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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Brasil: Coração de Eloá é transplantado em mulher de 38 anos


O coração de Eloá está sendo transplantado, nesta manhã, em uma mulher de 38 anos, no hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo.

Reportagem de Henri Karam.

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26/10/2008 free counters

Cientistas mexicanos usam tequila para produzir diamantes

da Efe, no México

Pesquisadores da Unam (Universidad Nacional Autónoma de México) conseguiram produzir diamantes a partir de acetona, etanol, metanol e tequila, segundo informou nesta quinta-feira o doutor em física Luis Miguel Apátiga, líder do projeto.

Fernando Donasci/Folha Imagem
"Um dia passei em uma loja perto do campus da universidade e comprei uma garrafa de tequila", disse o líder do projeto
"Um dia passei em uma loja perto do campus da universidade e comprei uma garrafa de tequila", disse o líder do projeto

Segundo ele, a "curiosidade científica" o levou a produzir diamantes microscópicos a partir da tequila. A história da descoberta remete a 1995, quando esses cientistas investigavam uma maneira de obter diamantes a partir de gases de hidrocarbonetos comuns como o metano, acetileno e o butano.

No final do século passado, conseguiram passar esses gases por uma fonte de energia, romper as moléculas do gás em fragmentos menores e obter átomos de carbono, que foram depositados em um substrato sobre o qual formaram estruturas de diamantes em escala nanométrica.

A primeira aplicação que encontraram para o experimento foi utilizar os diamantes como detectores de radiação, já que são muito sensíveis à luz ultravioleta.

"Detectamos vários tipos de radiação de partículas alfa, beta e ultravioleta. Também fizemos algumas publicações em revistas como 'Journal of Material Science' e 'Materials Letters'", disse Apátiga.

Tequila

Em 2007, Apátiga se mudou para um campus da Unam na cidade de Querétaro, no centro do México, onde retomou as pesquisas. Em vez de utilizar gases, empregou líquidos como a acetona, etanol e metanol, acrescentando também água e introduzindo em equipamentos desenvolvidos na Lituânia para produção de cerâmica.

O mecanismo aquece o líquido a 280ºC e o evapora, depois o leva a uma câmara com uma temperatura de 800ºC, onde as moléculas do vapor se rompem em fragmentos menores, nos quais há átomos de carbono, hidrogênio e oxigênio pela água.

Como às vezes utilizava 40% de etanol e 60% de água na mistura, proporção similar a encontrada na tequila, Apátiga tentou usar a bebida alcoólica.

"Um dia passei em uma loja perto do campus da universidade e comprei uma garrafa de tequila, fizemos o experimento e na primeira tentativa correu tudo bem", lembrou.

Agora os cientistas mexicanos estudam a razão pela qual os diamantes obtidos com a tequila têm uma forma menos circular que os demais produzidos com compostos puros.

"Estamos vendo se os compostos da tequila podem ter algum papel na síntese do diamante", disse.



Erramos: Cientistas mexicanos usam tequila para produzir diamantes



da Folha Online

Diferentemente do publicado na reportagem Cientistas mexicanos usam tequila para produzir diamantes, --matéria da agência Efe, reproduzida pela Folha Online (Ciência - 16/10/2008 - 18h10)-- as estruturas de diamantes em escala nanométrica foram obtidas a partir de átomos de carbono, e não carvão. O texto já foi corrigido

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26/10/2008 free counters

Brasil: Drama em São Paulo termina com duas adolescentes atingidas a tiro



d.r.
19 Outubro 2008 - 00h30


Sequestro com desfecho trágico

Terminou em grande tragédia o sequestro de duas adolescentes de 15 anos que foram mantidas cinco dias em cativeiro num apartamento na periferia da cidade de São Paulo (Stº André) por um metalúrgico de 22 anos, Lindemberg Fernandes Alves, ex-namorado de uma delas, furioso com o final do romance.



Perante a intransigência do raptor em se entregar , forças especiais da polícia invadiram o apartamento e uma das reféns, Eloá Pimentel, precisamente a ex-namorada do raptor, acabou por ser baleada na virilha e na cabeça. Ontem, à hora de fecho desta edição, a jovem estava em coma irreversível. A amiga, Nayara Rodrigues, também atingida a tiro, estava livre de perigo, depois de ter sido operada. O criminoso foi preso.

A polícia garante que invadiu o apartamento usando apenas balas de borracha e afirma que os tiros foram disparados da arma de Lindemberg. A invasão só terá sido decidida depois de agentes terem ouvido disparos no apartamento. Mas, segundo testemunhos de jornalistas presentes no local, não foram ouvidas quaisquer detonações.

Lindemberg, inconformado com o fim do namoro, invadiu na segunda-feira o apartamento de Eloá, onde esta estava com Nayara e dois colegas. Estes e Nayara foram libertados pouco depois. No entanto, Nayara voltou ao apartamento na quinta-feira, autorizada pela polícia, para ajudar nas negociações com o sequestrador e acabou por ser de novo feita refém.

UMA PAIXÃO TUMULTUOSA

A paixão que uniu Lindemberg a Eloá, e que terminou de forma tão trágica, sempre foi atribulada. Ela, que tinha apenas 12 anos quando se envolveu com ele, é descrita como uma menina caprichosa, que, conforme foi crescendo e se foi tornando mulher foi aumentando os ciúmes do rapaz, que já tinha 19 anos quando começaram a namorar.

Líder estudantil, cada vez mais bonita e independente, Eloá despertava crescentes ciúmes no namorado, sucedendo-se os rompimentos e as reconciliações. Eloá, hoje com 15 anos, decidiu criar uma página no site de relacionamentos orkut e a relação piorou. Parecia que a história tinha terminado, até que Lindemberg descobriu que outro rapaz começava a aproximar-se de Eloá. Louco de ciúmes, decidiu vingar-se.

SAIBA MAIS

ABÍLIO SANTOS DINIZ

Um dos sequestros mais famosos foi o do empresário luso-brasileiro Abílio dos Santos Diniz, dono do Pão de Açúcar, raptado em São Paulo por terroristas chilenos e argentinos em 1989. Ficou mais de um mês em cativeiro, até a polícia descobrir a casa, onde era mantido num buraco.

121 DIAS

durou o mais longo sequestro da história do Brasil, ocorrido no início da actual década. A vítima foi um jovem empresário do estado de São Paulo.

REPÓRTER DA GLOBO

Em Agosto de 2006, o repórter da TV Globo Guilherme Portanova e o operador de câmara que o acompanhava foram sequestrados numa pastelaria em São Paulo por criminosos ligados à facção Primeiro Comando da Capital. Só foram libertados após três dias, depois de a Globo exibir um vídeo da facção com um comunicado.

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26/10/2008 free counters

Polícia acusada de erro fatal



A demora na intervenção e o desenlace da mesma ameaçam desencadear inquérito à acção policialA demora na intervenção e o desenlace da mesma ameaçam desencadear inquérito à acção policial
20 Outubro 2008 - 00h30

Brasil: Adolescente baleada durante sequestro em S. Paulo morre no hospital


Eloá Cristina Pimentel – a menina de 15 anos que foi mantida refém durante cinco dias pelo ex-namorado, Lindemberg Fernandes Alves, de 22 anos, num apartamento em Santo André, periferia de São Paulo, e que foi baleada durante a invasão policial ao cativeiro – teve morte cerebral confirmada pelos médicos na madrugada de ontem. Paralelamente crescem as críticas à polícia, responsabilizada pelo desfecho trágico do cerco de cinco dias.

Com um tiro na virilha e outro na cabeça, que lhe destruiu o cérebro e se alojou na nuca, ao dar entrada no hospital na noite de sexta-feira Eloá já não tinha quase nenhuma probalidade de sobrevivência e o pior acabou por acontecer.

As circunstâncias em que a adolescente foi baleada continuam pouco claras, mas a polícia paulista aparece cada vez mais como grande responsável pelo trágico desfecho do mais longo sequestro do género no estado de São Paulo. A polícia afirma que só invadiu o apartamento depois de ouvir tiros dados por Lindemberg contra Eloá e a outra refém, Nayara Rodrigues, também de 15 anos, atingida por um tiro no rosto mas que, depois de operada, se encontra livre de perigo. Essa versão é desmentida pela multidão de repórteres que cobria o caso no local. Todos são unânimes em asseverar que as detonações de arma de fogo só ocorreram depois de a polícia invadir a residência, cuja porta foi derrubada com explosivos.

