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sábado, 5 de fevereiro de 2011

'Ah, vai te catar!' ( Nos bastidores com José Luiz Datena )


Nos bastidores com José Luiz Datena, o jornalista mais estressado (e um dos mais bem pagos) da televisão brasileira

05 de fevereiro de 2011 | 12h 55
CHRISTIAN CARVALHO CRUZ

Tem gente que fala pelos cotovelos, com as paredes, com as mãos, fala a torto e a direito, como se tivesse engolido uma vitrola e até - já que estamos na frase dos clichês - tem gente que fala mais que a boca. O jornalista José Luiz Datena, de 53 anos, fala de todas essas maneiras. Mas ele é loquaz mesmo com a sobrancelha esquerda. Naturalmente mais arqueada do que a vizinha, quando ela sobe um pouco mais, e esse movimento é acompanhado de um esbugalhar de olhos, virgem santa... "Você veio aqui pra fazer perguntas ou pra me f...?", foi como o Datena se dirigiu a mim na manhã de quinta-feira, num corredor da Rede Bandeirantes, em São Paulo. Antes disso, ele tinha me dado um "Bom dia, como é que tá, velho?", seguido de um caloroso aperto de mão. E eu ainda não abrira a boca.

André Lessa/AE
André Lessa/AE
Diante do pequeno altar, ele reza a Nossa Senhora antes de entrar no estúdio

Faltavam dois minutos para as 10 da manhã e para o Datena entrar no ar pela Rádio Bandeirantes com o seu Manhã Bandeirantes, um programa de notícias que se estende até as 11h30, de segunda a sexta-feira. Bem barbeado, melhor ainda penteado, ele caminhava incrivelmente devagar, barrigão à frente. Trazia o seu 1,83 m de altura por 112 kg de largura a bordo de um jeans desbotado, mocassins pretos sem meias e óculos escuros do tipo aviador pendurados na gola da camisa azul. A bolsa marrom da Louis Vuitton que lhe caía do ombro parecia pesar uma tonelada, mas acho que era só um pouco de sono da parte dele.

Foi assim, meio se arrastando, que o Datena entrou no estúdio - e de repente se encheu de disposição quando sentou diante do microfone e viu o painel "on air" acender. Então ele virou o monitor do computador para a parede e leu num papel a única fala que não seria de improviso até o final do horário: "Bom dia. São 10 horas e hoje é quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011. Vinte e dois graus em São Paulo". E aí ergueu a sobrancelha esquerda, ao vivo para seus 105 mil ouvintes por minuto: "Quem escreveu isso aqui?! Vinte e dois graus estava quando eu acordei, às 6h da manhã. Agora deve estar uns 25, 26". A editora do programa explicou baixinho que era uma média, já que a temperatura varia de região para região da cidade. "Tô nem aí! Eu não faço média nem com a temperatura."

Verdade. Passados só mais 15 minutos e o Datena já tinha, como ele costuma dizer, "descido o bambu" nos vereadores paulistanos que aumentaram o próprio salário, no senador José Sarney que chorou ao reassumir a presidência do Congresso Nacional, na Companhia de Engenharia de Tráfego que só multa e nunca ajuda em nada, no ministro Guido Mantega que não dá um aumento melhor pro salário mínimo, nos donos de empresas de ônibus deste País que põem esses ônibus detonados pra transportar a população, na Ponte Estaiada que liga o nada ao lugar nenhum e só está lá pra Globo usar como cenário e, por fim, nos políticos em geral que se tem algo capaz de acabar com o mundo são eles. Mas tinha também pedido que os torcedores corintianos, revoltados com mais uma eliminação da Libertadores, agissem como Gandhi, parassem com o quebra-quebra, porque a não violência é a forma mais eficiente de protesto.

"Velho, é isso o que eu gosto de fazer, onde eu gosto de estar. No rádio e no SP Acontece, o programa de esportes que eu faço na TV na hora do almoço. Nesses, eu tenho a oportunidade de conter a acidez que é natural em mim, usar o humor e falar de coisas leves." o Datena me contaria mais tarde, no seu singelo camarim. É ali que ele almoça todos os dias, acompanhado apenas de uma imagem de Jesus Cristo e outra de Nossa Senhora Aparecida, alguns livros e duas combinações de terno e gravata que ele deve vestir para aparecer na frente das câmeras.

Enquanto fazia a primeira troca de roupa e involuntariamente exibia a palavra Cristo que mandou tatuar no antebraço, ele continuou, usando um tom de voz bem mais baixo do que aquele que a gente ouve na TV: "Não é legal ser o arauto das coisas ruins. Se eu pudesse, largava agora o Brasil Urgente". Trata-se "só" da maior audiência da emissora, com média de 6,2 pontos, para o qual o Datena recentemente renovou seu contrato por mais cinco anos, ganhando, dizem, R$ 500 mil por mês. Trata-se da TV mundo-cão: duas horas e meia de assassinatos, roubos, tráficos, pedofilias, enchentes, agressões, desastres de trânsito e que tais. Trata-se de algo que o Datena diz não gostar. Nem tanto pelo conteúdo, "porque segurança pública e prestação de serviço são assuntos de primeira necessidade". O que o derruba, ele jura, é a pressão pela audiência que ele mesmo se impõe e a mão pesada dos críticos, que o picham de reacionário pra baixo. "Logo eu que sempre fui um cara de esquerda, p...!". E deixou de ser? "Velho, hoje estamos num hiato de ideologias. O capitalismo é essa porcaria que tá aí. E o comunismo ruiu por causa da incompetência dos que não tiveram saco de ler O Capital inteiro, porque é um livro chato pra c..., e não conseguiram avançar além da ditadura do proletariado. Enfim, uma m..."

O Brasil Urgente pesa tanto que o Datena não deixa ninguém ficar no estúdio, além dos três cameramen. "Isso aqui é vestiário do Felipão, velho. O bicho pega", ele me disse antes de adentrar o recinto, na quinta-feira. Todos os dias, ao pisar ali, o Datena para nos bastidores ao pé de um altar pequenino com a imagem de Nossa Senhora Aparecida e reza de cabeça baixa. Ninguém sabe o que ele pede. Talvez peça para não ter um enfarte, porque a tensão é braba. Do lado de fora, apesar dos vidros grossos, é fácil ouvir os berros dele com a produção, que fica no outro lado do andar, numa cabine extremamente fria e cheia de monitores de TV.

No total, são cinco operadores, quatro produtores e dois diretores (sem contar os repórteres e editores, que somam 19). Na cabine, o mais tenso de todos parece ser o operador concentrado e quieto que chamam de Paletó. A ele cabe encontrar as imagens de arquivo que o Datena pede. E o Datena não tem muita paciência. "C..., cadê a matéria? No tempo da fita ficava tudo à mão. Agora com esse monte de computador aí e vocês não acham nada, c...", ele brada, assim mesmo, c... duplicados. "Quem trabalha com o Datena sabe que é assim, ele cobra mesmo, reclama. Como já foi repórter, conhece bem o que se passa na rua, tem feeling e não perdoa coisa malfeita", diz o diretor Simão Scholz. O Brasil Urgente começa com uma lista de reportagens previstas, numa ordem prevista, tudo nos conformes. Mas o Datena vai mudando tudo no calor da hora, de acordo com a oscilação da audiência (a dele, a da Record e a do SBT, as rivais com quem briga pelo segundo lugar no horário). "Separa aí a matéria da Aninha, aquela menina transplantada que eu entrevistei anos atrás." "Quanto tempo mais tem isso aí? Corta, p..., vamos pro helicóptero como o comandante Hamilton." "Alguém me consegue um criminalista pra rebater isso aí." Às vezes, o vestiário do Felipão pode parecer o paraíso.

A casa adora, obviamente. Diz o Fernando Mitre, diretor de jornalismo da Band e chefe do Datena: "Cobrando, criticando, denunciando, apontando desvios de todo tipo e defendendo a população, o Datena incomoda muita gente e faz isso com uma força verbal impressionante. É para incomodar mesmo. Ele é uma espécie de defensor do interesse público e isso significa fiscalizar o poder e os poderosos. Ninguém nunca ousou me ligar diretamente para pedir a cabeça dele. Mas as reclamações são inevitáveis".

O Datena sofre processos por suposta ofensa a ateus, a homossexuais e aparece em segundo lugar no Ranking da Baixaria na TV feito pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Por outro lado, é o 12º brasileiro mais confiável, segundo pesquisa do Ibope de um ano atrás. Mais confiável que Ronaldo, José Serra, Hebe Camargo, Faustão, Paulo Coelho, Xuxa, Aécio, Dilma e por aí vai. Com tanto ame-o ou odeie-o, e também para encolher o seu eu interior briguento e valentão, um dia o Datena quis fazer análise. "O cara colocou uma cadeira vazia na minha frente e disse que aquilo era a minha mãe, que eu tinha que conversar com ela para ele assistir. Três meses depois ele me contou o óbvio: que eu não sou louco, apenas reajo de forma exacerbada em certas ocasiões. Mas hoje estou bem mais calmo, nem tenho condições clínicas de sair na mão com alguém", diz, com certo pesar, o marido da d. Matilde, pai de cinco filhos, avô de três netos e filho de uma costureira e um porteiro de Ribeirão Preto.

