Louco de ciúmes, decidiu vingar-se.
SAIBA MAIS
ABÍLIO SANTOS DINIZ
Um dos sequestros mais famosos foi o do empresário luso-brasileiro Abílio dos Santos Diniz, dono do Pão de Açúcar, raptado em São Paulo por terroristas chilenos e argentinos em 1989. Ficou mais de um mês em cativeiro, até a polícia descobrir a casa, onde era mantido num buraco.
121 DIAS
durou o mais longo sequestro da história do Brasil, ocorrido no início da actual década. A vítima foi um jovem empresário do estado de São Paulo.
REPÓRTER DA GLOBO
Em Agosto de 2006, o repórter da TV Globo Guilherme Portanova e o operador de câmara que o acompanhava foram sequestrados numa pastelaria em São Paulo por criminosos ligados à facção Primeiro Comando da Capital. Só foram libertados após três dias, depois de a Globo exibir um vídeo da facção com um comunicado.
Sphere: Related ContentPolícia acusada de erro fatal
Brasil: Adolescente baleada durante sequestro em S. Paulo morre no hospital
Com um tiro na virilha e outro na cabeça, que lhe destruiu o cérebro e se alojou na nuca, ao dar entrada no hospital na noite de sexta-feira Eloá já não tinha quase nenhuma probalidade de sobrevivência e o pior acabou por acontecer.
As circunstâncias em que a adolescente foi baleada continuam pouco claras, mas a polícia paulista aparece cada vez mais como grande responsável pelo trágico desfecho do mais longo sequestro do género no estado de São Paulo. A polícia afirma que só invadiu o apartamento depois de ouvir tiros dados por Lindemberg contra Eloá e a outra refém, Nayara Rodrigues, também de 15 anos, atingida por um tiro no rosto mas que, depois de operada, se encontra livre de perigo. Essa versão é desmentida pela multidão de repórteres que cobria o caso no local. Todos são unânimes em asseverar que as detonações de arma de fogo só ocorreram depois de a polícia invadir a residência, cuja porta foi derrubada com explosivos.
Fica cada vez mais claro que foi a desastrada invasão policial, ocorrida quando um promotor de justiça e um advogado contratado pela família de Lindemberg já o tinham convencido a entregar-se, que fez com que ele atirasse sobre as adolescentes, caso se confirme que as balas saíram mesmo do revólver que empunhou desde segunda-feira, quando, inconformado com o fim do namoro decidido pela adolescente, invadiu o apartamento de Eloá, até sexta, quando foi preso.
Ontem, assim que a morte de Eloá foi confirmada, a família da menina decidiu doar os seus órgãos para transplante. Enquanto isso, na cadeia onde está isolado para não ser morto pelos outros presos, Lindemberg recusa-se a falar sobre o tresloucado acto e repete sem cessar que ama Eloá e que a quer de novo a seu lado. Com a morte da adolescente, pode ser condenado a várias dezenas de anos de prisão.
MAIS DADOS
CORAGEM ATÉ AO FIM
Nos últimos cinco dias de vida, nos quais foi refém do ex-namorado, Eloá mostrou coragem. Espancada pelo ex-namorado, não se submeteu e chegou inclusive a desafiá-lo.
DECISÃO POLÉMICA
Criticado pela demora em agir, o coronel Eduardo Félix, que comandou o cerco, piorou as coisas ao afirmar que a polícia não abateu o sequestrador por ele não ser um bandido e sim um jovem trabalhador a sofrer por amor.
Jornal português diz que ação da polícia de SP foi "desastrada" em seqüestro
A "desastrada" ação da polícia paulista pode ter sido responsável pelo trágico desfecho do seqüestro que levou à morte da adolescente Eloá Cristina Pimentel, diz uma matéria publicada na edição desta segunda-feira do jornal português "Correio da Manhã".
Eloá, de 15 anos, foi mantida como refém durante cinco dias pelo ex-namorado, Lindemberg Fernandes, em um apartamento em Santo André, na região metropolitana de São Paulo.
A adolescente foi baleada durante a invasão policial no cativeiro e teve a morte cerebral confirmada na madrugada de domingo.
"As circunstâncias em que a adolescente foi baleada continuam pouco claras, mas a polícia paulista aparece cada vez mais como grande responsável pelo trágico desfecho do mais longo seqüestro do gênero no Estado de São Paulo", diz a matéria, assinada pelo correspondente do jornal em SP, Domingos Serrinha.
Além de Eloá, uma amiga da adolescente, Nayara Vieira, também foi mantida como refém e acabou sendo baleada com um tiro no rosto pelo seqüestrador. A menina está internada em recuperação.
"Desastrada"
Segundo o jornal, há um conflito entre a justificativa da polícia em invadir o cativeiro e a declaração de repórteres que cobriam o caso do lado de fora do apartamento.
O diário cita a afirmação da polícia de que a decisão sobre a invasão teria sido tomada depois que barulhos de tiros foram ouvidos do lado de fora do cativeiro. No entanto, os repórteres ouvidos pelo jornal afirmam que os tiros só foram disparados depois da invasão policial no apartamento, cuja porta foi detonada com explosivos.