Fica cada vez mais claro que foi a desastrada invasão policial, ocorrida quando um promotor de justiça e um advogado contratado pela família de Lindemberg já o tinham convencido a entregar-se, que fez com que ele atirasse sobre as adolescentes, caso se confirme que as balas saíram mesmo do revólver que empunhou desde segunda-feira, quando, inconformado com o fim do namoro decidido pela adolescente, invadiu o apartamento de Eloá, até sexta, quando foi preso.

Ontem, assim que a morte de Eloá foi confirmada, a família da menina decidiu doar os seus órgãos para transplante. Enquanto isso, na cadeia onde está isolado para não ser morto pelos outros presos, Lindemberg recusa-se a falar sobre o tresloucado acto e repete sem cessar que ama Eloá e que a quer de novo a seu lado. Com a morte da adolescente, pode ser condenado a várias dezenas de anos de prisão.

MAIS DADOS

CORAGEM ATÉ AO FIM

Nos últimos cinco dias de vida, nos quais foi refém do ex-namorado, Eloá mostrou coragem. Espancada pelo ex-namorado, não se submeteu e chegou inclusive a desafiá-lo.

DECISÃO POLÉMICA

Criticado pela demora em agir, o coronel Eduardo Félix, que comandou o cerco, piorou as coisas ao afirmar que a polícia não abateu o sequestrador por ele não ser um bandido e sim um jovem trabalhador a sofrer por amor.

Domingos G. Serrinha, correspondente São Paulo

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26/10/2008 free counters

Jornal português diz que ação da polícia de SP foi "desastrada" em seqüestro


A "desastrada" ação da polícia paulista pode ter sido responsável pelo trágico desfecho do seqüestro que levou à morte da adolescente Eloá Cristina Pimentel, diz uma matéria publicada na edição desta segunda-feira do jornal português "Correio da Manhã".

Eloá, de 15 anos, foi mantida como refém durante cinco dias pelo ex-namorado, Lindemberg Fernandes, em um apartamento em Santo André, na região metropolitana de São Paulo.

A adolescente foi baleada durante a invasão policial no cativeiro e teve a morte cerebral confirmada na madrugada de domingo.

"As circunstâncias em que a adolescente foi baleada continuam pouco claras, mas a polícia paulista aparece cada vez mais como grande responsável pelo trágico desfecho do mais longo seqüestro do gênero no Estado de São Paulo", diz a matéria, assinada pelo correspondente do jornal em SP, Domingos Serrinha.

Além de Eloá, uma amiga da adolescente, Nayara Vieira, também foi mantida como refém e acabou sendo baleada com um tiro no rosto pelo seqüestrador. A menina está internada em recuperação.

"Desastrada"

Segundo o jornal, há um conflito entre a justificativa da polícia em invadir o cativeiro e a declaração de repórteres que cobriam o caso do lado de fora do apartamento.

O diário cita a afirmação da polícia de que a decisão sobre a invasão teria sido tomada depois que barulhos de tiros foram ouvidos do lado de fora do cativeiro. No entanto, os repórteres ouvidos pelo jornal afirmam que os tiros só foram disparados depois da invasão policial no apartamento, cuja porta foi detonada com explosivos.

"Fica cada vez mais claro que foi a desastrada invasão policial, ocorrida quando um promotor de Justiça e um advogado contratado pela família de Lindemberg já o tinham convencido a entregar-se, que fez com que ele atirasse sobre as adolescentes", afirma o jornal.

De acordo com o Correio da Manhã, Eduardo Félix, que comandou a operação policial, "piorou as coisas ao afirmar que a polícia não abateu o seqüestrador por ele não ser um bandido e sim um jovem trabalhador a sofrer por amor".

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26/10/2008 free counters

1º pedido para psicocirurgia em SP vira disputa


Médicos não chegam a acordo sobre operação no cérebro de rapaz com agressividade e Justiça intervém

Fabiane Leite


O primeiro pedido oficial para a realização de uma psicocirurgia no Estado de São Paulo transformou-se numa disputa judicial, sem prazo para acabar. Desde o ano passado Deuselina de Meneses tenta, por meio da Justiça Federal, que seu filho de 28 anos possa ter o cérebro operado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com o objetivo de combater crises de agressividade do rapaz.

M., que também é portador de retardo mental, veio do Piauí com aval da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e está internado no Instituto de Psiquiatria do HC, na zona oeste da capital paulista, desde 2006. Foi o primeiro paciente com indicação para a polêmica cirurgia a ter o caso analisado por um grupo de médicos escolhidos pelo Conselho Regional de Medicina do Estado.

A psicocirurgia é uma operação neurológica para tratar distúrbios psiquiátricos, também chamada de cirurgia psiquiátrica. Desde 1994 uma resolução do Conselho Federal de Medicina, órgão que regula a atividade médica, determina o aval de especialistas indicados pelos conselhos estaduais para a realização do procedimento. No entanto, médicos vinham desrespeitando a regulamentação, o que causou, desde 2003, aperto na fiscalização.

O conselho paulista recebeu o pedido de médicos do HC para a realização da cirurgia em M. no fim de 2006 e o negou no início de 2007, mas a família recorreu à Defensoria Pública da União, que ingressou com ação. Em agosto deste ano a Justiça Federal em São Paulo ordenou que o procedimento fosse realizado em 48 horas, o que o HC não cumpriu. Dois meses depois, o Tribunal Regional Federal suspendeu a ordem, até que se tenha certeza de que a cirurgia é necessária. A operação é irreversível e pode deixar seqüelas, apesar dos resultados serem positivos na maior parte dos casos.

"Sei que esta cirurgia não vai trazer a mente dele de volta, é só para diminuir as agressões. Não quero que meu filho fique trancado no hospital. Quero meu filho ao meu lado", argumenta Deuselina, de 50 anos, mãe de M., que chora ao recordar os mais de 20 anos de espera em filas de atendimento, buscas por escolas, trocas de remédios e internações. As crises de agressividade do rapaz, que já a machucaram, começaram quando ele tinha 5 anos. Segundo laudos médicos, ele sofre de agressividade imotivada, causada por "alterações disritmicas das pulsações cerebrais", relacionadas a possíveis alterações no cérebro.

O conselho de medicina paulista vetou a psicocirurgia no caso de M. com a justificativa principal de que outras alternativas medicamentosas e terapêuticas não tinham sido tentadas e de que não havia evidências científicas dos resultados do método em portadores de retardo.

A psiquiatra Eda Zanetti, que recebeu M. no HC e também o considerou apto à cirurgia, refutou o parecer, afirmando que o rapaz já tentou diferentes remédios e terapias e sofreu ainda com graves efeitos adversos das drogas. O próprio conselho do Instituto de Psiquiatria do HC, no entanto, se manifestou contrário à cirurgia. E o hospital não a realizou, apesar da ordem.

CRÍTICA

A decisão do juiz federal Victório Giuzio Neto, da 24ª Vara Cível, que ordenou a realização do procedimento, é considerada brilhante pela defensoria, por ter levado em conta recomendação para o procedimento feita por médicos que cuidaram do rapaz no Piauí e de profissionais que analisaram o caso no HC. "Os médicos indicados pelo conselho (e que negaram a cirurgia) ficaram apenas algumas horas com ele", diz a defensora Paula Martins.

O juiz também criticou trecho do parecer do conselho em que o órgão afirma que a mãe teria dito "mimar" o filho. "Jamais falei isso", diz Deuselina. Giuzio Neto também atacou a demora do conselho para expedir o parecer . E por fim anotou: "O CRM optou pela saída mais cômoda, deixar como está para ver como fica".

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26/10/2008 free counters

Avião 'quase se chocou com Ovni' em 91 na Inglaterra

segunda-feira, 20 de outubro de 2008, 08:39 |

Relato é parte dos arquivos secretos divulgados pelo Ministério da Defesa britânico.


- Um avião de passageiros da companhia aérea italiana Alitalia quase se chocou com um Ovni (Objeto Voador Não Identificado) quando sobrevoava a cidade inglesa de Kent, em 1991, de acordo com arquivos do Ministério da Defesa britânico divulgados nesta segunda-feira.

Segundo o registro, divulgado pelo Arquivo Nacional, o piloto do avião gritou "Olha isso, olha isso!" para o co-piloto ao ver um objeto marrom parecido com um míssil passar rapidamente por cima da aeronave.

De acordo com o capitão, o objeto teria passado a cerca de 300 metros acima do avião. Logo depois da aparição, a torre de controle afirmou ao piloto que o único objeto identificado pelo radar estaria a cerca de 10 milhas náuticas atrás do avião da Alitalia.

Investigações das aviações civil e militar não conseguiram explicar o caso. Depois de determinar que o objeto não se tratava de um míssil, balão ou foguete, o Ministério da Defesa fechou a investigação.