Em 2006, o Datena passou por uma cirurgia de 12 horas para a retirada de um tumor no pâncreas. "Também me arrancaram o baço, desvirginaram todos os meus buracos com sondas e ainda me deixaram essa hérnia aqui", ele aponta um calombo na barriga. "Já marquei sete vezes a cirurgia para resolver isso. Não apareci em nenhuma, morro de medo de hospital." De tudo isso, resultou um Datena que "opera por instrumentos", mais precisamente por 18 remédios diferentes que ele toma todos os dias, fora as injeções de insulina. "Até sexo, hoje, eu só faço dopado", ele entrega, referindo-se ao Viagra. "E ainda querem que eu seja um cara equilibrado, contido. Ah, vai te catar!", ele dispara, não necessariamente em mim, eu quero crer. A propósito, "vai te catar" é uma expressão que o Datena gosta de usar. E usar com vontade. Uma semana e meia atrás, quando ele rebateu uma crítica que o atacante Ronaldo fez ao jornalismo da Band, entre bobalhão, baleia, trouxa e outros elogios, furibundo, ele lascou 13 "vai te catar" em meio a uma chuva de perdigotos. "Ronaldo, vai te catar, velho!"

Na volta do almoço, em que garantiu ter pouco dinheiro no banco, preferindo investir tudo que ganha em imóveis (ele até me mostrou, no iPhone, fotos de sua mansão de sete dormitórios no Guarujá), Datena deixou uma generosa gorjeta ao taxista. "Toma aí, velho, por você ter me aguentado falando tanta besteira." No caminho, ele tinha me dito que seu plano é ir morar em Goiânia, onde estão seus filhos e onde ele comprou uma emissora de rádio - e, quem sabe, apresentar um talk show. "Acabando meu contrato com a Band, não quero mais. Será o fim do Datena da grande televisão. Até outro dia eu não tinha p... nenhuma. Era um jornalista f... como tantos outros, morava numa casa em que eu e minha mulher precisávamos encostar o colchão na parede para ter uma sala de estar. Hoje eu ganho um salário que é um absurdo, mas não tenho condições físicas de aproveitá-lo. Posso comer no melhor restaurante do mundo e o meu sistema digestivo é insuficiente para isso. Chega." Ele parecia estar sendo sincero.

E então, no meio da tarde, quando pisamos na Band novamente, uma mulher muito maquiada, puxando uma mala de rodinhas, saltou na frente do Datena: "Oi, eu sou de Goiânia, conhecida do seu filho". Ele, simpático: "Ah tá. Todo mundo que conhece os dois fica surpreso, diz que não nos parecemos em nada um com o outro. Agora, eu só não sei se estão me elogiando ou me criticando". Ela, sarcástica, indicou que acreditava na segunda opção: "Hahaha! O que você acha?" O Datena se despediu já de sobrancelha esquerda levantada. E na escadaria logo adiante, voltou-se pra mim: "Tá vendo, velho? Só porque eu grito na TV, faço programa policial, lido com violência todo dia, as pessoas se acham no direito de serem mal-educadas comigo. Acham que eu sou forte para aguentar esse tipo de ofensa. Ah, vai te catar!"




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sábado, 22 de janeiro de 2011

EPOCA : Por que somos solidários (trecho)




O que explica os atos de altruísmo e caridade que mobilizam a sociedade para ajudar as vítimas de tragédias como as enchentes do Rio de Janeiro
Martha Mendonça e Letícia Sorg Com Humberto Maia Junior, Nelito Fernandes, Rafael Pereira e Maurício Meireles
Confira a seguir um trecho dessa reportagem que pode ser lida na íntegra na edição da revista Época de 22 de janeiro de 2011.

Assinantes têm acesso à íntegra no Saiba mais no final da página.

TRAGÉDIA E AJUDA
Richard Carson
Desabrigados em estádio depois da passagem do Furacão Katrina por Nova Orleans, em agosto de 2005

Era dia de sol no feriado de São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro. Mal a quinta-feira amanheceu, a estudante de enfermagem Caroline Martins, de 21 anos, acordou e saiu de casa. Seu destino não era a praia. Uma hora e meia depois, ela estava entre os mais de 100 voluntários que trabalhavam no Ginásio Poliesportivo Pedro Jahara, no centro de Teresópolis, uma das cidades com mais mortos e desabrigados pela tragédia das chuvas no Estado. Munida de cuidado e paciência, ela fazia a triagem de toneladas de roupas que chegaram ali por meio de doações. As arquibancadas, que têm capacidade para 5 mil pessoas, estavam lotadas. Seu primeiro trabalho era separar o que servia. Muita coisa chegava rasgada ou mofada. Depois, dividia entre masculino, feminino, infantil e ainda calçados e acessórios. O material era enviado a outro grupo, que, na quadra central, o separava por tamanho e tornava tudo disponível para as famílias que procuravam o local. “Nessas horas, ajudar dá mais prazer do que se divertir”, diz Caroline. Ela subiu a serra para integrar alguma equipe de saúde, já que está no 6º período da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Adepta de corrida e judô, ela acreditava que poderia entrar em locais perigosos para ajudar quem precisava. Mas não conseguiu. “Então arregacei as mangas e arrumei outra forma de cooperar”, diz. Antes de a noite chegar, ela esperava encontrar um lugar para ficar por pelo menos três noites: “Se não conseguir, não tem problema. Durmo aqui mesmo”.

Na semana passada, o que não faltava nas cidades atingidas pelas enchentes eram Carolines. “Oi, eu vim aqui ajudar. O que posso fazer?” Era o que se ouvia a cada minuto na entrada do ginásio de Teresópolis, que concentra boa parte do trabalho social da cidade. E não só lá. Em Nova Friburgo, Petrópolis e em todas as cidades menores e nos vilarejos devastados da região serrana, onde o número de desabrigados superava os 20 mil, moviam-se legiões de voluntários que vinham de toda parte do país para ajudar. Simplesmente ajudar.

O empresário Nélio Zaúde, de 48 anos, poderia seguir sua rotina de fabricante de máquinas e termoplásticos na cidade de São Roque, em São Paulo. Mas não. Ele deixou a família na quinta-feira para levar pessoalmente, de caminhão, numa viagem de 12 horas, 9 toneladas de donativos até Nova Friburgo. Foram coisas que eles e seus funcionários conseguiram em um dia de coleta. No ano passado, durante as enchentes de Santa Catarina, fez a mesma coisa: foi até lá e se enfiou na lama para ajudar. “Não dá para dormir no quentinho, comer do melhor, enquanto muitos, que perderam amigos e parentes, estão passando fome, em meio à sujeira”, diz Zaúde. “Não dá para ficar sentado sem fazer nada.”

No ranking dos países mais solidários, o Brasil
ocupa a 76ª colocação. É uma posição ruim

A professora Quitéria da Silva Lima, de 49 anos, moradora da cidade de Paulo Jacinto, a 100 quilômetros de Maceió, sentiu o mesmo impulso. Ela foi à rádio local sensibilizar as pessoas de seu município para colaborar com doações. Resultado: a garagem de sua casa acabou tomada por roupas, colchões e sapatos. Em junho, a cidade de Paulo Jacinto ficou submersa após as chuvas que mataram 27 pessoas e afetaram cerca de 200 mil no Estado. Quitéria não estava entre as vítimas, mas viu pessoas perder tudo. “Recebemos ajuda de todo o Brasil. Não nos faltou nada.” Foi nisso que pensou quando viu as notícias das mortes e de pessoas desabrigadas na região serrana do Rio de Janeiro. “Agora que estamos bem, podemos ajudar”, afirma. “Não conhecemos as pessoas, elas são de regiões mais ricas do que a nossa, mas são filhos de Deus e nossos irmãos. Temos obrigação de ajudar.”

Posto assim, com tanta naturalidade, parece simples. Mas, em verdade, não é. De onde vem o sentimento de solidariedade? Numa sociedade em que as preocupações pessoais e familiares são amplamente dominantes, o que leva pessoas como Quitéria, Zaúde e Caroline a deixar de lado o cuidado com os próprios interesses para preocupar-se com os problemas de estranhos? Qual é o pedaço de nossa natureza ou de nossa cultura que responde pelo impulso do altruísmo, aquele que nos torna capazes de sacrificar nosso bem-estar (e às vezes a própria vida) para ajudar outras pessoas? Em janeiro de 2007, Wesley Autrey, um nova-iorquino como qualquer outro, saltou à frente de um trem de metrô para salvar a vida de um senhor que havia desmaiado e caído nos trilhos. Por pouco ele mesmo não morreu. O que explica isso? Ou, de forma menos dramática, o que move o consagrado ator americano Sean Penn? Milionário e ganhador de dois Oscars, ele fez questão de enfiar-se na lama deixada pelo Furacão Katrina, em 2005, para ajudar as vítimas da inundação. No ano passado, ajudou a criar uma organização para ajudar a reconstrução do Haiti, devastado por um terremoto. Aos 50 anos, talentoso e estimado, ele poderia cuidar integralmente de seus projetos artísticos, mas promete dedicar-se ao Haiti de forma permanente. “Não existe um ponto final”, diz ele. “É aqui que eu vou estar quando não estiver trabalhando, pelo resto de minha vida.”