"Fica cada vez mais claro que foi a desastrada invasão policial, ocorrida quando um promotor de Justiça e um advogado contratado pela família de Lindemberg já o tinham convencido a entregar-se, que fez com que ele atirasse sobre as adolescentes", afirma o jornal.
De acordo com o Correio da Manhã, Eduardo Félix, que comandou a operação policial, "piorou as coisas ao afirmar que a polícia não abateu o seqüestrador por ele não ser um bandido e sim um jovem trabalhador a sofrer por amor".
Sphere: Related Content1º pedido para psicocirurgia em SP vira disputa
Médicos não chegam a acordo sobre operação no cérebro de rapaz com agressividade e Justiça intervém
Fabiane Leite

M., que também é portador de retardo mental, veio do Piauí com aval da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e está internado no Instituto de Psiquiatria do HC, na zona oeste da capital paulista, desde 2006. Foi o primeiro paciente com indicação para a polêmica cirurgia a ter o caso analisado por um grupo de médicos escolhidos pelo Conselho Regional de Medicina do Estado.
A psicocirurgia é uma operação neurológica para tratar distúrbios psiquiátricos, também chamada de cirurgia psiquiátrica. Desde 1994 uma resolução do Conselho Federal de Medicina, órgão que regula a atividade médica, determina o aval de especialistas indicados pelos conselhos estaduais para a realização do procedimento. No entanto, médicos vinham desrespeitando a regulamentação, o que causou, desde 2003, aperto na fiscalização.
O conselho paulista recebeu o pedido de médicos do HC para a realização da cirurgia em M. no fim de 2006 e o negou no início de 2007, mas a família recorreu à Defensoria Pública da União, que ingressou com ação. Em agosto deste ano a Justiça Federal em São Paulo ordenou que o procedimento fosse realizado em 48 horas, o que o HC não cumpriu. Dois meses depois, o Tribunal Regional Federal suspendeu a ordem, até que se tenha certeza de que a cirurgia é necessária. A operação é irreversível e pode deixar seqüelas, apesar dos resultados serem positivos na maior parte dos casos.
"Sei que esta cirurgia não vai trazer a mente dele de volta, é só para diminuir as agressões. Não quero que meu filho fique trancado no hospital. Quero meu filho ao meu lado", argumenta Deuselina, de 50 anos, mãe de M., que chora ao recordar os mais de 20 anos de espera em filas de atendimento, buscas por escolas, trocas de remédios e internações. As crises de agressividade do rapaz, que já a machucaram, começaram quando ele tinha 5 anos. Segundo laudos médicos, ele sofre de agressividade imotivada, causada por "alterações disritmicas das pulsações cerebrais", relacionadas a possíveis alterações no cérebro.
O conselho de medicina paulista vetou a psicocirurgia no caso de M. com a justificativa principal de que outras alternativas medicamentosas e terapêuticas não tinham sido tentadas e de que não havia evidências científicas dos resultados do método em portadores de retardo.
A psiquiatra Eda Zanetti, que recebeu M. no HC e também o considerou apto à cirurgia, refutou o parecer, afirmando que o rapaz já tentou diferentes remédios e terapias e sofreu ainda com graves efeitos adversos das drogas. O próprio conselho do Instituto de Psiquiatria do HC, no entanto, se manifestou contrário à cirurgia. E o hospital não a realizou, apesar da ordem.
CRÍTICA
A decisão do juiz federal Victório Giuzio Neto, da 24ª Vara Cível, que ordenou a realização do procedimento, é considerada brilhante pela defensoria, por ter levado em conta recomendação para o procedimento feita por médicos que cuidaram do rapaz no Piauí e de profissionais que analisaram o caso no HC. "Os médicos indicados pelo conselho (e que negaram a cirurgia) ficaram apenas algumas horas com ele", diz a defensora Paula Martins.
O juiz também criticou trecho do parecer do conselho em que o órgão afirma que a mãe teria dito "mimar" o filho. "Jamais falei isso", diz Deuselina. Giuzio Neto também atacou a demora do conselho para expedir o parecer . E por fim anotou: "O CRM optou pela saída mais cômoda, deixar como está para ver como fica". Sphere: Related Content
Avião 'quase se chocou com Ovni' em 91 na Inglaterra
segunda-feira, 20 de outubro de 2008, 08:39 |
Relato é parte dos arquivos secretos divulgados pelo Ministério da Defesa britânico.
Segundo o registro, divulgado pelo Arquivo Nacional, o piloto do avião gritou "Olha isso, olha isso!" para o co-piloto ao ver um objeto marrom parecido com um míssil passar rapidamente por cima da aeronave.
De acordo com o capitão, o objeto teria passado a cerca de 300 metros acima do avião. Logo depois da aparição, a torre de controle afirmou ao piloto que o único objeto identificado pelo radar estaria a cerca de 10 milhas náuticas atrás do avião da Alitalia.
Investigações das aviações civil e militar não conseguiram explicar o caso. Depois de determinar que o objeto não se tratava de um míssil, balão ou foguete, o Ministério da Defesa fechou a investigação.