Arquivos

O incidente em Kent é um dos 19 arquivos sobre aparições de Ovnis que cobrem os anos de 1986 e 1992 e podem ser baixados do site dos Arquivos Nacionais da Grã-Bretanha.

O governo britânico deve liberar cerca de 200 arquivos sobre as aparições ao longo dos próximos quatro anos. Em maio, os primeiros oito arquivos foram revelados, cobrindo os anos de 1978 a 1987.

Entre os arquivos revelados nesta semana está ainda o relato de um piloto da Força Aérea americana que teria recebido uma ordem de atirar em um Ovni que apareceu em seu radar enquanto sobrevoava a região de East Anglia, no leste da Inglaterra.

Há também uma carta de uma mulher, afirmando ser do sistema planetário Sirius, que diz que sua nave caiu na Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial.

Para o especialista em Ovnis da Universidade Sheffiel Hallam, David Clarke, os documentos oferecem novas informações sobre aparições pouco conhecidas.

"O assunto é deturpado por charlatões e lunáticos e por isso é um crime contra a carreira profissional ter seu nome associado aos Ovnis, o que é uma pena", disse.

"O Arquivo Nacional está fazendo um trabalho fantástico. Cada um pode ter sua própria interpretação", afirmou Clarke.

"Agora é possível olhar para o material primário - as coisas que o Ministério recebe todos os dias - e formar sua opinião", concluiu. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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26/10/2008 free counters

Distribuídas em Taiwan fermento chinês com melamina


Cerca de 200 toneladas das 469 importadas já foram vendidas para padarias; importação é proibida

Efe


TAIPÉ - O departamento de Saúde de Taiwan admitiu nesta segunda-feira, 20, que foram distribuídas centenas de toneladas de fermento chinês contaminado com melamina na ilha.

A empresa local Sesoda Corporation importou 469 toneladas de bicarbonato de amônia procedente de duas empresas chinesas, das quais já foram vendidas cerca de 200 toneladas para padarias.

Os exames de laboratório do departamento encontraram de 70 a 300 partes por milhão de melamina no bicarbonato de amônia importado da China.

Este departamento proibiu a importação de bicarbonato de amônia chinês até que o presente caso seja esclarecido e sejam tomadas medidas mais estritas de revisão.

Este caso é mais um da série de importações de produtos lácteos e de proteínas vegetais chinesas contaminadas com melamina, que levaram à retirada das lojas de produtos de empresas famosas como Nestlé, King Car e Julies.

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26/10/2008 free counters

O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (REVISTA TRIP)

Joe Wallach foi o representante do grupo americano Time-Life no acordo que ajudou a tornar a Rede Globo um império de comunicação nos anos 60. Depois, foi o homem do caixa da rede carioca por uma década, comandando a empresa ao lado de Roberto Marinho, Walter Clark e Boni. Aos 84 anos, de volta aos EUA, ele dá a sua versão para uma história que alterou os rumos do país



Dois momentos com o irmão, Stanley: na infância em Nova York (acima) e pouco antes de ir para a Bélgica na Segunda Guerra Mundial, em 1944 (abaixo)





Luciano Huck estava em Angra quando Boni, ex-manda-chuva da Globo, o visitou e levou junto um simpático senhor norte-americano. Esse senhor é Joseph Wallach, um nome não muito conhecido fora do pequeno círculo dos que sabem a fundo a história da televisão e a da Rede Globo em especial. Depois de muita conversa, Luciano não teve dúvida: Joe Wallach – que aportou no Brasil em 1965 por conta do polêmico acordo da Rede Globo com o grupo norte-americano Time-Life – tinha de ser entrevistado. E deu a letra à Trip. Pouco antes de embarcar para Los Angeles, nos Estados Unidos, para fazer esta entrevista, Luciano me disse: “Pode perguntar o que quiser, Joe sabe tudo de televisão e conhece a história da TV no Brasil como poucos”.

Joe Wallach me recebe em sua casa em Beverly Hills. Com um sorriso no rosto, dispara: “Veio do Brasil só para ouvir as histórias de um velho?”. Aos 84 anos, ele não aparenta a idade que tem. Provavelmente por conta dos exercícios diários, das partidas de golfe ou das aulas de história que freqüenta na UCLA (Universidade da Califórnia, em Los Angeles) “com os jovens”.

É meio-dia em Los Angeles, começo de verão. Sentamos numa mesa ao lado da piscina e começamos a remexer a memória de Joe para tentar reconstruir uma história com a qual deparamos quase cotidianamente, mas sobre a qual refletimos pouco: a construção da principal rede de televisão do país. Uma história à qual ele ainda se sente ligado, o que transparece em sua defesa constante da Globo. Na realidade, papel de se esperar de um homem que participou ativamente da formação da TV, mas quase sempre longe dos holofotes, em sua sala de onde controlava o setor mais importante para uma operação de sucesso: o caixa.

Mas nem sempre Joe Wallach conseguiu fugir dos holofotes. A Globo nasceu de um acordo com o grupo de mídia norte-americano Time-Life, que investiu US$ 6 milhões para a criação da emissora no Rio de Janeiro, em abril de 1965. Em julho do mesmo ano, Wallach, empregado da Time-Life em uma estação de TV em San Diego, na Califórnia, é mandado ao país, como contratado do grupo norteamericano, para gerenciar a parte financeira e montar a operação da Globo no país.

Ainda em 1965, o então governador do Rio Carlos Lacerda denuncia que o acordo feria o artigo 160 da Constituição brasileira, que impedia estrangeiros de serem proprietários ou dirigirem empresas jornalísticas e de radiodifusão. Em outubro desse ano, é instalada em Brasília uma CPI para investigar se a Globo poderia levar adiante esse acordo, que, segundo a emissora, era apenas um contrato de assistência técnica e outro de financiamento. Ou, como defendeu Roberto Marinho em seu depoimento à CPI, em 1966: “Um contrato de financiamento aleatório, uma vez que não dá nenhum direito de direção ou de propriedade a uma empresa, apenas participando o financiador dessa empresa dos seus lucros e prejuízos”.

Uma das primeiras pedreiras que Joe enfrentou no Brasil foi justamente essa CPI, que, no fim das contas, como tantas outras na história recente do país, deixou tudo como estava. “Mas foi muito duro, tive de depor, em português, durante cinco horas.” Não seria a única na vida desse neto de judeus russos, nascido em Nova York, veterano da Segunda Guerra Mundial e com coração brasileiro. “Meus melhores amigos estão lá, temos toda uma vida juntos.”

Para ajudar a desvendar a história oculta do nascimento da Globo, a Trip convidou dois jornalistas especializados em televisão para fazer perguntas a Wallach: Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, e Paulo Markun, diretor presidente da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura.

Hoje Joe acompanha o Brasil a distância, pela internet e pela Globo Internacional, quer saber se o governo Lula é realmente tudo isso que dizem nos Estados Unidos e o que este repórter acha do “nosso candidato” Barack Obama. Veterano de guerra que é, lamenta a invasão do Iraque e espera que um dia os Estados-nações acabem, “não na minha vida, mas na sua”.

Casado pela segunda vez, Joe é pai de três filhos e o decano de uma família que chama de “multicultural e multirracial”, já que uma de suas filhas é casada com o pianista brasileiro radicado nos Estados Unidos Oscar Castro Neves e outra delas teve uma filha com Sly Stone, líder do cultuado Sly and the Family Stone.

À beira da piscina, numa casa com o maior aparelho de televisão que este repórter já viu na vida fora de feiras de tecnologia, Joe contou, com sua voz pausada, alternando inglês e português (para matar um pouco as saudades do Brasil), os casos de um homem que sabia demais.




Dois momentos com o irmão, Stanley: na infância em Nova York (acima) e pouco antes de ir para a Bélgica na Segunda Guerra Mundial, em 1944 (abaixo)



Luciano Huck estava em Angra quando Boni, ex-manda-chuva da Globo, o visitou e levou junto um simpático senhor norte-americano. Esse senhor é Joseph Wallach, um nome não muito conhecido fora do pequeno círculo dos que sabem a fundo a história da televisão e a da Rede Globo em especial. Depois de muita conversa, Luciano não teve dúvida: Joe Wallach – que aportou no Brasil em 1965 por conta do polêmico acordo da Rede Globo com o grupo norte-americano Time-Life – tinha de ser entrevistado. E deu a letra à Trip. Pouco antes de embarcar para Los Angeles, nos Estados Unidos, para fazer esta entrevista, Luciano me disse: “Pode perguntar o que quiser, Joe sabe tudo de televisão e conhece a história da TV no Brasil como poucos”.