Qual país é mais solidário?
A Charities Aid Foundation e o Instituto Gallup entrevistaram pessoas em 153 países para avaliar a prática de atitudes altruístas. Em média, 20% da população global doa tempo, 30% doam dinheiro e 45% ajudam estranhos

reprodução/Revista Época reprodução/Revista Época

   Reprodução

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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Sob o estigma da loucura

Como é cuidar de um doente mental? Para responder a essa difícil pergunta, acompanhamos o dia a dia de centros de assistência no Distrito Federal e ouvimos famílias que alternam momentos de esperança, resignação e desespero

Flávia Duarte

Publicação: 12/10/2010 18:15 Atualização: 15/10/2010 21:49

A loucura sempre despertou curiosidade e investigação. Ao longo da história da humanidade, filósofos, médicos, analistas e cientistas tentaram defini-la. É a mente buscando entender a própria mente. Afinal, não saber exatamente o que a loucura significa é atestar que não há controle sobre ela e as reações que a desencadeiam. No percurso para desvendar suas causas e encontrar o caminho de volta à lucidez, o louco já visto como o resultado de manifestações divinas, feitiços e possessões de espíritos – malignos, obviamente. Apenas por volta do século 16, na Idade Moderna, os transtornos mentais começaram a ser associados a descompensações cerebrais. Quase 200 anos depois, a psiquiatria viria tratá-los como doença, passíveis de tratamento e, por que não, de cura.

Mas em pleno século 21, a saúde mental, mais precisamente a falta dela, continua carregada de preconceitos e estigmas. O desconhecimento sobre as reais causas, possibilidades de melhoras e a dificuldade de prever a resposta do paciente aos tratamentos leva muitas famílias ao desespero e decreta uma sentença de exclusão e sofrimento, tanto para vítimas quanto para os parentes.

A Revista conheceu esse drama de perto. Como as famílias convivem com seus doentes mentais? A primeira reação é a recusa de falar, de se identificar. Ninguém quer ser rotulado como “louco” ou parente dele. Tem a culpa, a vergonha, a sensação de impotência e o cansaço. Conversamos com médicos, acompanhamos reuniões de familiares cujos parentes estão em tratamento, visitamos os hospitais e centros terapêuticos para mostrar a rotina de quem está aprisionado nas próprias alucinações. O martírio dessas pessoas é compartilhado com aqueles que cuidam. Não é fácil lidar com mudanças de personalidade, agressividade ou até a indiferença de um filho, pai, mãe, mulher ou marido. E mais: enfrentar a frustração de saber que a cura, muitas vezes, não existe. Ainda que exista amor, a sanidade de toda família pode ficar comprometida. Só com apoio médico e psicológico constante, é possível encontrar forças para lidar com uma mente sem controle.

 - (Rafael Ohana/CB/DApress)

No dia a dia do hospital
No Hospital São Vicente de Paula, em Taguatinga, a loucura recepciona os visitantes. Os internos são separados em duas alas: homens de um lado, mulheres de outro. Lá dentro, há dormitórios e um gramado onde passam a maior parte do dia, protegido por cerca fina que separa aquelas pessoas do mundo considerado normal. De fora, é possível espiar a rotina desses pacientes. Uns caminham de um lado para o outro. Há quem tenha um olhar perdido, fixo no nada. Mulheres gritam quando veem alguém passando lá fora com algo que lhes chame atenção. De repente, alguém tira a roupa ou se deita no chão. Um tenta agredir um colega de internação. Outra dá comida para uma boneca. Cenas de uma rotina vista do lado de fora do alambrado.
Lá dentro, os vigilantes — chamados internamente de “anjos da guarda” — cuidam de tudo 24 horas por dia para evitar que algum paciente se machuque ou fira alguém. A agressividade pode ser um sintoma da doença mental. Um recém-chegado, por exemplo, teve que ser contido por três homens. Negro, forte, alto, apresentava comportamento arredio. Tentou pular a cerca. Antes, tinha empurrado um senhor, também doente, no chão. A vítima da agressão caiu, nem se moveu, pareceu anestesiado pela demência. Enquanto isso, o agressor lutava para não ser levado à força e medicado. Em outra ala, uma mulher, com menos de 30 anos e sem identidade, também teve que ser contida. Gritava ao ser amarrada na cama. Não foi ferida, apenas não queria estar ali. Naquele dia, havia se recusado a tomar os medicamentos e, desequilibrada, empurrou a médica e uma visitante contra a parede.

A contenção é um dos métodos usados para acalmar pacientes fora de si. Eles são amarrados pelos pés e pelas mãos em uma cama. É aplicado o medicamento calmante. A equipe médica e de enfermeiros fica em vigília para se certificar de que o remédio está fazendo efeito. Só depois, o paciente, antes agitado, é liberado das amarras. O procedimento deixa alguns familiares preocupados. “Por que meu irmão está todo machucado?”, pergunta a irmã de um rapaz de 28 anos ao médico de plantão. Durante a contenção, eles se debatem, reagem e podem apresentar marcas no corpo. Mas é um mal necessário nos casos extremos. “Essas cenas são resquícios de um sistema manicomial de funcionamento que é combatido pela proposta da reforma psiquiátrica em curso no país, com a criação de serviços substitutivos como o CAPs e as Residências terapêuticas, que já somam 1.500 no Brasil”, avalia o diretor do São Vicente de Paula, o psiquiatra Ricardo Lins, também gerente de Saúde Mental da Secretaria de Saúde no Distrito Federal.

Na ala de internação, só estão os casos graves e crônicos. São 127 leitos disponíveis e todos estão sempre ocupados. Para ser internado, o paciente deve estar em crise, colocando a própria vida ou a de outra pessoa em risco. “Ele é trazido pela ambulância, pelos bombeiros ou por ordem judicial, no caso de um paciente que responde a algum processo”, explica o médico Ricardo Lins. O SAMU e os bombeiros são chamados por familiares ou qualquer testemunha, quando algum doente está em surto psicótico, agredindo pessoas na rua ou em casa. Há os que vão por conta própria, alegando ouvir vozes e entrando em paranoia.

Ao chegar para a consulta, o paciente é cuidadosamente avaliado pelos médicos que definem se há ou não a necessidade de permanecer no hospital. Em casos de internação compulsória — sem o consentimento do paciente — , o Ministério Público deve ser comunicado em até 72 horas. Caso contrário, pode ser considerado cárcere privado. O rigor na avaliação é também para evitar um severo efeito colateral: as famílias que desejam se livrar do doente mental. Em vésperas de carnaval, de festas de fim de ano ou de uma viagem, algumas chegam a suspender a medicação ou a simular um surto para justificar a internação e deixá-los sob a custódia do Estado.


 - (Rafael Ohana/CB/DApress)

No plantão
Para a família de um paciente com transtorno mental, a internação pode ser a solução para controlar uma crise mais severa. Porém, voltar para a casa sem ele não é certeza de tranquilidade. Em um plantão de rotina no São Vicente de Paula, a psiquiatra Jussane Cabral Mendonça faz uma ronda pelas alas dos internos, recebe os novos pacientes e encaminha os outros que não têm indicação para estar ali. Depois, atende os familiares no consultório, mobiliado apenas com uma mesa e uma cadeira. O primeiro que entra ali pergunta por que o irmão não está em uma ala separada dos outros pacientes. “Tem gente ali que parece psicopata. Parece que já matou, roubou ou é drogado”, diz a moça ao visitar um parente.

Mas a única separação possível é entre homens e mulheres. O hospital não tem espaço para deixar os mais graves longe dos mais controlados. Por isso, o objetivo é que eles saiam logo e sejam acompanhados pelas unidades de saúde mental perto de onde moram, sob os cuidados da família. Enquanto estão ali, só resta o olhar vigilante dos anjos da guarda e o cuidado dos parentes que aproveitam a visita para conferir se tudo está bem.

Entra outro familiar na sala de Jussane. Um homem jovem traz os documentos do irmão doente. Carrega também uma angústia comum às famílias: saber onde encontraram o parente. “A gente procurou por ele em todos os hospitais, ele estava sumido. Como foi trazido para cá?”. A médica lê o prontuário e não pode acalmá-lo. O documento diz apenas que ele foi transferido do hospital de Santa Maria. O rapaz insiste que o irmão tem consulta no Hospital de Base e precisa sair de lá. “Ele precisa ser tratado. Você quer tirá-lo daqui e correr o risco?”, pergunta a médica. Sem saber o que fazer, ele desiste e deixa o parente internado. Muitos doentes mentais saem de casa, fogem e não sabem como voltar. Na rua, alguém identifica um comportamento incomum e chama a polícia ou os bombeiros, que os levam para o hospital. Enquanto isso, a família segue com a busca incessante pela vizinhança, polícia e hospitais.

Enquanto Jussane dá continuidade ao atendimento, os internos passeiam pelos corredores do São Vicente. Quase todos levam junto ao corpo uma sacola com os poucos pertences. Não desgrudam de bem tão precioso. “É para ninguém levar”, explica Cleonice (**), 32 anos, internada por causa do transtorno bipolar, uma doença que divide o comportamento do paciente em dois extremos: a euforia e a depressão. Ambos momentos podem ser perigosos. A depressão porque muda a perspectiva sobre a vida e a vontade de viver. A euforia porque provoca sentimentos de tamanha confiança em si mesmo, que pode colocar a pessoa em risco, além de provocar comportamentos agressivos.