Arquivos
O incidente em Kent é um dos 19 arquivos sobre aparições de Ovnis que cobrem os anos de 1986 e 1992 e podem ser baixados do site dos Arquivos Nacionais da Grã-Bretanha.
O governo britânico deve liberar cerca de 200 arquivos sobre as aparições ao longo dos próximos quatro anos. Em maio, os primeiros oito arquivos foram revelados, cobrindo os anos de 1978 a 1987.
Entre os arquivos revelados nesta semana está ainda o relato de um piloto da Força Aérea americana que teria recebido uma ordem de atirar em um Ovni que apareceu em seu radar enquanto sobrevoava a região de East Anglia, no leste da Inglaterra.
Há também uma carta de uma mulher, afirmando ser do sistema planetário Sirius, que diz que sua nave caiu na Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial.
Para o especialista em Ovnis da Universidade Sheffiel Hallam, David Clarke, os documentos oferecem novas informações sobre aparições pouco conhecidas.
"O assunto é deturpado por charlatões e lunáticos e por isso é um crime contra a carreira profissional ter seu nome associado aos Ovnis, o que é uma pena", disse.
"O Arquivo Nacional está fazendo um trabalho fantástico. Cada um pode ter sua própria interpretação", afirmou Clarke.
"Agora é possível olhar para o material primário - as coisas que o Ministério recebe todos os dias - e formar sua opinião", concluiu. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.
Distribuídas em Taiwan fermento chinês com melamina
Cerca de 200 toneladas das 469 importadas já foram vendidas para padarias; importação é proibida
Efe
A empresa local Sesoda Corporation importou 469 toneladas de bicarbonato de amônia procedente de duas empresas chinesas, das quais já foram vendidas cerca de 200 toneladas para padarias.
Os exames de laboratório do departamento encontraram de 70 a 300 partes por milhão de melamina no bicarbonato de amônia importado da China.
Este departamento proibiu a importação de bicarbonato de amônia chinês até que o presente caso seja esclarecido e sejam tomadas medidas mais estritas de revisão.
Este caso é mais um da série de importações de produtos lácteos e de proteínas vegetais chinesas contaminadas com melamina, que levaram à retirada das lojas de produtos de empresas famosas como Nestlé, King Car e Julies.
O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (REVISTA TRIP)
Dois momentos com o irmão, Stanley: na infância em Nova York (acima) e pouco antes de ir para a Bélgica na Segunda Guerra Mundial, em 1944 (abaixo)
Luciano Huck estava em Angra quando Boni, ex-manda-chuva da Globo, o visitou e levou junto um simpático senhor norte-americano. Esse senhor é Joseph Wallach, um nome não muito conhecido fora do pequeno círculo dos que sabem a fundo a história da televisão e a da Rede Globo em especial. Depois de muita conversa, Luciano não teve dúvida: Joe Wallach – que aportou no Brasil em 1965 por conta do polêmico acordo da Rede Globo com o grupo norte-americano Time-Life – tinha de ser entrevistado. E deu a letra à Trip. Pouco antes de embarcar para Los Angeles, nos Estados Unidos, para fazer esta entrevista, Luciano me disse: “Pode perguntar o que quiser, Joe sabe tudo de televisão e conhece a história da TV no Brasil como poucos”.
Joe Wallach me recebe em sua casa em Beverly Hills. Com um sorriso no rosto, dispara: “Veio do Brasil só para ouvir as histórias de um velho?”. Aos 84 anos, ele não aparenta a idade que tem. Provavelmente por conta dos exercícios diários, das partidas de golfe ou das aulas de história que freqüenta na UCLA (Universidade da Califórnia, em Los Angeles) “com os jovens”.
É meio-dia em Los Angeles, começo de verão. Sentamos numa mesa ao lado da piscina e começamos a remexer a memória de Joe para tentar reconstruir uma história com a qual deparamos quase cotidianamente, mas sobre a qual refletimos pouco: a construção da principal rede de televisão do país. Uma história à qual ele ainda se sente ligado, o que transparece em sua defesa constante da Globo. Na realidade, papel de se esperar de um homem que participou ativamente da formação da TV, mas quase sempre longe dos holofotes, em sua sala de onde controlava o setor mais importante para uma operação de sucesso: o caixa.
Mas nem sempre Joe Wallach conseguiu fugir dos holofotes. A Globo nasceu de um acordo com o grupo de mídia norte-americano Time-Life, que investiu US$ 6 milhões para a criação da emissora no Rio de Janeiro, em abril de 1965. Em julho do mesmo ano, Wallach, empregado da Time-Life em uma estação de TV em San Diego, na Califórnia, é mandado ao país, como contratado do grupo norteamericano, para gerenciar a parte financeira e montar a operação da Globo no país.
Ainda em 1965, o então governador do Rio Carlos Lacerda denuncia que o acordo feria o artigo 160 da Constituição brasileira, que impedia estrangeiros de serem proprietários ou dirigirem empresas jornalísticas e de radiodifusão. Em outubro desse ano, é instalada em Brasília uma CPI para investigar se a Globo poderia levar adiante esse acordo, que, segundo a emissora, era apenas um contrato de assistência técnica e outro de financiamento. Ou, como defendeu Roberto Marinho em seu depoimento à CPI, em 1966: “Um contrato de financiamento aleatório, uma vez que não dá nenhum direito de direção ou de propriedade a uma empresa, apenas participando o financiador dessa empresa dos seus lucros e prejuízos”.