Joe Wallach me recebe em sua casa em Beverly Hills. Com um sorriso no rosto, dispara: “Veio do Brasil só para ouvir as histórias de um velho?”. Aos 84 anos, ele não aparenta a idade que tem. Provavelmente por conta dos exercícios diários, das partidas de golfe ou das aulas de história que freqüenta na UCLA (Universidade da Califórnia, em Los Angeles) “com os jovens”.

É meio-dia em Los Angeles, começo de verão. Sentamos numa mesa ao lado da piscina e começamos a remexer a memória de Joe para tentar reconstruir uma história com a qual deparamos quase cotidianamente, mas sobre a qual refletimos pouco: a construção da principal rede de televisão do país. Uma história à qual ele ainda se sente ligado, o que transparece em sua defesa constante da Globo. Na realidade, papel de se esperar de um homem que participou ativamente da formação da TV, mas quase sempre longe dos holofotes, em sua sala de onde controlava o setor mais importante para uma operação de sucesso: o caixa.

Mas nem sempre Joe Wallach conseguiu fugir dos holofotes. A Globo nasceu de um acordo com o grupo de mídia norte-americano Time-Life, que investiu US$ 6 milhões para a criação da emissora no Rio de Janeiro, em abril de 1965. Em julho do mesmo ano, Wallach, empregado da Time-Life em uma estação de TV em San Diego, na Califórnia, é mandado ao país, como contratado do grupo norteamericano, para gerenciar a parte financeira e montar a operação da Globo no país.

Ainda em 1965, o então governador do Rio Carlos Lacerda denuncia que o acordo feria o artigo 160 da Constituição brasileira, que impedia estrangeiros de serem proprietários ou dirigirem empresas jornalísticas e de radiodifusão. Em outubro desse ano, é instalada em Brasília uma CPI para investigar se a Globo poderia levar adiante esse acordo, que, segundo a emissora, era apenas um contrato de assistência técnica e outro de financiamento. Ou, como defendeu Roberto Marinho em seu depoimento à CPI, em 1966: “Um contrato de financiamento aleatório, uma vez que não dá nenhum direito de direção ou de propriedade a uma empresa, apenas participando o financiador dessa empresa dos seus lucros e prejuízos”.

Uma das primeiras pedreiras que Joe enfrentou no Brasil foi justamente essa CPI, que, no fim das contas, como tantas outras na história recente do país, deixou tudo como estava. “Mas foi muito duro, tive de depor, em português, durante cinco horas.” Não seria a única na vida desse neto de judeus russos, nascido em Nova York, veterano da Segunda Guerra Mundial e com coração brasileiro. “Meus melhores amigos estão lá, temos toda uma vida juntos.”

Para ajudar a desvendar a história oculta do nascimento da Globo, a Trip convidou dois jornalistas especializados em televisão para fazer perguntas a Wallach: Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, e Paulo Markun, diretor presidente da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura.

Hoje Joe acompanha o Brasil a distância, pela internet e pela Globo Internacional, quer saber se o governo Lula é realmente tudo isso que dizem nos Estados Unidos e o que este repórter acha do “nosso candidato” Barack Obama. Veterano de guerra que é, lamenta a invasão do Iraque e espera que um dia os Estados-nações acabem, “não na minha vida, mas na sua”.

Casado pela segunda vez, Joe é pai de três filhos e o decano de uma família que chama de “multicultural e multirracial”, já que uma de suas filhas é casada com o pianista brasileiro radicado nos Estados Unidos Oscar Castro Neves e outra delas teve uma filha com Sly Stone, líder do cultuado Sly and the Family Stone.

À beira da piscina, numa casa com o maior aparelho de televisão que este repórter já viu na vida fora de feiras de tecnologia, Joe contou, com sua voz pausada, alternando inglês e português (para matar um pouco as saudades do Brasil), os casos de um homem que sabia demais.







VOCÊ ESTEVE NA SEGUNDA GUERRA?
Quando tinha 19 anos, em 1943, fui treinado e me tornei oficial em infantaria. Aos 21 anos, estava no exército e fui mandado para a guerra na Bélgica, em 1944. Estive em Ardennes, na batalha do Bulge, com neve, muito frio.

FOI FERIDO?
Sim, fui parar num hospital na Bélgica e fiquei em serviço limitado. Depois, me tornei tenente na Polícia Militar por um tempo. Quando a guerra terminou na Europa, eu ainda estava lá. A guerra no Japão continuava, mas eu não precisei ir ao Oriente.

FOI UMA EXPERIÊNCIA FORMADORA NA SUA VIDA?
Ah, sim. Na verdade, eu me casei durante a guerra, em Paris. Fui mandado para Grenoble [França] para estreitar as relações entre americanos e franceses, num curso de seis semanas. Como eu era o único do meu batalhão que tinha feito faculdade, me forçaram a ir e lá conheci minha esposa. Ela era do exército polonês. Ela não sabia inglês nem eu polonês. Falávamos um francês todo quebrado.

QUANDO COMEÇOU A TRABALHAR EM COMUNICAÇÕES?
Muito mais tarde. Trabalhei em diversas empresas na costa leste. Mas a minha esposa começou a ter asma e resolvemos mudar para a Califórnia. Arrumei um emprego na televisão, numa pequena estação em San Diego. Era assistente do gerente e logo me tornei gerente. A Time-Life comprou a estação nessa época e me incorporou.

COMO ERA A TELEVISÃO NESSA ÉPOCA, NOS ESTADOS UNIDOS?
Operávamos uma estação pequena, muito como se faz no interior. Boa parte da programação vinha da rede. Não éramos realmente uma rede nessa época, a Time-Life tinha seis estações no país todo. Nós só produzíamos o jornal local e alguns programas.

EM 1965, VOCÊ FOI DIRETO DE SAN DIEGO PARA O BRASIL. COMO FOI CHEGAR AO BRASIL, NUMA ÉPOCA DE CONVULSÃO SOCIAL, UM ANO DEPOIS DO GOLPE MILITAR? QUAIS ERAM AS SUAS EXPECTATIVAS?
Me pediram para ir ao Brasil por um ano. Achava que seria uma grande experiência para a minha família e pra mim. E foi.

JÁ TINHA FILHOS?
Tinha filhos crescidos. Meu filho, inclusive, começou a PUC no Rio, como calouro. Fui sozinho num primeiro momento, minha família ficou aqui. Adorei o Brasil. Adorei as pessoas.

QUANDO A TIME-LIFE O MANDOU PARA O BRASIL, VOCÊ TINHA ALGUMA IDÉIA DE QUEM ERA O ROBERTO MARINHO, A GLOBO, E DE COMO ERA A MÍDIA NO BRASIL?
Só soube quando cheguei. Foi tudo muito rápido. A Globo era só uma estação no Rio de Janeiro. Nós tínhamos 700 pessoas, 70 eram da orquestra. Eu achava bem estranho o jeito como ela operava. Mas a TV Rio estava em primeiro lugar na época, nós estávamos em quarto, passando uns programas americanos dublados em português, coisas ridículas como A família Buscapé. Roberto Marinho havia comprado a TV Paulista, em São Paulo, um ano antes, mas ninguém tinha ido lá. Fui o primeiro a ir a São Paulo. Sem ninguém saber, fui lá para visitá-la.

FOI NESSA IDA QUE VOCÊ ENCONTROU O WALTER CLARK?
O que aconteceu foi o seguinte: fui ver a estação. Não estava funcionando. O gerente era o Rubens Amaral, que vinha do rádio. Era o homem de confiança do Roberto Marinho, mas não entendia nada de televisão. A emissora estava morta, sem nenhuma audiência. A única coisa que tinha era o Silvio Santos, que ficava no ar do meio-dia até as oito da noite, e tinha alguma audiência. Nosso sinal não cobria toda a cidade. Eu estava totalmente desencorajado, pensando: “Bom, isso não vai funcionar, vou voltar e dizer à Time-Life que essa coisa toda não vai dar certo”. Daí, em São Paulo, fui apresentado ao Roberto Montoro, porque eu estava procurando por alguém de vendas. O Montoro disse: eu posso vender, mas queria trazer um menino comigo para trabalhar em vendas no Rio. Era Walter Clark.

WALTER CLARK ERA MUITO JOVEM QUANDO VOCÊ O CONTRATOU. VOCÊ SENTIU QUE ELE TINHA O TALENTO PARA TOCAR A TV?
Oh, yes. Ele tinha 27 anos, era muito jovem, parecia ter 21. Mas era um estrategista brilhante e conhecia programação muito bem. Sabia que ele era bom e foi assim que começou. Os dois [Montoro e Clark] começaram em dezembro de 1965. Quatro meses depois, nós tentamos levar o Boni para trabalhar conosco, mas ele estava na TV Tupi, a maior rede da época, fazendo o programa do Moacyr Franco, ganhando muito dinheiro. Walter tentou convencê-lo a vir trabalhar conosco, nós oferecemos metade do que ele ganhava, e o Boni ficou na TV Tupi. Só dois anos depois, em 1967, ele foi trabalhar conosco.