A mãe foi quem a levou. Cleonice diz que andava muito nervosa, irritada. “Tinha a força de um touro”, define. Ainda assim, queria entender o que estava fazendo do hospital. Enquanto conversa, pisca lentamente os olhos. Sente muito sono, efeito do remédio. Aparentemente lúcida, tem uma voz grave e discurso bem articulado. Diz que vende pirulito, chocolate e salada de frutas onde mora. Vive sozinha, sabe que é bipolar e conta com a vigilância e carinho da mãe. Quando o ex-marido descobriu a doença, foi embora. Há dois anos, Cleonice foi internada no mesmo local por causa de um crise. Passou um mês no hospital. “Entrei em um túnel muito escuro”, lembra. Teme que dessa vez aconteça a mesma coisa. “Quero um tratamento que tenha começo, meio e fim.” Tenta sair da crise com a ajuda dos remédios. A visita diária da mãe lhe dá forças para não desistir.

(*) Nome trocado para preservar o paciente

Da internação para a casa
Ali no São Vicente o horário de visitas é das 15h30 às 16h30, nos fins de semana e feriados, inclusive. Uma hora diária para acompanhar os progressos do familiar doente. Às vezes, o parente chega mais cedo ou vai embora mais tarde. Nesse caso, fica do lado de fora da grade, só espiando. Os vigias pedem para não ficarem perto, conversando fora do horário, para não atrapalhar os horários e a rotina do tratamento.

Quando a família chega para visitar, o doente não sai. O visitante é quem entra. Logo é recepcionado por outros pacientes, especialmente pelos mais carentes, que não têm quem olhe por eles. Pedem objetos pessoais, atenção. Puxam assunto, alguns desconexos, outros não. Alguns apenas tristes, com histórias de abandono e esquecimento.

Em uma tarde de segunda-feira, Clarice Baião, 60 anos, se escondia atrás de uma árvore na entrada do hospital. Vez ou outra, lançava uma olhadela no pátio. Seu neto, Renato (*), tem 18 anos e estava internado desde o sábado anterior. O adolescente ouve vozes, de repente tem crises de risos. “Ri tanto que não consegue parar. A barriga até dói”, descreve Clarice. Seu quadro mescla as alucinações provocadas pela esquizofrenia com comportamentos infantis, quase de uma criança, resultado do retardo mental. Ela quer levá-lo para casa. “Não quero deixar meu neto tão novinho, tão inocente no meio desses homens grandalhões”, comentou, angustiada. O menino estava lá há três dias, já tinha mudado a medicação e apresentava o comportamento controlado. Clarice disse que tinha condições de cuidar dele em casa. Assinou um termo de compromisso e o levou para casa.

Renato sabia que a avó foi buscá-lo. Só não imaginava que ela o vigiava de longe. Ele olhava para frente. Com um olhar parado, quase sem piscar. Parecia em outro mundo. Mas só na aparência. Era ansiedade de voltar para o colo da família. Dias depois, a Revista foi ver como estava Renato em casa. Avisado da visita, ele aguardava na janela. Seu olhar continuava o mesmo. Suave, mas fixo, sempre direto nos olhos da outra pessoa. Ele conta que o remédio tem lhe dado tremores. Depois, fica calado e o olhar insistente. Não fala mais nada, mas entende qualquer coisa que lhe solicite.
Clarice faz carinho no neto. Risonha não se queixa da vida. É uma mulher de fibra. Cuida do menino desde que tinha 13 anos e começou a apresentar os sintomas. Não estranhou. O pai dele, filho dela, também tem a doença. Não só ele. O marido de Clarice também já foi internado várias vezes em hospitais psiquiátricos. “Já vi vários na minha família com fraqueza na mente”, simplifica.
Ela cuida de todos. Sem perder a saúde. Um calmante vez ou outra a ajuda recuperar as energias. A fé em Deus também. “Tenho o dom da alegria. Sou conformada. Dou amor, comida, remédio e carinho a eles”, diz. “Entendo que se podemos adoecer dos olhos, do coração, podemos adoecer da mente também”, acrescenta.
O filho dela, hoje com 40 anos, também tem problemas mentais. “Nunca soubemos o diagnóstico”, conforma-se. O moço está em casa na hora da entrevista, mas não sai do quarto. Ela evita falar do problema dele, com medo que ele escute e se aborreça. Só comenta que era saudável, trabalhava, se casou. Aos “vinte e poucos anos”, começou a ficar depressivo, apático. Nunca mais foi o mesmo.

O patriarca da família, seu Emílio Baião, aos 65 anos, ouve as histórias e pede para contar a sua. Simpático, o pedreiro nem de longe parece ser o homem que na década de 1960 tomava choques elétricos e quebrava os hospitais. Naquela época, ouvia vozes. Esteve em centros de macumba, igrejas, hospitais. Diziam que “estava com espírito”. Depois, o diagnóstico piorou: era louco mesmo e ponto final. Seu Emílio se lembra de ouvir vozes, ver anjos e “assombrar” a mulher, Clarice. No dia do casamento, alguém imaginário dizia que deveria ferir os padrinhos. Não o fez, mas tinha que lutar contra a própria mente. Por anos, conviveu com as assombrações. Tomou remédios, melhorou, teve recaídas. A mulher estava sempre junto. “E ela ia desistir do nosso amor?”, pergunta-se. Clarice não desistiu e há mais de duas décadas não vê o marido ter crises.
Ele trabalha e leva uma vida normal. Por isso, Clarice acredita na recuperação do filho e do neto. Quando vê Renato repetir o mesmo comportamento do avô, gritando de madrugada, fugindo de vozes, ela sabe o que fazer. “Pego o rosto dele e assopro no ouvido: ‘Jesus, ponha palavras bonitas nessa mente”. Ela diz que Renato se acalma e as vozes cessam.


 - (Rafael Ohana/CB/DApress)

O conflito familiar

Muitos pacientes que chegam aos hospitais psiquiátricos para serem internados são acompanhados por familiares, desesperados por não saberem como lidar com a doença. Em alguns casos, os doentes representam de fato um risco para o cuidador ou têm comportamentos inaceitáveis. “Muitas famílias são agredidas pelos doentes. Eles também podem ter atitudes perversas, como molestar crianças, abordar sexualmente a mãe, a irmã ou ter comportamentos bizarros, como defecar em potes de cafés”, relata a psicóloga Elyn Navia.

Em alguns momentos, a família está completamente fragilizada, desgastada emocionalmente. Algumas, inclusive, querem abandonar seu parente. Deixam-no no hospital e não vão visitá-lo. Se pudessem, nem levavam de volta para casa. Alguns até tentam, mas os hospitais logo reagem e mobilizam assistentes sociais e o Ministério Público para que intervenham e faça com que os responsáveis assumam o papel de cuidadores.

“Na verdade, para que esse paciente melhore, ele precisa de uma estrutura afetiva, de alguém que cuide, dê atenção, olhe nos olhos dele”, afirma Elyn. Exatamente para evitar que a família coloque sob os médicos a responsabilidade de oferecer esse apoio emocional a quem está em tratamento, a clínica não fornece roupas ou material de higiene pessoal aos internos. É uma forma de obrigar as famílias a visitá-los e se preocuparem com o bem-estar deles.

Cuidando de quem cuida
Uma das dificuldades enfrentadas pelas famílias é justamente receber um apoio profissional para aprender a enfrentar a doença dentro de casa. Nos hospitais particulares, há reuniões e encontros com as famílias, que aprendem sobre o transtorno mental e dividem suas angústias e apreensões com pessoas que vivem o mesmo drama.

No sistema público de saúde, eles contam com os chamados Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que oferecem um serviço de saúde mental para doentes severos e persistentes. O objetivo é evitar as internações e oferecer atendimento àqueles que saíram dos hospitais. No Distrito Federal, há seis unidades de CAPS, entre eles os especializados em álcool e drogas, os que atendem adultos e o especializado em adolescentes.
“Nosso objetivo é ampliar em todas as cidades o número de ambulatórios e unidades de serviço mental para que essas pessoas recebam atendimento perto de casa”, explica o médico Ricardo Lins, gerente de Saúde Mental da Secretaria de Saúde no DF. “Mas a família precisa acompanhar e se responsabilizar por esse tratamento para termos sucesso”, acrescenta. Ao todo, cerca de 90 mil atendimentos ambulatoriais são feitos por ano no DF e Entorno.

Muitos pacientes que recebem alta das internações logo estão de volta aos hospitais. Os motivos são variados: ou não receberam os devidos cuidados em casa e entraram novamente em crise, ou o ambiente familiar é o gerador da descompensação emocional ou é melhor ficar no hospital do que ao lado da família. Nesse último caso, alguns simulam surtos só para que os bombeiros ou a polícia os levem de volta ao hospital, onde têm atenção, comida e medicamentos garantidos.
Por notar essa trajetória viciante, a assistente social Anunciação Castro Alves decidiu visitar as famílias e descobrir a razão de tanto desnorteamento. “Há muita resistência dos parentes em ficar com o paciente porque não sabem como lidar com ele. Não é só dar medicação”, afirma a especialista. “Mas eles também precisam de apoio, afinal a família também está muito adoecida”, acrescenta.