Uma das primeiras pedreiras que Joe enfrentou no Brasil foi justamente essa CPI, que, no fim das contas, como tantas outras na história recente do país, deixou tudo como estava. “Mas foi muito duro, tive de depor, em português, durante cinco horas.” Não seria a única na vida desse neto de judeus russos, nascido em Nova York, veterano da Segunda Guerra Mundial e com coração brasileiro. “Meus melhores amigos estão lá, temos toda uma vida juntos.”
Para ajudar a desvendar a história oculta do nascimento da Globo, a Trip convidou dois jornalistas especializados em televisão para fazer perguntas a Wallach: Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, e Paulo Markun, diretor presidente da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura.
Hoje Joe acompanha o Brasil a distância, pela internet e pela Globo Internacional, quer saber se o governo Lula é realmente tudo isso que dizem nos Estados Unidos e o que este repórter acha do “nosso candidato” Barack Obama. Veterano de guerra que é, lamenta a invasão do Iraque e espera que um dia os Estados-nações acabem, “não na minha vida, mas na sua”.
Casado pela segunda vez, Joe é pai de três filhos e o decano de uma família que chama de “multicultural e multirracial”, já que uma de suas filhas é casada com o pianista brasileiro radicado nos Estados Unidos Oscar Castro Neves e outra delas teve uma filha com Sly Stone, líder do cultuado Sly and the Family Stone.
À beira da piscina, numa casa com o maior aparelho de televisão que este repórter já viu na vida fora de feiras de tecnologia, Joe contou, com sua voz pausada, alternando inglês e português (para matar um pouco as saudades do Brasil), os casos de um homem que sabia demais.
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VOCÊ ESTEVE NA SEGUNDA GUERRA?
Quando tinha 19 anos, em 1943, fui treinado e me tornei oficial em infantaria. Aos 21 anos, estava no exército e fui mandado para a guerra na Bélgica, em 1944. Estive em Ardennes, na batalha do Bulge, com neve, muito frio.
FOI FERIDO?
Sim, fui parar num hospital na Bélgica e fiquei em serviço limitado. Depois, me tornei tenente na Polícia Militar por um tempo. Quando a guerra terminou na Europa, eu ainda estava lá. A guerra no Japão continuava, mas eu não precisei ir ao Oriente.
FOI UMA EXPERIÊNCIA FORMADORA NA SUA VIDA?
Ah, sim. Na verdade, eu me casei durante a guerra, em Paris. Fui mandado para Grenoble [França] para estreitar as relações entre americanos e franceses, num curso de seis semanas. Como eu era o único do meu batalhão que tinha feito faculdade, me forçaram a ir e lá conheci minha esposa. Ela era do exército polonês. Ela não sabia inglês nem eu polonês. Falávamos um francês todo quebrado.
QUANDO COMEÇOU A TRABALHAR EM COMUNICAÇÕES?
Muito mais tarde. Trabalhei em diversas empresas na costa leste. Mas a minha esposa começou a ter asma e resolvemos mudar para a Califórnia. Arrumei um emprego na televisão, numa pequena estação em San Diego. Era assistente do gerente e logo me tornei gerente. A Time-Life comprou a estação nessa época e me incorporou.
COMO ERA A TELEVISÃO NESSA ÉPOCA, NOS ESTADOS UNIDOS?
Operávamos uma estação pequena, muito como se faz no interior. Boa parte da programação vinha da rede. Não éramos realmente uma rede nessa época, a Time-Life tinha seis estações no país todo. Nós só produzíamos o jornal local e alguns programas.
EM 1965, VOCÊ FOI DIRETO DE SAN DIEGO PARA O BRASIL. COMO FOI CHEGAR AO BRASIL, NUMA ÉPOCA DE CONVULSÃO SOCIAL, UM ANO DEPOIS DO GOLPE MILITAR? QUAIS ERAM AS SUAS EXPECTATIVAS?
Me pediram para ir ao Brasil por um ano. Achava que seria uma grande experiência para a minha família e pra mim. E foi.
JÁ TINHA FILHOS?
Tinha filhos crescidos. Meu filho, inclusive, começou a PUC no Rio, como calouro. Fui sozinho num primeiro momento, minha família ficou aqui. Adorei o Brasil. Adorei as pessoas.
QUANDO A TIME-LIFE O MANDOU PARA O BRASIL, VOCÊ TINHA ALGUMA IDÉIA DE QUEM ERA O ROBERTO MARINHO, A GLOBO, E DE COMO ERA A MÍDIA NO BRASIL?
Só soube quando cheguei. Foi tudo muito rápido. A Globo era só uma estação no Rio de Janeiro. Nós tínhamos 700 pessoas, 70 eram da orquestra. Eu achava bem estranho o jeito como ela operava. Mas a TV Rio estava em primeiro lugar na época, nós estávamos em quarto, passando uns programas americanos dublados em português, coisas ridículas como A família Buscapé. Roberto Marinho havia comprado a TV Paulista, em São Paulo, um ano antes, mas ninguém tinha ido lá. Fui o primeiro a ir a São Paulo. Sem ninguém saber, fui lá para visitá-la.