Joe na praia com Boni, seu melhor amigo brasileiro até hoje: “No começo houve muito choque entre nós, hoje somos irmãos”




VOCÊ ESTEVE NA SEGUNDA GUERRA?
Quando tinha 19 anos, em 1943, fui treinado e me tornei oficial em infantaria. Aos 21 anos, estava no exército e fui mandado para a guerra na Bélgica, em 1944. Estive em Ardennes, na batalha do Bulge, com neve, muito frio.

FOI FERIDO?
Sim, fui parar num hospital na Bélgica e fiquei em serviço limitado. Depois, me tornei tenente na Polícia Militar por um tempo. Quando a guerra terminou na Europa, eu ainda estava lá. A guerra no Japão continuava, mas eu não precisei ir ao Oriente.

FOI UMA EXPERIÊNCIA FORMADORA NA SUA VIDA?
Ah, sim. Na verdade, eu me casei durante a guerra, em Paris. Fui mandado para Grenoble [França] para estreitar as relações entre americanos e franceses, num curso de seis semanas. Como eu era o único do meu batalhão que tinha feito faculdade, me forçaram a ir e lá conheci minha esposa. Ela era do exército polonês. Ela não sabia inglês nem eu polonês. Falávamos um francês todo quebrado.

QUANDO COMEÇOU A TRABALHAR EM COMUNICAÇÕES?
Muito mais tarde. Trabalhei em diversas empresas na costa leste. Mas a minha esposa começou a ter asma e resolvemos mudar para a Califórnia. Arrumei um emprego na televisão, numa pequena estação em San Diego. Era assistente do gerente e logo me tornei gerente. A Time-Life comprou a estação nessa época e me incorporou.

COMO ERA A TELEVISÃO NESSA ÉPOCA, NOS ESTADOS UNIDOS?
Operávamos uma estação pequena, muito como se faz no interior. Boa parte da programação vinha da rede. Não éramos realmente uma rede nessa época, a Time-Life tinha seis estações no país todo. Nós só produzíamos o jornal local e alguns programas.

EM 1965, VOCÊ FOI DIRETO DE SAN DIEGO PARA O BRASIL. COMO FOI CHEGAR AO BRASIL, NUMA ÉPOCA DE CONVULSÃO SOCIAL, UM ANO DEPOIS DO GOLPE MILITAR? QUAIS ERAM AS SUAS EXPECTATIVAS?
Me pediram para ir ao Brasil por um ano. Achava que seria uma grande experiência para a minha família e pra mim. E foi.

JÁ TINHA FILHOS?
Tinha filhos crescidos. Meu filho, inclusive, começou a PUC no Rio, como calouro. Fui sozinho num primeiro momento, minha família ficou aqui. Adorei o Brasil. Adorei as pessoas.

QUANDO A TIME-LIFE O MANDOU PARA O BRASIL, VOCÊ TINHA ALGUMA IDÉIA DE QUEM ERA O ROBERTO MARINHO, A GLOBO, E DE COMO ERA A MÍDIA NO BRASIL?
Só soube quando cheguei. Foi tudo muito rápido. A Globo era só uma estação no Rio de Janeiro. Nós tínhamos 700 pessoas, 70 eram da orquestra. Eu achava bem estranho o jeito como ela operava. Mas a TV Rio estava em primeiro lugar na época, nós estávamos em quarto, passando uns programas americanos dublados em português, coisas ridículas como A família Buscapé. Roberto Marinho havia comprado a TV Paulista, em São Paulo, um ano antes, mas ninguém tinha ido lá. Fui o primeiro a ir a São Paulo. Sem ninguém saber, fui lá para visitá-la.

FOI NESSA IDA QUE VOCÊ ENCONTROU O WALTER CLARK?
O que aconteceu foi o seguinte: fui ver a estação. Não estava funcionando. O gerente era o Rubens Amaral, que vinha do rádio. Era o homem de confiança do Roberto Marinho, mas não entendia nada de televisão. A emissora estava morta, sem nenhuma audiência. A única coisa que tinha era o Silvio Santos, que ficava no ar do meio-dia até as oito da noite, e tinha alguma audiência. Nosso sinal não cobria toda a cidade. Eu estava totalmente desencorajado, pensando: “Bom, isso não vai funcionar, vou voltar e dizer à Time-Life que essa coisa toda não vai dar certo”. Daí, em São Paulo, fui apresentado ao Roberto Montoro, porque eu estava procurando por alguém de vendas. O Montoro disse: eu posso vender, mas queria trazer um menino comigo para trabalhar em vendas no Rio. Era Walter Clark.

WALTER CLARK ERA MUITO JOVEM QUANDO VOCÊ O CONTRATOU. VOCÊ SENTIU QUE ELE TINHA O TALENTO PARA TOCAR A TV?
Oh, yes. Ele tinha 27 anos, era muito jovem, parecia ter 21. Mas era um estrategista brilhante e conhecia programação muito bem. Sabia que ele era bom e foi assim que começou. Os dois [Montoro e Clark] começaram em dezembro de 1965. Quatro meses depois, nós tentamos levar o Boni para trabalhar conosco, mas ele estava na TV Tupi, a maior rede da época, fazendo o programa do Moacyr Franco, ganhando muito dinheiro. Walter tentou convencê-lo a vir trabalhar conosco, nós oferecemos metade do que ele ganhava, e o Boni ficou na TV Tupi. Só dois anos depois, em 1967, ele foi trabalhar conosco.



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QUANDO ROBERTO MARINHO DECIDIU IR PARA A TELEVISÃO, ELE COMPROU UMA BRIGA COM ASSIS CHATEAUBRIAND E HOUVE UMA GRANDE CAMPANHA CONTRA O DONO DA GLOBO FEITA PELOS DIÁRIOS ASSOCIADOS. COMO VOCÊ SE SENTIA EM RELAÇÃO A ISSO, SENDO ESTRANGEIRO E NÃO CONHECENDO DIREITO O JEITO BRASILEIRO DE FAZER POLÍTICA?
Eu fiquei muito chocado. Porque Chateaubriand tinha muitos jornais no Rio e Roberto Marinho tinha só O Globo. Foi muito difícil. Depois me chamaram para ir a Brasília depor numa CPI. João Calmon, que era nosso concorrente [ex-senador e ex-diretor-geral dos Diários Associados], estava na CPI. Fiquei lá por cinco horas. O Calmon me interrogou por duas dessas cinco horas.

O QUE ELES QUERIAM SABER?
Djalma Marinho, que era o relator, queria saber da minha influência na Rede Globo. Me acusou de estar mandando na TV, de estar levando dinheiro para o Brasil e de ser o homem que mandava na Rede Globo.

MAS, NESSE COMEÇO, VOCÊ NÃO MANDAVA NA GLOBO DE FATO?HÁ RELATOS DE QUE O ROBERTO MARINHO NEM FICAVA NA TV E ERA BEM MAIS LIGADO AO JORNAL.
Ele era ligado ao jornal, mas ia todos os dias até a TV lá pelas seis da tarde. Rubens Amaral era o diretor-geral, e ele que mandava com o Roberto Marinho.

E A HISTÓRIA, QUE ESTÁ NO LIVRO NOTÍCIAS DO PLANALTO, DO JORNALISTA MARIO SÉRGIO CONTI, DE QUE QUANDO O ROBERTO MARINHO IA À GLOBO ELE FICAVA NA SUA SALA?
Na minha sala, não! Muita gente escreve muita coisa como história. Tinha uma sala pequeninha, mas o Rubens Amaral tinha uma sala grande. E ele ficava lá. Depois, Rubens Amaral foi demitido, e Walter Clark tomou conta da emissora. A sala do Rubens Amaral ficou para o Roberto Marinho, e o Walter tinha outra sala grande. Todo dia nos reuníamos eu, Roberto Marinho e Walter.