Foi por causa de tal constatação que surgiu, há sete anos, o Programa Vida em Casa, hoje vinculado à Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Uma equipe formada por terapeuta ocupacional, enfermeiro, psicólogo, psiquiatra, técnico de enfermagem e assistente social visita as famílias inscritas no programa. Assim, é feito um diagnóstico e identificado o que aquela família precisa para que o tratamento do paciente tenha resultados.

Anunciação explica que muitos desconhecem a dosagem correta dos remédios. Já é um avanço se tomam a medicação correta. O mais comum ainda é terem várias medicações em uso, de receitas mais antigas, defasadas. O resultado é que o paciente não melhora, só aumentando o estigma e as dificuldades de convivência com a família. “Se ele está medicado, não vai viver em crise. Pode ter uma vida controlada”, explica.
Ajustada a medicação, o próximo passo é ajudar pacientes e familiares a buscarem seus direitos e benefícios garantidos por lei (no caso de limitações provocadas pela doença). Depois, é hora de ensinar aquela família a enfrentar os medos trazidos pelos transtornos mentais. “Já fui a casa de pacientes que viviam trancados em espécie de jaulas, dentro de casa, porque a família tinha medo deles”, comenta a assistente social.

As situações absurdas com as quais ela se deparou nessas visitas foram inúmeras como, por exemplo, uma senhora que era amarrada com os dois braços para cima, no quintal de casa, enquanto o marido gastava o dinheiro que ela recebia do governo com bebidas. Sem falar nos casos em que há mais de um doente mental na família. Ela cita o caso de uma mãe e três filhos esquizofrênicos. O menos prejudicado toma conta dos demais. Cuida do jeito que pode, já que também precisa de atenção especial.

correiobraziliense.






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domingo, 26 de setembro de 2010

#LULA #DILMA : Newspapers and magazines critical of Lula condemned the press on the campaign trail

Agency EFE -

Brasília, 26 set (EFE) .- The major newspapers and magazines in the country on Sunday and condemned the criticism that President Luiz Inacio Lula da Silva made on the work of the press in presidential elections next Sunday.

"Squid and the official candidate have been limited thus far rail on the press, exercising his own right to free speech, but in terms incompatible with the composure required in office who want to exchange," said the Folha de S. Paulo " in an editorial titled "All power has its limits."

The editorial refers to a declaration of Lula, who at a rally of the PT candidate for president, Roussef said some media outlets "are a disgrace" because, he said, "behave like a political party," but not have the courage to say it.

The president challenged information in recent weeks, revealed a corruption scandal at the Ministry of Civil, who until last March was led by the PT candidate. The scandals have cost the office of the successor of Dilma, Erenice War, which eventually relented, pressed by the complaints.

An editorial in the "Sheet" notes that "high levels of popular approval of President Lula are not random," just as the polls which show the clear bias of Dilma election of October 3, thanks to the charisma of the ruler.

The paper acknowledges that it results from management's current government, which maintained a "sensible economic policies" and has "an incipient policy before cash transfers to the poorest social strata, reducing social inequality.

However, the editorial argues that "not so his government can declare himself above criticism."

In the same vein has called "Letter to the Reader" from this week's Veja magazine, one of the most critical of Lula.

Publication condemns the "deformation" of the Government's point of view, which attributes the "beliefs of some who are still mulling the idea of totalitarian Leninism, according to which the Government and people are confused and therefore the media has no right to criticize authorities. "

According to the 'Letter to the Reader, "for denouncing corruption in the Civil, the" View "and the major newspapers of the country were branded a" coup "because the news could have" potential to take votes from the official candidate " .

Similar opinion was expressed by the journalist Merval Pereira, a columnist for the newspaper O Globo, who last week released the book "The Lulism in Power" in which he analyzes what he perceives as traces of authoritarianism of the Government PT.

In his column today, Merval says that the recent case of corruption in the Civil "suggests that the President does not know or choose their advisors - which poses a question about the choice of Dilma as its candidate - or can not control their team. "

"Lula is the wrong guy over the world. Or what else wrong. Or if you feel able to deceive the world," complains Merval Pereira.

The daily O Estado de S. Paulo "also devoted opinion on the subject in his editorial" The evil to be avoided ", which declares open support of opposition candidate Jose Serra, the PSDB.

For the journal, Lula "has the bad habit of losing her temper when annoyed" and "also all right not to be enjoying the coverage" that "almost all organs of the press" has given "scandalous moral decay of the Government chairs. "

"With the full weight of responsibility which is subtracted never in 135 years of struggle, the 'state' supports the candidacy of José Serra, for his" merits "," copy your resume "and" so that it can represent for reappointment to the country's economic and social development guided by ethical values, "he said.

In the Brazilian press, the only vehicle that had a different position today was the magazine "Isto", also in an editorial.

In apparent allusion to the press, the magazine says that "the parties involved in the electoral process have not heard the voice and space of the streets and attack so visceral and virulent option by then. As if she was wrong for the simple reason to choose."

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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Um barraco bilionário


Veja - 13/09/2010


Uma ação judicial expõe os detalhes da guerra entre Eike Batista e Rodolfo Landim - o ex-homem de confiança que o ajudou a ganhar fortunas nos leilões de petróleo

Por alguns anos, o empresário Eike Batista, o homem mais rico do Brasil, não tomava nenhuma decisão sem antes ouvir a opinião do executivo Rodolfo Landim, a quem gostava de apresentar como o seu "braço direito". Ex-presidente da BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras, Landim atraiu da estatal para a empresa de Eike técnicos que conheciam a fundo o mapeamento dos campos de petróleo no litoral brasileiro. Assessorou-o na compra de lotes em leilão e foi peça-chave na própria concepção da OGX - a petrolífera que hoje representa 73% do império do bilionário. Em 2006, durante o voo de volta de uma viagem a trabalho que haviam feito juntos a Londres, eles falavam com entusiasmo sobre o que viria a ser a nova empresa. Num arroubo típico de sua personalidade, Eike arrancou a capa de um caderno e escreveu no verso a Landim: "Gostaria de convidá-lo a fazer parte da minha holding, como cavaleiro da távola do sol eterno, fiel guerreiro e escudeiro. Em vez de uma bela espada, você receberá 1% da minha holding.

Passados três anos, a relação entre os dois perdeu o calor fraterno dos primeiros momentos. Segundo diagnóstico comum de ambos, a convivência entre eles tornou-se "intolerável". Mas Landim guardou a capa do caderno e os rabiscos de Eike feitos a 35000 pés de altitude sobre algum ponto do Oceano Atlântico, quando as ambições conjuntas de ambos voavam ainda mais alto. Uma ação judicial movida por Landim contra Eike quer enxergar nas palavras escritas naquela capa de caderno mais do que juras de amor eterno. Com base nas anotações, Landim cobra agora 1% de todo o patrimônio do rei da "távola do sol eterno". Pelo preço médio das ações das empresas de Eike, isso daria algo em torno de 270 milhões de dólares. Já é, de longe, o mais alto valor exigido na Justiça brasileira por um executivo.

A disputa entre Eike Batista e Rodolfo Landim é também uma guerra de egos, orgulhos profissionais. "Eike absorveu o meu conhecimento, me usou e depois me descartou", é o bordão que Landim repete aos amigos. O empresário rebate: "Ninguém aguenta o complexo de grandeza dele. Para mim, é um executivo como qualquer outro". A disputa na Justiça promete elevar ainda mais o tom. Landim sustenta que havia entre os dois uma sociedade, e não uma relação trabalhista. Nos tempos áureos, Landim chegou a ocupar cadeiras em todos os conselhos de administração do grupo. Palpitava em tudo. Com a OGX, não foi diferente. Seis meses depois de criada, sob seu comando, a empresa captou 4 bilhões de dólares na bolsa de valores. Hoje vale 37,5 bilhões de dólares, sem ainda ter extraído uma gota de óleo. Eike acha que já remunerou suficientemente Landim. Ele diz: "Não faço acordo. Já paguei tudo o que devia a ele em ações, como remuneração por desempenho".

A relação começou a ruir em abril de 2009, quando Eike se reuniu com seus dez principais executivos avisando que seria necessário injetar 200 milhões de dólares no caixa da holding para sanar prejuízos acumulados com apostas equivocadas no mercado de câmbio. Na ocasião, Eike pediu a cada um dos presentes que contribuísse com uma parte do próprio bônus. Justificava: "Quando eu ganho, todos ganham. Mas, se eu coloco a mão no bolso, todos têm de pôr também". Seis executivos discordaram. Landim foi o mais veemente, abrindo uma ardente discussão com o empresário, seguida de semanas de gelo, sem que eles trocassem uma palavra. Logo Landim foi substituído na presidência da OGX pelo próprio Eike. No jargão do mundo dos negócios, Landim fora "colocado na geladeira". Em maio passado, deu-se o desfecho inevitável, a demissão de Landim. Um dos diretores ainda no grupo traduz o desfecho melancólico: "Quando ele chegou aqui, fazia os discursos de Natal da firma. Na hora de sair, nem o boy o cumprimentava mais".