FOI NESSA IDA QUE VOCÊ ENCONTROU O WALTER CLARK?
O que aconteceu foi o seguinte: fui ver a estação. Não estava funcionando. O gerente era o Rubens Amaral, que vinha do rádio. Era o homem de confiança do Roberto Marinho, mas não entendia nada de televisão. A emissora estava morta, sem nenhuma audiência. A única coisa que tinha era o Silvio Santos, que ficava no ar do meio-dia até as oito da noite, e tinha alguma audiência. Nosso sinal não cobria toda a cidade. Eu estava totalmente desencorajado, pensando: “Bom, isso não vai funcionar, vou voltar e dizer à Time-Life que essa coisa toda não vai dar certo”. Daí, em São Paulo, fui apresentado ao Roberto Montoro, porque eu estava procurando por alguém de vendas. O Montoro disse: eu posso vender, mas queria trazer um menino comigo para trabalhar em vendas no Rio. Era Walter Clark.
WALTER CLARK ERA MUITO JOVEM QUANDO VOCÊ O CONTRATOU. VOCÊ SENTIU QUE ELE TINHA O TALENTO PARA TOCAR A TV?
Oh, yes. Ele tinha 27 anos, era muito jovem, parecia ter 21. Mas era um estrategista brilhante e conhecia programação muito bem. Sabia que ele era bom e foi assim que começou. Os dois [Montoro e Clark] começaram em dezembro de 1965. Quatro meses depois, nós tentamos levar o Boni para trabalhar conosco, mas ele estava na TV Tupi, a maior rede da época, fazendo o programa do Moacyr Franco, ganhando muito dinheiro. Walter tentou convencê-lo a vir trabalhar conosco, nós oferecemos metade do que ele ganhava, e o Boni ficou na TV Tupi. Só dois anos depois, em 1967, ele foi trabalhar conosco.
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QUANDO ROBERTO MARINHO DECIDIU IR PARA A TELEVISÃO, ELE COMPROU UMA BRIGA COM ASSIS CHATEAUBRIAND E HOUVE UMA GRANDE CAMPANHA CONTRA O DONO DA GLOBO FEITA PELOS DIÁRIOS ASSOCIADOS. COMO VOCÊ SE SENTIA EM RELAÇÃO A ISSO, SENDO ESTRANGEIRO E NÃO CONHECENDO DIREITO O JEITO BRASILEIRO DE FAZER POLÍTICA? O QUE ELES QUERIAM SABER? MAS, NESSE COMEÇO, VOCÊ NÃO MANDAVA NA GLOBO DE FATO?HÁ RELATOS DE QUE O ROBERTO MARINHO NEM FICAVA NA TV E ERA BEM MAIS LIGADO AO JORNAL. E A HISTÓRIA, QUE ESTÁ NO LIVRO NOTÍCIAS DO PLANALTO, DO JORNALISTA MARIO SÉRGIO CONTI, DE QUE QUANDO O ROBERTO MARINHO IA À GLOBO ELE FICAVA NA SUA SALA? EUGÊNIO BUCCI: HÁ HOJE NO BRASIL UMA POLÊMICA EM TORNO DA FUSÃO ENTRE AS EMPRESAS DE TELECOMUNICAÇÃO BRASIL TELECOM E OI. PARA QUE A FUSÃO SEJA EFETIVADA, REGRAS DO SETOR TERÃO DE SER ALTERADAS, O QUE JÁ ESTÁ EM CURSO. ALGUNS ARGUMENTAM QUE É DO INTERESSE NACIONAL TER UMA GRANDE EMPRESA DE TELECOMUNICAÇÃO PARA CONCORRER COM AS GIGANTES ESTRANGEIRAS, O QUE JUSTIFICARIA ESFORÇOS DO PRÓPRIO GOVERNO PARA MUDAR A REGRA. FAZENDO UM PARALELO HISTÓRICO, O ACORDO ENTRE GLOBO E TIME-LIFE TAMBÉM TEVE SUA LEGALIDADE QUESTIONADA E CHEGOU A SER ALVO DE UMA CPI. O ACORDO GLOBO–TIME-LIFE ATENDEU AO INTERESSE NACIONAL OU APENAS AO DAS EMPRESAS ENVOLVIDAS? O ACORDO FOI LEGAL OU NÃO? QUE TIPO DE MANOBRA JUNTO AO PODER FOI NECESSÁRIO PARA A APROVAÇÃO? A HISTÓRIA EMPRESARIAL DE SUCESSO DA GLOBO JUSTIFICA AQUELE ACORDO? MAS NÃO TEVE TAMBÉM TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA, UMA ASSISTÊNCIA TÉCNICA MAIS PROFUNDA, DE ENSINAR A FAZER TELEVISÃO MESMO? MAS VOCÊ JÁ TINHA TODO O KNOW-HOW DE TELEVISÃO, NÃO? |
QUE MANOBRAS A GLOBO FEZ PARA CONSEGUIR FAZER VINGAR O ACORDO COM A TIME-LIFE?