EUGÊNIO BUCCI: HÁ HOJE NO BRASIL UMA POLÊMICA EM TORNO DA FUSÃO ENTRE AS EMPRESAS DE TELECOMUNICAÇÃO BRASIL TELECOM E OI. PARA QUE A FUSÃO SEJA EFETIVADA, REGRAS DO SETOR TERÃO DE SER ALTERADAS, O QUE JÁ ESTÁ EM CURSO. ALGUNS ARGUMENTAM QUE É DO INTERESSE NACIONAL TER UMA GRANDE EMPRESA DE TELECOMUNICAÇÃO PARA CONCORRER COM AS GIGANTES ESTRANGEIRAS, O QUE JUSTIFICARIA ESFORÇOS DO PRÓPRIO GOVERNO PARA MUDAR A REGRA. FAZENDO UM PARALELO HISTÓRICO, O ACORDO ENTRE GLOBO E TIME-LIFE TAMBÉM TEVE SUA LEGALIDADE QUESTIONADA E CHEGOU A SER ALVO DE UMA CPI. O ACORDO GLOBO–TIME-LIFE ATENDEU AO INTERESSE NACIONAL OU APENAS AO DAS EMPRESAS ENVOLVIDAS? O ACORDO FOI LEGAL OU NÃO? QUE TIPO DE MANOBRA JUNTO AO PODER FOI NECESSÁRIO PARA A APROVAÇÃO? A HISTÓRIA EMPRESARIAL DE SUCESSO DA GLOBO JUSTIFICA AQUELE ACORDO?
Justifica, sim. Porque, sabe como são os negócios hoje, o mundo é diferente. Tudo é mais internacional. A Globo ganhou com o acordo. A Time-Life pôs, mais do que qualquer outra coisa, dinheiro. Dinheiro e um pouco de assistência técnica, mas não muito. Eu penso que normalmente esse tipo de acordo não é feito pensando no interesse nacional. É sempre uma companhia pensando como eles podem entrar para ganhar poder ou dinheiro. Esse é o pensamento. Sobre o interesse nacional, aí o governo pode impedir certas coisas, entende?

MAS NÃO TEVE TAMBÉM TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA, UMA ASSISTÊNCIA TÉCNICA MAIS PROFUNDA, DE ENSINAR A FAZER TELEVISÃO MESMO?
Na parte técnica, de transmissão, sim. Mas na parte do know-how não. Era só eu, mais ninguém.

MAS VOCÊ JÁ TINHA TODO O KNOW-HOW DE TELEVISÃO, NÃO?
Tinha. E acho que minha contribuição era mais de organizar as pessoas que tinham talento. O sucesso da Globo foi feito por causa da aglutinação de tantos talentos dentro de uma organização e de eles terem ficados juntos, sem brigar. Porque a qualquer momento podia explodir, como os outros canais. Isto foi o que nós criamos: a coordenação de todo o talento.



QUE MANOBRAS A GLOBO FEZ PARA CONSEGUIR FAZER VINGAR O ACORDO COM A TIME-LIFE?
O acordo feito foi de locação. A Time-Life pagou para comprar prédios e instalações, e aí a Globo pagou um aluguel baseado no lucro, que nunca aconteceu. Porque a Globo nunca tinha lucro, então nunca deu nada [risos]. Mas foi baseado em 45% do lucro.

É VERDADE QUE O QUE FOI PAGO À TIME-LIFE FOI APENAS O INVESTIMENTO FEITO E SEM JUROS?
Pagamos menos que se fossem cobrados juros, e em quatro anos! Eles puseram de US$ 5 a 6 milhões. Nós pagamos a eles US$ 6,85 milhões. Demos US$ 500 mil à vista e o resto durante quatro anos.

FOI UM JEITO DE ACABAR COM A POLÊMICA QUE TE LEVOU À CPI?
Sim, porque depois nós podíamos expandir e criar a rede. Antes nossa atuação havia sido limitada só ao Rio e a São Paulo.

POR QUE VOCÊ DECIDIU FICAR NO BRASIL DEPOIS DO FIM DO ACORDO COM A TIME-LIFE?
Dr. Roberto disse: “Joe, eu compro a parte da Time-Life se você ficar e vou fazer sua vida aqui”. Ele não queria que eu voltasse. Em Nova York estavam começando a HBO e fui convidado a vir para cá, mas preferi ficar com Roberto. Aí eu me naturalizei brasileiro.

TEM DUPLA CIDADANIA?
Agora, sim, mas na época renunciei à cidadania americana, em 1971 ou 1972. Fiquei apenas brasileiro até há poucos anos, quando o governo do Brasil passou a permitir a dupla cidadania.

E QUAL FOI A ESTRATÉGIA PARA A GLOBO SAIR DA POSIÇÃO DE QUARTO LUGAR NO RIO E RAPIDAMENTE SE TRANSFORMAR NA EMISSORA LÍDER DO BRASIL?
Bom, aconteceu em duas fases. Na primeira fase, era o Walter Clark sozinho. Houve uma grande enchente no Rio em janeiro de 1966. Walter parou a estação completamente. Colocou as câmeras no pátio, na rua Von Martius [na Gávea], e mostrou as pessoas lá no morro, as casinhas caindo, aquela água toda, porque lá perto virou um rio e nós não pudemos sair da estação por três dias. Nessa época ninguém fazia externa, e o povo começou a assistir. Walter tinha pedido assistência para os coitados nas favelas, daí as pessoas começaram a chegar à Globo com roupas e mantimentos. E nós, no teatro, cheios de roupas e comidas. Daí o povo começou a sentir simpatia pela Globo, e a audiência começou a subir.

MESMO MANTENDO OS ENLATADOS?
Não, Walter mudou a programação. Cancelei muita coisa com os americanos. Tínhamos muitos filmes. Começou com a sessão de cinema às dez da noite, com Célia Biar e um gato que Walter criou. Depois ele fez uma novela no pátio da Globo. A primeira que pusemos no ar, às 21h30, com Carlos Alberto e Yoná Magalhães.

E DEU PARA ENFRENTAR A CONCORRÊNCIA NA ÉPOCA?
O que aconteceu foi que, no início, Walter comprou da Record o programa de Roberto e Erasmo Carlos, mas foi com a novela Eu compro essa mulher que chegamos ao primeiro lugar de audiência. E tudo feito no pátio. A novela se passava num barco. Ele montou um navio lá no pátio de Von Martius e filmávamos lá.

E QUANDO SÃO PAULO FOI INTEGRADA AOS PLANOS DA GLOBO?
Montoro ficou lutando como gerente-geral de São Paulo, mas, no começo, não tinha microondas [tecnologia que permitiu a formação da rede], era tudo totalmente separado. Os programas que o Montoro criou não deram em nada. Outro problema era que o sinal em São Paulo era muito fraco e o governo militar não nos deixou importar um transmissor. No começo, tudo era ao vivo. Mas compramos um videoteipe e gravamos Eu compro essa mulher. Também começamos com o Chacrinha, que levamos da TV Excelsior. Ele fazia dois programas no Rio por semana, pegava a ponte aérea e fazia outro programa em São Paulo. Mas a TV Paulista era último lugar em audiência. Levamos cinco anos para chegar ao primeiro lugar em São Paulo. E foi o Boni que fez isso.

COMO?
Quando ele chegou, em 1967, foi a São Paulo e viu as coisas todas. Houve uma briga entre ele e Montoro, que foi demitido, e ele começou a trabalhar em São Paulo. Boni era um homem muito forte. Walter era carismático, estrategista, mas não era forte. Ele queria que Boni tomasse conta da programação, porque sabia que ele resolveria as coisas.






Acima, Joe com o escritor Otto Lara Rezende; e recorte de jornal registra seu depoimento na CPI do acordo Time-Life/ Globo, em 1966

A SAÍDA DA EXCELSIOR DO MERCADO, COM A LICENÇA CASSADA PELOS MILITARES EM 1970, AJUDOU A GLOBO EM SÃO PAULO?
Ajudou, sim. Era um concorrente a menos. Em São Paulo, a Record fazia musicais e a Excelsior, novelas. Mas, quando o Mario Simonsen morreu [em 1965], a Excelsior começou a ruir. No Rio, entrou o Edson Leite, que era um maluco e fazia tudo sem sucesso. Não foram os militares, foi o fracasso administrativo da Excelsior que a matou.

A TUPI TAMBÉM?
Em qualquer momento, nos primeiros cinco anos da Globo, de 65 a 70, a Tupi podia nos matar, porque tinha estações em todo o país, mas eles brigaram entre si quando o Chateaubriand morreu. Aí cada um fazia o que queria. Não foram organizados. Eram feudos. Essa é a razão pela qual os Diários Associados foram à lona.

VOLTANDO À ATUAÇÃO DO BONI EM SÃO PAULO, O QUE FOI FEITO PARA A TV PAULISTA SAIR DO ÚLTIMO LUGAR?
Com o Boni, nós estávamos até produzindo uma grande telenovela em São Paulo, A cabana do pai Tomás, quando houve um grande incêndio. Nossa estação foi ao chão, em 1969. Isso nos forçou a levar tudo ao Rio. Boni contratou Janete Clair, Tarcísio Meira e Gloria Menezes. A primeira novela com eles foi Sangue e areia. E aí, quando passou em São Paulo, a audiência começou a subir. Resolvemos também a questão do sinal, com um transmissor no pico do Jaraguá.