Mesmo que não consiga o dinheiro que pleiteia, Landim sabe que uma ação judicial dessa natureza tem o potencial de provocar estrago na imagem do ex-chefe ou ex-sócio - um de seus objetivos declarados. Para um empresário como Eike Batista, cujas empresas estão em estágio inicial de operação, manter a credibilidade em alta é um dos fatores essenciais para garantir o desempenho das ações na bolsa. Os investidores que compram papéis de companhias como as de Eike - que vendem o potencial futuro de suas atividades e não o lucro imediato - precisam ter certeza de que o comando está unido e o líder tem visão e capacidade reconhecidas. Eike sempre soube atrair os melhores executivos, a quem faz ofertas tentadoras, com repasse de ações. Ele chama isso de "kit felicidade". Foi assim que tirou Landim e mais de meia centena de profissionais de alto nível de concorrentes de peso, como a Vale e a Petrobras. A pecha de descumpridor de promessas não lhe cairia bem. Em seu plano de vingança, Landim quer montar uma nova empresa de petróleo para concorrer com a OGX, com o dinheiro que viria da ação que move contra Eike. Disposto a levar a guerra com seu ex-braço direito até o fim, o bilionário diz: "Só lamento não tê-lo demitido antes".



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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Playboy lança site sem fotos de mulheres nuas



Intenção do novo portal é alcançar leitores da publicação no ambiente de trabalho

ReproduçãoRIO DE JANEIRO (Da Redação), 20 de julho - A Playboy, tradicional revista masculina de origem americana - e mundialmente conhecida por tirar a roupa de mulheres famosas -, estreou nesta terça-feira (20) um novo site que não possui fotos de mulheres nuas.

A intenção do TheSmokingJacket.com é atingir o público da revista, que também publica muitas reportagens, no ambiente do trabalho, onde não abrem o site da Playboy justo pelo excesso de fotos eróticas. Em vez de mulheres despidas, o novo veículo focará em matérias sobre sexo e outros temas que circulam o universo masculino, além de exibir ainda notícias e vídeos sobre celebridades. JW.



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26/10/2008 free counters

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Cadela volta do Iraque com estresse pós-traumático


Gina, uma pastora-alemã, tinha dois anos de idade quando foi para o Iraque como uma das melhores cadelas farejadoras de bomba do exército americano. No ano passado, ela voltou para casa, no Estado do Colorado, triste e com medo. Gina se escondia debaixo dos móveis e evitava o contato social. Um veterinário do exército diagnosticou então que Gina estava com estresse pós-traumático, um problema que pode atingir tanto humanos quanto cães. “Ela tinha pavor de todos”, disse Eric Haynes, do canil de uma base da Força Aérea americana onde Gina morava. Um ano depois, ela está se recuperando. Caminhadas frequentes entre amigos e uma reintrodução gradual no universo militar fez com que Gina superasse seus medos, segundo Haynes. Ele descreve o progresso da cadelinha como extraordinário. Os veterinários esperam que ela esteja totalmente recuperada em breve.


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sábado, 31 de julho de 2010

O MEDO INVADE A CAMPANHA


O MEDO INVADE A CAMPANHA
Autor(es): Alan Rodrigues e Sérgio Pardellas
Isto é - 26/07/2010

PSDB recorre a velhos fantasmas e tenta assustar o eleitor ao vincular o PT a grupos terroristas e ao crime organizado

O comando da campanha de José Serra (PSDB) colocou o medo no centro da disputa presidencial. Tudo começou com a surpreendente entrevista do vice de Serra, Indio da Costa (DEM), dizendo a um site do partido que o PT é ligado às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e ao narcotráfico. Num primeiro momento, lideranças partidárias passaram a ideia de que Indio era apenas uma voz isolada além de descontrolada e inconsequente. Aos poucos, porém, foi ficando claro que ele cumpria um script previamente combinado. Muito bem orientado pelos caciques do PSDB e DEM, o vice de Serra servia de ponta de lança para uma estratégia de campanha: o uso da velha e surrada tática do medo. Ele procurava criar fantasmas na cabeça do eleitor para tirar votos da candidata petista à Presidência, Dilma Rousseff.

A tática do medo, por definição, desqualifica o debate político. Quem a utiliza está disposto a trabalhar não com a razão, mas com sentimentos mais primários e difusos. Recorre a argumentos distantes de qualquer racionalidade para tentar encantar um público mais desinformado ou que já coleciona arraigados preconceitos. É um jogo perigoso: Campanhas negativas podem até aumentar a rejeição ao candidato que as patrocina, diz o cientista político José Paulo Martins Jr., da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Mas os tucanos resolveram arriscar.

Apesar das reações provocadas pelas declarações de Indio da Costa (o TSE já concedeu até direito de resposta ao PT), expoentes do PSDB e o próprio Serra não desautorizaram o deputado do DEM. Ao contrário, passaram a engrossar o vale-tudo eleitoral. Animado, Indio voltou à carga, insinuando uma relação entre o PT e uma facção criminosa do Rio. Já há vários indícios de ligação do Comando Vermelho com as Farc. E qual a opinião da Dilma sobre isso? Veja só: o PT e as Farc, as Farc e o narcotráfico, o narcotráfico, o Rio de Janeiro e o Comando Vermelho, com indícios muito claros de relacionamento. Ela (Dilma) tem que dizer o que acha, afirma. Na quinta feira 22, foi o próprio Serra quem assumiu a estridente toada: Há evidências mais do que suficientes do que são as Farc. São sequestradores, cortam as cabeças de gente, são terroristas. E foram abrigados aqui no Brasil. A Dilma até nomeou a mulher de um deles. Desta vez, o tom do discurso escandalizou os adversários. Fui surpreendido com a decisão de Serra de entrar nesse debate. Pelo jeito, ele resolveu dar uma guinada para a direita ao perceber que não deu certo o estilo Serrinha paz e amor. Serra, agora, resolveu ser troglodita, disse o líder do governo na Câmara e um dos coordenadores da campanha de Dilma, Cândido Vaccarezza (PT-SP). Não adianta o kit baixaria do Serra: o povo quer saber é de propostas e de trajetória, afirmou o deputado petista Ricardo Berzoini.

A tentativa do PSDB de criar uma atmosfera de satanização do PT e de sua candidata ao Planalto, Dilma Rousseff, é inteiramente planejada, ao contrário do que poderia parecer. Segundo apurou ISTOÉ, pesquisas qualitativas em poder da coordenação da campanha tucana identificaram que setores do eleitorado brasileiro ainda teriam restrições à turma ligada ao Lula. Na enquete realizada pela coligação PSDB-DEM abrangendo as regiões Sul, Sudeste e Nordeste (70% do eleitorado nacional), chegou-se à conclusão de que a imagem de Lula é a mais próxima do chamado político ideal. Diante desse quadro, a pesquisa, focando o eleitor das classes B e C, de 25 a 50 anos, tentou filtrar o que, para a população, haveria de bom e ruim no governo petista. Lula foi considerado quase acima do bem e do mal, conforme informou à ISTOÉ um dirigente tucano que teve acesso aos números. Porém, em seis pesquisas, quando consultados sobre temas espinhosos como radicalismo e corrupção, os eleitores invariavelmente apontavam a culpa para setores em torno de Lula. A turma é que não seria boa.

A constatação animou os tucanos a investir contra o PT. Nas próximas semanas, entre os novos temas a serem abordados estão a relação dos petistas com Hugo Chávez e a defesa que fazem do terrorista Cesare Battisti. Mas, no embalo, sobrará até para o próprio Lula, como demonstrou, na quarta-feira 21, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE): Lula é chavista, disse o líder tucano. Ele pretende fazer aqui neste país uma ditadura populista, em que vai se cerceando os espaços de todo mundo e ficando só o seu espaço de poder. Para Jereissati, a questão não tem a ver com a alta popularidade de Lula. Chávez também é muito popular. Outros ditadores também foram muito populares. O problema é que neste governo a política é de eliminação de todo e qualquer adversário, disse.

Um retrospecto histórico mostra, no entanto, que a tática do medo, colocada em curso pela campanha tucana, funcionou na volta do País à democracia, mas não tem dado certo num Brasil mais maduro. Levado a cabo nessas eleições, o vale-tudo eleitoral pode, mais uma vez, significar o suicídio da campanha tucana. Em 2002, por exemplo, o próprio Serra, então candidato de Fernando Henrique Cardoso ao Palácio do Planalto, lançou mão do medo como artifício: Existe o PT real e o PT da tevê, disse ele no horário eleitoral. É muito importante debater as invasões ilegais e as ligações com as Farc. Isso não aparece na tevê, mas é um lado do PT, acrescentou o tucano, que estava em baixa nas pesquisas. Por causa dos ataques, o PSDB perdeu um minuto e meio de seu tempo na tevê. E o resultado, todos sabem: Lula venceu a eleição e já está há quase oito anos no poder, registrando índices recorde de popularidade.