O acordo feito foi de locação. A Time-Life pagou para comprar prédios e instalações, e aí a Globo pagou um aluguel baseado no lucro, que nunca aconteceu. Porque a Globo nunca tinha lucro, então nunca deu nada [risos]. Mas foi baseado em 45% do lucro.
É VERDADE QUE O QUE FOI PAGO À TIME-LIFE FOI APENAS O INVESTIMENTO FEITO E SEM JUROS?
Pagamos menos que se fossem cobrados juros, e em quatro anos! Eles puseram de US$ 5 a 6 milhões. Nós pagamos a eles US$ 6,85 milhões. Demos US$ 500 mil à vista e o resto durante quatro anos.
FOI UM JEITO DE ACABAR COM A POLÊMICA QUE TE LEVOU À CPI?
Sim, porque depois nós podíamos expandir e criar a rede. Antes nossa atuação havia sido limitada só ao Rio e a São Paulo.
POR QUE VOCÊ DECIDIU FICAR NO BRASIL DEPOIS DO FIM DO ACORDO COM A TIME-LIFE?
Dr. Roberto disse: “Joe, eu compro a parte da Time-Life se você ficar e vou fazer sua vida aqui”. Ele não queria que eu voltasse. Em Nova York estavam começando a HBO e fui convidado a vir para cá, mas preferi ficar com Roberto. Aí eu me naturalizei brasileiro.
TEM DUPLA CIDADANIA?
Agora, sim, mas na época renunciei à cidadania americana, em 1971 ou 1972. Fiquei apenas brasileiro até há poucos anos, quando o governo do Brasil passou a permitir a dupla cidadania.
E QUAL FOI A ESTRATÉGIA PARA A GLOBO SAIR DA POSIÇÃO DE QUARTO LUGAR NO RIO E RAPIDAMENTE SE TRANSFORMAR NA EMISSORA LÍDER DO BRASIL?
Bom, aconteceu em duas fases. Na primeira fase, era o Walter Clark sozinho. Houve uma grande enchente no Rio em janeiro de 1966. Walter parou a estação completamente. Colocou as câmeras no pátio, na rua Von Martius [na Gávea], e mostrou as pessoas lá no morro, as casinhas caindo, aquela água toda, porque lá perto virou um rio e nós não pudemos sair da estação por três dias. Nessa época ninguém fazia externa, e o povo começou a assistir. Walter tinha pedido assistência para os coitados nas favelas, daí as pessoas começaram a chegar à Globo com roupas e mantimentos. E nós, no teatro, cheios de roupas e comidas. Daí o povo começou a sentir simpatia pela Globo, e a audiência começou a subir.
MESMO MANTENDO OS ENLATADOS?
Não, Walter mudou a programação. Cancelei muita coisa com os americanos. Tínhamos muitos filmes. Começou com a sessão de cinema às dez da noite, com Célia Biar e um gato que Walter criou. Depois ele fez uma novela no pátio da Globo. A primeira que pusemos no ar, às 21h30, com Carlos Alberto e Yoná Magalhães.
E DEU PARA ENFRENTAR A CONCORRÊNCIA NA ÉPOCA?
O que aconteceu foi que, no início, Walter comprou da Record o programa de Roberto e Erasmo Carlos, mas foi com a novela Eu compro essa mulher que chegamos ao primeiro lugar de audiência. E tudo feito no pátio. A novela se passava num barco. Ele montou um navio lá no pátio de Von Martius e filmávamos lá.
E QUANDO SÃO PAULO FOI INTEGRADA AOS PLANOS DA GLOBO?
Montoro ficou lutando como gerente-geral de São Paulo, mas, no começo, não tinha microondas [tecnologia que permitiu a formação da rede], era tudo totalmente separado. Os programas que o Montoro criou não deram em nada. Outro problema era que o sinal em São Paulo era muito fraco e o governo militar não nos deixou importar um transmissor. No começo, tudo era ao vivo. Mas compramos um videoteipe e gravamos Eu compro essa mulher. Também começamos com o Chacrinha, que levamos da TV Excelsior. Ele fazia dois programas no Rio por semana, pegava a ponte aérea e fazia outro programa em São Paulo. Mas a TV Paulista era último lugar em audiência. Levamos cinco anos para chegar ao primeiro lugar em São Paulo. E foi o Boni que fez isso.
COMO?
Quando ele chegou, em 1967, foi a São Paulo e viu as coisas todas. Houve uma briga entre ele e Montoro, que foi demitido, e ele começou a trabalhar em São Paulo. Boni era um homem muito forte. Walter era carismático, estrategista, mas não era forte. Ele queria que Boni tomasse conta da programação, porque sabia que ele resolveria as coisas.
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E COMO ERA A RELAÇÃO DA GLOBO COM A DITADURA?
Roberto Marinho não era favorável ao governo, mas a quem ele mais gostava. De certo modo, penso que ele era um homem democrático. Não era da esquerda, era bastante de centro em suas crenças. Ele não gostava dos militares, mas sempre dançou conforme a música. Sabe, se eles estão tocando determinada música, para se manter vivo, você vai lá e dialoga com eles. Mas ele mesmo sempre esteve no meio do caminho.