ESSE TRANSMISSOR FICAVA NA TORRE DA BANDEIRANTES?
Sim, alugaram espaço na torre deles. E os terroristas [militantes contrários ao regime militar] que realmente incendiaram nossos estúdios, os da Record e os da Bandeirantes, queriam pegar o transmissor, mas não conseguiram.

FALANDO EM TERRORISTAS, COMO ERA A SUA RELAÇÃO POLÍTICA COM O GOVERNO MILITAR?
A relação era completamente com o Roberto Marinho. Eu era a pessoa entre Boni e Walter Clark, e afinado com Roberto Marinho. Veja, eu tinha também a Time-Life, que estava lá fora, era o homem deles, mas estava mais ligado ao pessoal de dentro. Depois do incêndio, a Time-Life queria sair do negócio porque não estava ganhando nenhum dinheiro. Como solução, fizemos um negócio em que o Roberto comprou a parte da Time-Life em 1970.






E COMO ERA A RELAÇÃO DA GLOBO COM A DITADURA?
Roberto Marinho não era favorável ao governo, mas a quem ele mais gostava. De certo modo, penso que ele era um homem democrático. Não era da esquerda, era bastante de centro em suas crenças. Ele não gostava dos militares, mas sempre dançou conforme a música. Sabe, se eles estão tocando determinada música, para se manter vivo, você vai lá e dialoga com eles. Mas ele mesmo sempre esteve no meio do caminho.

O GOVERNO MILITAR, AO INVESTIR NA INFRA-ESTRUTURA DE COMUNICAÇÃO, ACABOU AJUDANDO A REDE GLOBO A FORMAR A SUA REDE, NÃO?
Muita gente disse isso, mas eu vou contar a minha percepção. Primeiro sobre o conteúdo da programação. Você sabe que os artistas, o pessoal da televisão, eram liberais, eram mais à esquerda. Não gostavam nada dos militares. As novelas, tudo que eles escreveram, começando com o Dias Gomes, mas também o nosso jornalismo, estavam tentando mostrar a realidade. Os militares queriam censurar. Tínhamos de mandar todos os roteiros para Brasília e tentaram entrar no jornalismo. Aí houve muita briga entre Roberto Marinho e os militares, ele não cedia. Não existia nenhum acordo entre eles. Pelo contrário. Eles diziam: “Nós vamos tirar a Globo do ar”. E a Globo dizia: “Vocês nos tiram do ar, e o povo vai saber que vocês nos tiraram”. Foi constante esse embate com a ditadura. Nós tentávamos fazer a programação, e eles não queriam. Até parte de nossos jornalistas foi presa.

SIM, MAS E A QUESTÃO DA ESTRUTURA?
O governo, o Ministério das Telecomunicações, queria ampliar a telefonia e criou a Embratel. O governo gastou dinheiro nos telefones. Apenas 20 pessoas de cada 100 tinham acesso ao telefone no Brasil. Então eles criaram a transmissão por microondas para a telefonia. Paralelamente, as microondas podiam ser usadas para transmitir as ondas da TV. Eles não fizeram nada para nós. Quando você lê que o governo ajudou, não é verdade, ajudou coisa nenhuma. Aliás, a Embratel nos cobrou uma fortuna para usar aquele sistema. Mas lógico que, com a chegada do microondas pelo país, aí nós começamos a implementar a rede. Nos anos 70, de 72 a 76, eu e o Boni rodamos o Estado de São Paulo e construímos mais ou menos 400 pequenos lugares [retransmissores] em cidades para receber a televisão. Como não tinha satélite, foi tudo através de microondas. Nós íamos a cada prefeito e construíamos pequenos prédios para receber aquelas microondas. Foi um trabalho muito intenso durante alguns anos.

QUANDO ESSE PROCESSO TERMINA, A GLOBO JÁ É LÍDER EM AUDIÊNCIA EM TODO O PAÍS. ESSA LIDERANÇA VEM APENAS DA PROGRAMAÇÃO, DO GÊNIO DE WALTER CLARK?
Não só de Walter. Ele foi o gênio do início, mas foi Boni que implantou tudo. Walter ficou mais na parte de homem público, de ser a cara da Rede Globo. Ele aprendeu como falar. Ele não falava muito no início.

TINHA ESSA FAMA DE QUE ELE ERA TAMBÉM UM MULHERENGO...
Claro. Ele era um mulherengo, mas eram todos. Em televisão era assim.

E VOCÊ TAMBÉM TEVE O SEU LADO MULHERENGO NO RIO?
Eu não! Nunca! Lembre que eu era quadrado. Era 15 anos mais velho que todos. E Roberto Marinho tinha 19 a mais do que eu. Eu nunca saí com mulheres da TV. Se eu saísse com artistas, isso ia me desmoralizar. Mas não era o caso dos outros.

MAS VOCÊ SE SEPAROU NO BRASIL. COMO FOI A FASE DE SOLTEIRO?
Foi boa, saí com namoradas. Eu me separei em janeiro de 73, fiquei solteiro por 15 anos até casar com minha mulher maravilhosa e linda [nos Estados Unidos].

E FAZIA MUITA FARRA NO RIO?
Sim, morava com uma, com outra. Mas não com gente da TV, porque eu não queria perder a moral. Mas com mulheres maravilhosas, lindas, cultas. Não vou dizer quem são.







Roberto Marinho e Joe Wallach em outubro de 1978: o chefe ficou magoado com seu homem do caixa quando ele saiu da Globo dois anos depois

E A SAÍDA DO WALTER CLARK DA GLOBO EM 1977? HÁ QUEM DIGA QUE FOI OBRA DO BONI. COMO VOCÊ VIU ESSA SAÍDA?
Não foi o Boni. Foi o próprio Walter. Por dois motivos: Walter era frágil. Como ele não enfrentava nenhuma dificuldade com as pessoas, delegou isso para outro. E começou a beber. Bebia muito. Saía para o almoço e voltava às quatro da tarde, às vezes mais tarde, bêbado. A bebida tomou conta dele. E Walter bebendo foi muito inconveniente. Roberto Marinho não gostava disso, pedia para ele parar de beber. E também Walter, com o carisma que tinha, estava querendo aparecer muito. E Roberto Marinho não gostava. Porque, enfim, ele era o dono. A gota d’água foi em Brasília. Quando Roberto Marinho quis mostrar aos
militares, que estavam preocupados com a idade dele, que ele tinha um bom grupo de profissionais, nós fomos até lá, no governo Geisel, num jantar. Walter ficou completamente bêbado na frente dos generais, do Frota, do Figueiredo; o Geisel não estava lá. Ele falou coisas muito duras contra as mulheres dos generais, bobagens e outras coisas. Puseram ele no carro e o mandaram para o hotel. Foi naquele momento que Roberto Marinho decidiu que Walter tinha de ir embora. Boni não tinha nada a ver, ele nem estava em Brasília quando tudo isso aconteceu.

AÍ O BONI VIRA O NÚMERO UM DA REDE GLOBO?
Sim, vira o número um.

E INSTITUIU O FAMOSO PADRÃO GLOBO DE QUALIDADE...
É um padrão maravilhoso. Quando você olha para a América Latina, eles passam novelas aqui, quando você vê uma da Globo é outra coisa... Boni instituiu isso [batendo na mesa], qualidade sempre em primeiro lugar.

VOCÊS SÃO MUITO PRÓXIMOS ATÉ HOJE?
Somos muito amigos. Somos irmãos.

TEM SAUDADES DA COMIDA DELE?
Oh, e do vinho dele [risos]. Ele era incrível. Ele não era assim [gourmet]. Nós brigávamos muito no início. Porque eu queria uma coisa e ele outra. E ele era muito forte. Porque criação e administração são duas coisas que vão juntas na televisão, com o mesmo poder. Aí, dá choque. No início houve muito choque, mas depois passamos a pensar como um.

PAULO MARKUN: A GLOBO É A HOLLYWOOD BRASILEIRA?
É mesmo, primeiro em televisão e agora em cinema. Hollywood tem duas coisas: o cinema e a produção para a televisão. As redes não produzem programas, eles são feitos por Warner, Sony, Fox etc. A Globo faz tudo isso, não é só distribuidor, mas também produz. E também entrou nos filmes. A parte cinematográfica do Brasil subiu muito.