A retórica do medo não costuma ter a capacidade de reverter votos, segundo o consultor político e professor da USP Gaudêncio Torquato. O terrorismo linguístico que começa a subir a montanha não chega perto das massas. Apenas reforça posições de camadas já sedimentadas, disse ele à ISTOÉ. Não é novidade utilizar-se da tática eleitoral do medo. O que aconteceu é que Indio cumpriu um papel que lhe deram: o de tocar o apito. Para Torquato, Indio executou a missão atribuída a ele pela cúpula de campanha do PSDB. Assim, preservaria Serra da acidez, acredita. Ainda de acordo com o consultor político, esse tensionamento já era bastante previsível e teria outras duas finalidades: a de apresentar o candidato a vice na chapa tucana ao País e tentar enervar a candidata do PT, Dilma Rousseff. Ao mesmo tempo que eles dão uma estocada, a campanha o apresenta, já que ninguém o conhece. Também criam a polaridade que a campanha do PSDB precisa e tentam tirar Dilma do sério, afirma Torquato.

Discutimos fatos de conhecimento público. Todo mundo sabe da relação do PT com as Farc e todos sabem que as Farc têm relação com o narcotráfico, insiste o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra (PE). Anos atrás, o PSDB utilizou-se até das denúncias de que a guerrilha colombiana havia repassado US$ 5 milhões para campanhas eleitorais petistas, o que nunca foi comprovado. Mas, fora as fantasias, o que há de real entre o PT e as Farc? Para responder a essa pergunta, é preciso voltar ao ano de 1990. Com a dissolução da União Soviética, a esquerda mundial estava desamparada. Na América Latina, por sugestão de Fidel Castro, Lula acabou propondo a criação do Foro de São Paulo, a fim de aglutinar partidos, sindicatos e organizações de esquerda. As Farc integraram esse movimento, embora na ocasião ainda não se conhecessem vínculos dela com o narcotráfico. Daí para a frente, a guerrilha sempre participou das reuniões do Foro e recebeu o apoio político de seus membros. O PT chegou a cultivar relações com representantes das Farc, principalmente com o ex-padre Olivério Medina.

No entanto, desde que Lula chegou ao governo, em 2003, o PT tratou de se distanciar do movimento. Em 2005, como revelaram e-mails de dirigentes das Farc, a guerrilha foi impedida de participar da reunião que comemorou o aniversário de 15 anos do Foro de São Paulo e que contou com a presença de Lula. Em 2008, ocasião da libertação da ex-senadora colombiana Ingrid Betancourt, Lula condenou publicamente a guerrilha. A grande chance que as Farc têm de um dia governar a Colômbia é acreditar na democracia, na militância política. É fazer o jogo democrático como fizemos aqui. Não se ganha eleição sequestrando pessoas, disse.

Levando-se em conta a lógica controversa que vem sendo usada na campanha de Serra, o próprio líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), seria também ligado à guerrilha colombiana. Em 1999, Virgílio não apenas recebeu o então representante das Farc no Brasil, Hernán Ramirez, em seu gabinete, como foi considerado pelo grupo um dos principais interlocutores da guerrilha no País. À época, Virgílio era secretário-geral do PSDB e líder do governo FHC no Congresso. No mesmo ano, Ramirez visitou também o então governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra (PT). Um dos objetivos dos encontros era abrir um escritório das Farc em Brasília. Mas a ideia não prosperou. Ela só voltou a prosperar agora no discurso atropelado do PSDB.



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A nova loucura de Chávez


Autor(es): Fabiana Guedes
Isto é - 26/07/2010

Após ser acusado de dar abrigo a guerrilheiros das Farc, presidente venezuelano rompe relações diplomáticas com a Colômbia e eleva tensões entre os países a seu ponto máximo


Na tarde da quinta-feira 22, na porta do Palácio de Miraflores, em Caracas, e acompanhado do ex-jogador Diego Maradona, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, deu seu veredicto na relação de seu país com a vizinha Colômbia: Não nos resta, por dignidade, senão rompermos totalmente as relações diplomáticas com a irmã Colômbia, e faço isso com lágrimas no coração, disse. Chávez lamentava a atitude do embaixador colombiano Luis Alfonso Hoyos, que naquele momento apresentava ao Conselho de Segurança da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington, supostas provas documentais de que a Venezuela abrigaria e protegeria em 87 acampamentos ao menos 1,5 mil guerrilheiros colombianos das Farc e do Exército de Libertação Nacional (ELN). A reação imediata do líder venezuelano foi colocar em alerta máximo os 2,2 mil quilômetros de fronteira compartilhada com a Colômbia e classificar seu presidente, Álvaro Uribe, de mafioso e mentiroso.

As tensões entre Bogotá e Caracas, no entanto, não são novidade. De 2005 para cá, os governos já cortaram relações em três ocasiões. A última crise antes da atual ocorreu em agosto do ano passado, quando Chávez cortou relações comerciais com a Colômbia em protesto ao acordo militar entre Bogotá e Washington que permitiu aos Estados Unidos utilizar bases militares colombianas. Desde então, as coisas não melhoraram. Uribe é capaz de mandar montar um acampamento simulado em território venezuelano para gerar uma guerra entre Colômbia e Venezuela, acusa Chávez. Se dizem que esse não é território venezuelano, deve ser porque a Venezuela renunciou à soberania sobre ele, defende Hoyos.

O rompimento da Venezuela com o país vizinho repercutiu no mundo todo. Chávez disse na quinta-feira 22 que o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o secretário-geral da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), Néstor Kirchner, expressaram por telefone sua preocupação com a crise política entre os países. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, também pediu que Colômbia e Venezuela resolvam suas diferenças por meio do diálogo. O novo vice-presidente colombiano, Angelino Garzón, que tomará posse no próximo dia 7 com o presidente eleito Juan Manuel Santos, disse estar disposto ao diálogo e fazer todo o possível para restabelecer as relações diplomáticas com a Venezuela. Resta agora aos países envolvidos e ao mundo esperar para ver qual será a reação do controverso presidente venezuelano.



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quinta-feira, 29 de julho de 2010

#elizasamudio : Em entrevista exclusiva, mãe de Eliza conta cotidiano do neto e sua relação com a filha



Sônia e o marido ao receberem o neto Bruno, filho de Eliza

O berço do pequeno Bruno, filho de Eliza Samudio, fica no quarto da avó, Sônia de Fátima Moura, que mora em Anhanduí (a 50 quilômetros de Campo Grande), no Mato Grosso do Sul. Sônia mora com o marido, Hernane, e seu filho de 11 anos. Ela é agricultora e planta pimentas em um sítio. Com as pimentas faz artesanato e vende em uma banca na cidade.

Em entrevista exclusiva ao Mulher 7×7, Sônia falou sobre o cotidiano de seu neto e sua nova vida como mãe. Ela afirmou que cuida dele “24 horas seguidas”. Bruninho toma mamadeira e já começou a tomar sucos. Na manhã de hoje, ele passou pelo pediatra. “Ele está com 8,2 kg e 68 centímetros. Fiz o hemograma dele completo para ver se está tudo bem”.

Bruninho completou cinco meses no dia 9 de julho, quando a avó obteve sua guarda provisória. Para isso, Sônia enfrentou uma curta batalha judicial com seu ex-companheiro e pai de Eliza Samudio, o empresário Luiz Carlos Samudio. Depois do desaparecimento de Eliza, o bebê foi entregue a Samudio, mas ele perdeu a guarda por responder a um processo de estupro contra uma menina de 10 anos. Samudio está em liberdade e já afirmou que irá lutar para ter de volta a guarda do neto.

Sônia confirmou que, em 1988, quando se separou de Samudio, Eliza ficou com o pai. Perguntei por que ela não levara a menina, e Sônia disse que não fez isso por “receber ameaças de morte”. Ela repete o que já disse à imprensa, que sofria várias agressões de Samudio. “Não foi só uma vez que ele me bateu. Foram várias”, disse. Acusa Samudio de ter agredido até a mãe dele, Nancy, sua ex-sogra. Mas afirma que nunca foi violentada sexualmente por ele. A mãe de Eliza diz que conseguia ver a menina sem que Samudio soubesse. Os encontros eram na escola e na casa de parentes e amigos. Segundo Sonia, a menina foi “criada solta” pelo pai e desde os 12 anos ia para as “noitadas” em Foz de Iguaçu. Desde a adolescência, Eliza sonhava em ser modelo.

Eliza Samudio grávida de Bruninho

Em 1994, Sonia se casou com Hernane e se mudou de Foz de Iguaçu para Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Nas férias, Eliza ia visitá-la. Em 1999, quando a menina tinha 14 anos, foi morar com a mãe. “Foi um convite meu e uma opção dela”, disse. A mãe descreve Eliza como uma “menina reservada”, que nunca falava sobre o pai ou os namorados. “Ela estudava e ficava em casa”. De vez em quando, ia com a mãe a festas familiares, como aniversários. Diz que Eliza chamava de avó a atual sogra de Sônia. ”O problema dela eram as regras, o horário de sair e voltar para casa. Ela também não gostava da igreja”. Sônia frequenta em Campo Grande a Congregação Cristã no Brasil. Eliza também dizia sentir falta das amizades de Foz de Iguaçu. Ela ficou apenas um ano com a mãe. Quando quis retornar para a casa do pai, no final de 2000, Sônia diz que ligou para ele. Ela e o ex-companheiro quase nunca se falavam. Assim como Sônia, Samudio constituiu outra família e teve filhos.