O GOVERNO MILITAR, AO INVESTIR NA INFRA-ESTRUTURA DE COMUNICAÇÃO, ACABOU AJUDANDO A REDE GLOBO A FORMAR A SUA REDE, NÃO?
Muita gente disse isso, mas eu vou contar a minha percepção. Primeiro sobre o conteúdo da programação. Você sabe que os artistas, o pessoal da televisão, eram liberais, eram mais à esquerda. Não gostavam nada dos militares. As novelas, tudo que eles escreveram, começando com o Dias Gomes, mas também o nosso jornalismo, estavam tentando mostrar a realidade. Os militares queriam censurar. Tínhamos de mandar todos os roteiros para Brasília e tentaram entrar no jornalismo. Aí houve muita briga entre Roberto Marinho e os militares, ele não cedia. Não existia nenhum acordo entre eles. Pelo contrário. Eles diziam: “Nós vamos tirar a Globo do ar”. E a Globo dizia: “Vocês nos tiram do ar, e o povo vai saber que vocês nos tiraram”. Foi constante esse embate com a ditadura. Nós tentávamos fazer a programação, e eles não queriam. Até parte de nossos jornalistas foi presa.
SIM, MAS E A QUESTÃO DA ESTRUTURA?
O governo, o Ministério das Telecomunicações, queria ampliar a telefonia e criou a Embratel. O governo gastou dinheiro nos telefones. Apenas 20 pessoas de cada 100 tinham acesso ao telefone no Brasil. Então eles criaram a transmissão por microondas para a telefonia. Paralelamente, as microondas podiam ser usadas para transmitir as ondas da TV. Eles não fizeram nada para nós. Quando você lê que o governo ajudou, não é verdade, ajudou coisa nenhuma. Aliás, a Embratel nos cobrou uma fortuna para usar aquele sistema. Mas lógico que, com a chegada do microondas pelo país, aí nós começamos a implementar a rede. Nos anos 70, de 72 a 76, eu e o Boni rodamos o Estado de São Paulo e construímos mais ou menos 400 pequenos lugares [retransmissores] em cidades para receber a televisão. Como não tinha satélite, foi tudo através de microondas. Nós íamos a cada prefeito e construíamos pequenos prédios para receber aquelas microondas. Foi um trabalho muito intenso durante alguns anos.
![]() | QUANDO ESSE PROCESSO TERMINA, A GLOBO JÁ É LÍDER EM AUDIÊNCIA EM TODO O PAÍS. ESSA LIDERANÇA VEM APENAS DA PROGRAMAÇÃO, DO GÊNIO DE WALTER CLARK? TINHA ESSA FAMA DE QUE ELE ERA TAMBÉM UM MULHERENGO... E VOCÊ TAMBÉM TEVE O SEU LADO MULHERENGO NO RIO? |
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MAS VOCÊ SE SEPAROU NO BRASIL. COMO FOI A FASE DE SOLTEIRO?
Foi boa, saí com namoradas. Eu me separei em janeiro de 73, fiquei solteiro por 15 anos até casar com minha mulher maravilhosa e linda [nos Estados Unidos].
E FAZIA MUITA FARRA NO RIO?
Sim, morava com uma, com outra. Mas não com gente da TV, porque eu não queria perder a moral. Mas com mulheres maravilhosas, lindas, cultas. Não vou dizer quem são.
| E A SAÍDA DO WALTER CLARK DA GLOBO EM 1977? HÁ QUEM DIGA QUE FOI OBRA DO BONI. COMO VOCÊ VIU ESSA SAÍDA? AÍ O BONI VIRA O NÚMERO UM DA REDE GLOBO?
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E INSTITUIU O FAMOSO PADRÃO GLOBO DE QUALIDADE... VOCÊS SÃO MUITO PRÓXIMOS ATÉ HOJE? TEM SAUDADES DA COMIDA DELE? PAULO MARKUN: A GLOBO É A HOLLYWOOD BRASILEIRA? E QUANDO VOCÊ SAIU DA GLOBO? O QUE FEZ NA VOLTA AOS ESTADOS UNIDOS? POR QUE DECIDIU FAZER UM CANAL LATINO NOS ESTADOS UNIDOS? E O COMEÇO DA GLOBOSAT, COMO FOI? |
ENTREVISTEI O BONI RECENTEMENTE E ELE DISSE QUE UMA DAS PRAGAS NO BRASIL HOJE É A PARABÓLICA. VOCÊ CONCORDA COM ISSO?
Hoje em dia? Parabólica é bom para quem não mora nas cidades grandes, e agora com a antena pequena ela concorre bem, é um dos caminhos. Cabo é difícil, a parte mais importante é que o brasileiro não tem poder aquisitivo para pagar a mensalidade. Por isso a TV por assinatura não avançou.
COMO VOCÊ ENXERGA A HEGEMONIA DA GLOBO NA TV BRASILEIRA? É SAUDÁVEL?