E QUANDO VOCÊ SAIU DA GLOBO?
Eu saí em 80, porque estava sozinho. Tinha me separado havia alguns anos. Meus três filhos estavam crescidos. Eles casaram com brasileiros, mas tinham ido embora para os Estados Unidos. Eu tinha duas netas na época e queria ser o mentor delas. E também minha saúde não ia bem. Comecei a ter problemas no coração, depois descobri que era a minha cabeça. Eu tentei ir antes, mas Roberto Marinho dizia não, não. Ele ficou um pouco magoado quando eu saí, mas depois passou.

O QUE FEZ NA VOLTA AOS ESTADOS UNIDOS?
Fiquei aqui cinco anos e criei a Telemundo [rede de TV latina]. Depois, ajudei a Rede Globo um pouco na Itália, o que não deu certo. Aí voltei para o Brasil e comecei a Globosat. Fiz a Globosat do zero. Em 1990.

POR QUE DECIDIU FAZER UM CANAL LATINO NOS ESTADOS UNIDOS?
Quando eu estava aqui, aposentado, sem fazer nada, vi que, em Los Angeles, só havia uma estação e nos Estados Unidos uma rede em castelhano, a Televisa, dos mexicanos. Hoje, 40% da população de Los Angeles é de hispânicos, naquela época era menos, isso foi em 1985. Aí eu peguei um canal aqui, um financista, e desenvolvi sozinho o canal.

E O COMEÇO DA GLOBOSAT, COMO FOI?
A Abril começou antes, aí nós entramos. Boni e eu éramos sócios. Em cinco meses coloquei no ar quatro canais: Multishow, Telecine, GNT e SporTV. No bairro do Rio Comprido, um lugar muito ruim. Mas a parte mais difícil, na época, era a questão do cabo. Eu sabia que cabo não era para o Brasil porque era muito caro, então comecei com satélite, com parabólica em cima dos prédios.





ENTREVISTEI O BONI RECENTEMENTE E ELE DISSE QUE UMA DAS PRAGAS NO BRASIL HOJE É A PARABÓLICA. VOCÊ CONCORDA COM ISSO?
Hoje em dia? Parabólica é bom para quem não mora nas cidades grandes, e agora com a antena pequena ela concorre bem, é um dos caminhos. Cabo é difícil, a parte mais importante é que o brasileiro não tem poder aquisitivo para pagar a mensalidade. Por isso a TV por assinatura não avançou.

COMO VOCÊ ENXERGA A HEGEMONIA DA GLOBO NA TV BRASILEIRA? É SAUDÁVEL?
Para ter qualidade é preciso gastar dinheiro. O bolo de anunciante é limitado, e você precisa, para produzir com qualidade, ter uma boa fatia desse bolo, senão a qualidade vai sofrer. A Globo, porque tem padrão de qualidade e audiência, tem o dinheiro para gastar. O capítulo de uma novela está custando muito. Mas a Globo está tendo concorrência agora, pela TV Record, por quê? Porque o bispo, que tem a igreja com tanto dinheiro entrando, está inflacionando o mercado com esse dinheiro, fazendo a mesma coisa que a Globo.

ACHA QUE A TV ABERTA SOFRE POR NÃO TER UMA PROGRAMAÇÃO BOA?
A da Rede Globo, em comparação com o que se vê nos outros países, inclusive aqui, é muito boa. Na qualidade e na inovação... A prova é que a TV no Brasil mata o cinema, porque é de graça e para o povão.

ACHA QUE A TELEVISÃO NO BRASIL SER UMA CONCESSÃO PÚBLICA É ALGO QUE DEVE ACABAR?
Isso irá desaparecer. Com tantas outras formas de ter acesso à informação, como o celular. Veja você e os jovens, o futuro é a internet, a televisão vai perder a força. É um mundo diferente, onde há esperança e muito conflito,
já que cada país tem seus interesses. Mas eu acredito, e é uma crença maluca de um velho, que a idéia de um país como uma nação está em declínio. Nós vamos ver mais e mais organizações se tornarem importantes, isso acontece com o meio ambiente, com os Médicos sem Fronteiras. Eles fazem a diferença, e esse tipo de organização mundial vai tomar o lugar das nações. Não é algo que eu vá ver na minha vida, mas acho que você verá na sua.

COMO A INTERNET MUDA A TV?
Mudou tudo, TV, cinema, filmes. Um BBB fatura tanto quanto um filme, isso sem falar dos videogames. A televisão está mudando completamente aqui e vai mudar lá também por causa da internet. Não sei se a Globo faz isso, mas aqui, se você perder um capítulo de uma novela, eles deixam na internet por três dias para você poder ver depois. E, com o celular, tudo vai mudar. Notícias e esporte, você vai ver no telefone. Hoje eu estou fora, velho, mas vejo que a Globo Internacional é uma força. Você assiste aqui às novelas no mesmo dia. Eu tenho internet e vejo tudo, jornal, novela, tudo.



E COMO VÊ A TV HOJE?
A televisão aqui está mais ou menos. Hoje o que vende, o mais popular, é o American Idol. É música, né? Vem da Inglaterra e todo mundo vai copiar. Copia aqui, copia ali.

O QUE ACHA DOS REALITY SHOWS, DO BIG BROTHER?
Big Brother já passou, mas lá no Brasil é um fenômeno. Aqui as pessoas já estão em outra. São programas mais baratos, o custo é muito menor do que produzir séries, e dá audiência! No cabo estão produzindo coisas mais avançadas, como Weeds, Entourage. Mais pra frente, não é? Com linguagem cinematográfica.

AINDA PENSA EM PROJETOS DE TV?
Estou estudando montar um canal hispânico só de novelas, 24 horas por dia. Como o American Movie Classics, mas só de telenovelas, só com aquelas produzidas antes dos anos 90, para não concorrer com os atuais. Um terço será de novelas brasileiras.

QUAIS SÃO AS SUAS PREFERIDAS?
Eu saí do Brasil em 1980. Então eu vou falar Bandeira 2, Gabriela... Não dá, ninguém mais sabe o que foram essas novelas.

NUM ARTIGO SOBRE AS TELENOVELAS BRASILEIRAS, A PROFESSORA SILVIA HELENA SIMÕES BORELLI AFIRMA QUE A TELENOVELA BRASILEIRA É MUITO COMPLEXA PARA O PÚBLICO HISPÂNICO. CONCORDA COM ESSA TESE?
Ela tem razão, a cultura brasileira é diferente da cultura mexicana. No Brasil, a cultura é mais sofisticada. O povo que vem para cá é realmente mais simples. Nossa empregada, por exemplo, veio da Guatemala a Los Angeles a pé! São pessoas do campo. Tem exceções. O clone, quando apareceu, foi diferente. Mas eles adoram os cenários, as roupas.

QUEM SÃO SEUS GRANDES AMIGOS BRASILEIROS?
Tarcísio e Gloria são muito meus amigos, toda aquela velha guarda. Eu dava festa de Natal em casa. Convidava todos os artistas, Sonia Braga, Jô Soares, aí vinham 100 pessoas. Aqui tenho amigos, muitos conhecidos, mas não tenho amizades como tinha no Brasil. Lá nós temos uma história que nunca vai sumir. Ninguém tira as nossas memórias, quem nós somos. O homem brasileiro fala coisas um para o outro que o homem americano jamais falaria. Só as mulheres americanas falam como os homens brasileiros. Eles contam tudo [risos]! Por isso que eu adoro os meus amigos de lá. Eles contam: “Quando meu pai estava saindo com outra mulher, minha mãe não sabia; depois que papai morreu, ela casou e saiu com outro homem quando ela estava casada”. Aquelas histórias! Uma vez estávamos em sete homens e perguntamos o que você prefere ser: aquele que é mais amado ou o que ama mais? Aí ficamos três horas discutindo isso. Quatro a favor de amar e três de ser amado. Quando eu vou ver isso aqui nos Estados Unidos? Nunca [risos]!

ENTÃO SENTE MUITA FALTA DOS AMIGOS BRASILEIROS?
Muita falta, são amigos de coração. Armando Nogueira, que está doente, Boni, meu querido, um homem fabuloso. Mas são velhos... Daniel Filho, um verdadeiro gênio, quem sabe mais de cinema internacional que ele? O próprio Chico Anysio, o que ele podia ter sido se nascesse aqui nos Estados Unidos?

HOJE COMO É A SUA VIDA, A TV AINDA MEXE COM VOCÊ?
Mexe muito, mas minha paixão hoje é história. Vou à faculdade, à Ucla, e estudo a história de todos os países do mundo. Como a China era há 2 mil anos. A Índia, o Brasil. Vou lá com os alunos, estudo as culturas. Isso é o principal. Outra coisa é que eu jogo golfe e faço muita ginástica, todos os dias.

Agradecimento: Luciano Huck

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