Para ter qualidade é preciso gastar dinheiro. O bolo de anunciante é limitado, e você precisa, para produzir com qualidade, ter uma boa fatia desse bolo, senão a qualidade vai sofrer. A Globo, porque tem padrão de qualidade e audiência, tem o dinheiro para gastar. O capítulo de uma novela está custando muito. Mas a Globo está tendo concorrência agora, pela TV Record, por quê? Porque o bispo, que tem a igreja com tanto dinheiro entrando, está inflacionando o mercado com esse dinheiro, fazendo a mesma coisa que a Globo.
ACHA QUE A TV ABERTA SOFRE POR NÃO TER UMA PROGRAMAÇÃO BOA?
A da Rede Globo, em comparação com o que se vê nos outros países, inclusive aqui, é muito boa. Na qualidade e na inovação... A prova é que a TV no Brasil mata o cinema, porque é de graça e para o povão.
ACHA QUE A TELEVISÃO NO BRASIL SER UMA CONCESSÃO PÚBLICA É ALGO QUE DEVE ACABAR?
Isso irá desaparecer. Com tantas outras formas de ter acesso à informação, como o celular. Veja você e os jovens, o futuro é a internet, a televisão vai perder a força. É um mundo diferente, onde há esperança e muito conflito,
já que cada país tem seus interesses. Mas eu acredito, e é uma crença maluca de um velho, que a idéia de um país como uma nação está em declínio. Nós vamos ver mais e mais organizações se tornarem importantes, isso acontece com o meio ambiente, com os Médicos sem Fronteiras. Eles fazem a diferença, e esse tipo de organização mundial vai tomar o lugar das nações. Não é algo que eu vá ver na minha vida, mas acho que você verá na sua.
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COMO A INTERNET MUDA A TV?
Mudou tudo, TV, cinema, filmes. Um BBB fatura tanto quanto um filme, isso sem falar dos videogames. A televisão está mudando completamente aqui e vai mudar lá também por causa da internet. Não sei se a Globo faz isso, mas aqui, se você perder um capítulo de uma novela, eles deixam na internet por três dias para você poder ver depois. E, com o celular, tudo vai mudar. Notícias e esporte, você vai ver no telefone. Hoje eu estou fora, velho, mas vejo que a Globo Internacional é uma força. Você assiste aqui às novelas no mesmo dia. Eu tenho internet e vejo tudo, jornal, novela, tudo.
E COMO VÊ A TV HOJE?
A televisão aqui está mais ou menos. Hoje o que vende, o mais popular, é o American Idol. É música, né? Vem da Inglaterra e todo mundo vai copiar. Copia aqui, copia ali.
O QUE ACHA DOS REALITY SHOWS, DO BIG BROTHER?
Big Brother já passou, mas lá no Brasil é um fenômeno. Aqui as pessoas já estão em outra. São programas mais baratos, o custo é muito menor do que produzir séries, e dá audiência! No cabo estão produzindo coisas mais avançadas, como Weeds, Entourage. Mais pra frente, não é? Com linguagem cinematográfica.
AINDA PENSA EM PROJETOS DE TV?
Estou estudando montar um canal hispânico só de novelas, 24 horas por dia. Como o American Movie Classics, mas só de telenovelas, só com aquelas produzidas antes dos anos 90, para não concorrer com os atuais. Um terço será de novelas brasileiras.
QUAIS SÃO AS SUAS PREFERIDAS?
Eu saí do Brasil em 1980. Então eu vou falar Bandeira 2, Gabriela... Não dá, ninguém mais sabe o que foram essas novelas.
NUM ARTIGO SOBRE AS TELENOVELAS BRASILEIRAS, A PROFESSORA SILVIA HELENA SIMÕES BORELLI AFIRMA QUE A TELENOVELA BRASILEIRA É MUITO COMPLEXA PARA O PÚBLICO HISPÂNICO. CONCORDA COM ESSA TESE?
Ela tem razão, a cultura brasileira é diferente da cultura mexicana. No Brasil, a cultura é mais sofisticada. O povo que vem para cá é realmente mais simples. Nossa empregada, por exemplo, veio da Guatemala a Los Angeles a pé! São pessoas do campo. Tem exceções. O clone, quando apareceu, foi diferente. Mas eles adoram os cenários, as roupas.
![]() | QUEM SÃO SEUS GRANDES AMIGOS BRASILEIROS? |
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ENTÃO SENTE MUITA FALTA DOS AMIGOS BRASILEIROS?
Muita falta, são amigos de coração. Armando Nogueira, que está doente, Boni, meu querido, um homem fabuloso. Mas são velhos... Daniel Filho, um verdadeiro gênio, quem sabe mais de cinema internacional que ele? O próprio Chico Anysio, o que ele podia ter sido se nascesse aqui nos Estados Unidos?
HOJE COMO É A SUA VIDA, A TV AINDA MEXE COM VOCÊ?
Mexe muito, mas minha paixão hoje é história. Vou à faculdade, à Ucla, e estudo a história de todos os países do mundo. Como a China era há 2 mil anos. A Índia, o Brasil. Vou lá com os alunos, estudo as culturas. Isso é o principal. Outra coisa é que eu jogo golfe e faço muita ginástica, todos os dias.
Agradecimento: Luciano Huck
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