Quando Eliza estava com 19 anos, a mãe conta que ela fez uma tatuagem e colocou um piercing na língua. Sônia disse que insistiu para que ela tirasse o piercing, porque podiam surgir “bactérias” e Eliza a atendeu. Mãe e filha se viam em Foz de Iguaçu, quando Sônia ia visitar seus parentes. Foi nesta época que Sônia perdeu o contato com a filha. Ela disse que, ao saber que a filha não estava em Foz de Iguaçu, pediu a Roberto Rodrigues Bernardo, diretor da Metropole News (que investiga pessoas pela internet), de Nova Andradina, que encontrasse Eliza.

Entrevistei Roberto e ele me confirmou o fato. Disse que Sônia estava desesperada para encontrar Eliza e dizia que ela tinha fugido de casa. Roberto pegou os dados da moça e a encontrou em uma comunidade do Orkut. Disse ao blog ter feito isso sem cobrar, apenas para ajudar Sônia. Ele enviou uma mensagem a Eliza informando que sua mãe a procurava. Roberto disse que a jovem lhe respondeu fornecendo seus telefones e ele os repassou para a mãe. Sônia contou ter telefonado para Eliza e descoberto que ela estava em São Paulo, trabalhando com “eventos”.

Sônia e Eliza ficaram seis anos sem se ver e só se falavam pelo telefone.

Sônia disse que nunca tinha ouvido falar sobre o goleiro Bruno. Ela também afirmou que nunca o viu pessoalmente. Para ela, não importa o resultado do teste de paternidade que dirá se o goleiro é ou não pai de seu neto. O que ela diz querer é a guarda definitiva de Bruninho. “Para mim não me interessa o resultado do teste. O meu neto é sangue do meu sangue. Não quero pensão alimentícia, não quero nada”, disse ela ao blog.

No final da entrevista, a mãe de Eliza se emocionou. Chorando, ela disse que espera encontrar o corpo de sua filha para poder enterrá-la. ”Estou vivendo essa angústia. Enquanto não a encontrar não vou acreditar que ela está morta. Queria poder enterrar a minha filha. Na verdade, queria que ela estivesse aqui, que pudesse ver o filho dela. Que pudesse ver como ele acorda feliz, sorrindo”.



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26/10/2008 free counters

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Robin Hood às avessas O BNDES, nos últimos anos, tira dos pobres para ajudar os ricos.


Por Carlos Eduardo Gonçalves

Esse seria um bom apelido para nosso banco de desenvolvimento.

É inacreditável como o BNDES assumiu com todo vigor o papel de Robin Hood às avessas nos últimos anos, tirando dos pobres para ajudar os ricos. Causam extrema indignação para alguém de bom senso os aportes crescentes do Tesouro com vistas a prover fundos para o BNJBSDES aumentar sua base de capital e assim poder emprestar dinheiro para empresários ricos. As quantias não são nada módicas, como sinalizam os 16 bilhões para os frigoríficos JBS e Marfrig.

Caros leitores, se o dinheiro vem do FAT e do Tesouro, ele vem INVOLUNTARIAMENTE dos trabalhadores que pagam impostos. Não há mágica. O custo de oportunidade disso é de um lado a taxa de juro de mercado que as pessoas poderiam estar recebendo caso não existisse o FAT para surrupiar-lhes parte do salário, e de outro a melhor aplicação dos impostos (em educação, redução de impostos) que financiam os gastos públicos como um todo. Ao invés disso, nosso dinheiro vai em parte para subsidiar esses gigantes frigoríficos.

E para quê? Para eles se tornarem grandes competidores mundiais, diz o governo. Mas para quê? Difícil de entender, pois além de transferir renda indevidamente de pobres para ricos, a ação está gerando grande concentração no mercado, e quem vende carne começa a reclamar do poder de barganha excessivo do JBS.



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26/10/2008 free counters

domingo, 25 de julho de 2010

A polícia que nada prova



Por que os policiais encarregados dos casos rumorosos falam muito, investigam pouco e dificultam a ação da justiça

Antonio Carlos Prado e Wilson Aquino

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TUDO EM VÃO
No fórum, Bruno fica calado, mas sai sorrindo. A polícia foi procurar ossos nas
paredes das casas dos suspeitos. Achou só o óbvio: tijolos e cimento

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NOVELA
Mizael (de gravata) é o único acusado pela morte da advogada Mércia. Foi incriminado pelo vigia Evandro da Silva (camisa azul),
quando interrogado pelo delegado Antonio Olim: dois meses de investigação e nenhuma prova

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De duas, uma: ou o goleiro Bruno é o mais burro e sovina dos assassinos ou a polícia de Minas Gerais está tomando um “frango”. Para prevalecer a hipótese da idiotice e do pão-durismo tem de ser verdadeira a versão da polícia de que uma súcia de nove pessoas, Bruno no comando, se deu ao trabalho de sequestrar, torturar, matar, esquartejar e desossar a indefesa Eliza Samudio porque ela reivindicava pensão alimentícia e reconhecimento da paternidade de seu filho. Se até aqui a história já é mirabolante, vira filme de sessão da meia-noite e assombro midiático quando a polícia soma o detalhe de que os assassinos atiraram os seus restos mortais a uma matilha de rottweilers. Há também a crença de que a moça foi emparedada, embora paredes tenham sido quebradas, radares para detecção de ossos utilizados e, surpreendentemente, nelas se encontraram, adivinhem... tijolos. Qualquer jogador minimamente inteligente e famoso recorreria à Justiça no embate da pensão tentando empurrá-la às calendas, até porque abrir o coração na hora de engravidar amantes e fechar o bolso quando os filhos nascem não é novidade no campo do futebol. Da sovinice e da burrice ao ato de trucidar alguém existe uma distância imensurável, mas pode mesmo ter sido esse o único motivo do crime. A polícia deveria, porém, investigar em outra direção: não estariam os suspeitos envolvidos com tráfico, uma vez que a atrocidade cometida é o modus operandi de traficantes ao eliminarem seus desafetos?

Vale considerar então a segunda tese, a da polícia “frangueira”: Bruno e sua turma podem ser os bárbaros assassinos de Eliza Samudio, e lá se vão quase dois meses que a moça sumiu, sequestrada no Rio de Janeiro e transportada para Minas Gerais. Há nove pessoas presas, há delegados e delegadas sob holofotes falando diuturnamente, há diariamente improdutivos interrogatórios e há uma justa indignação popular. Mas não há, até agora, uma única prova concreta, técnica e científica contra os acusados. Em São Paulo, no mesmo pé está a investigação sobre a morte da advogada Mércia Nakashima, com a polícia reiterando a cada hora que o matador é seu ex-namorado, o também advogado Mizael Bispo Souza. Até a sua prisão temporária e preventiva já foi pedida e a Justiça não a concedeu. Nem poderia. Não há uma prova real contra Mizael. Tanto ele quanto Bruno e seus amigos e amantes podem estar envolvidos nos assassinatos até a medula. O que se lamenta, entretanto, é a lerdeza da polícia na produção e apresentação de provas factuais – e mesmo que essas provas sejam apresentadas já, nesse instante, num piscar de olhos, ainda assim a demora em fazê-lo, até a quinta-feira 22, em nada desmente o título desta reportagem: “A polícia que nada prova”.

“Há policiais que metem uma coisa na cabeça, em seus gabinetes, e só investigam na direção dessa coisa. A realidade tem de se adequar ao que eles pensam e isso tem tudo para dar errado”, diz a professora de direito penal, de direito processual penal e coordenadora de pós-graduação em perícia criminal da Faculdade Damásio de Jesus, Roselle Soglio. “Se fizeram com Eliza a barbaridade que a polícia afirma, isso tem de ser investigado como uma rede de traficantes. É o tráfico que mata dessa forma.” Juntamente ao fato de a polícia investigar os casos Bruno e Mizael “de dentro para fora”, lamentavelmente se enraíza no Brasil o estrelismo de algumas autoridades que falam demais durante o inquérito – e isso ajuda culpados a se precaverem, leva a pré-julgamento de inocentes e confunde a sociedade. “Não há mais inquérito policial como prevê a lei. O que existe são investigações públicas”, diz o advogado Adriano Salles Vanni, um dos mais conceituados criminalistas do País. Também a discordar da ampla divulgação das investigações (estardalhaço que tromba com o artigo 20 do Código de Processo Penal), o criminalista Nélio Andrade afirma: “Esse delegado (Edson Moreira, chefe do Departamento de Investigações de Homicídios da Polícia de Minas Gerais) tem de calar a boca.” A rigor, quanto mais a polícia fala, e menos prova, mais ela fica refém de suas declarações e se desmoraliza quando carece de se desdizer. Ao mesmo tempo, dá chance para que testemunhas e investigados mudem seus depoimentos num infinito vaivém. Nos casos em questão, a polícia ouviu muito, falou muito, mas provou pouco.

O menor J., por exemplo, que na quinta-feira 22 depôs em juízo, mudou seis vezes a sua versão na fase de inquérito para o sequestro e morte de Eliza (ficará três anos internado pelo crime de cárcere privado). Foi J. quem introduziu rottweilers no enredo, mas já antes da audiência o seu advogado adiantava que a história dos cachorros era “delírio do adolescente” e que a polícia “colocara palavras em sua boca”. Bruno também foi à audiência, manteve perante o juiz o silêncio sepulcral dos interrogatórios anteriores e saiu rindo do fórum. Ao contrário dele, quem disparou a falar, e sempre mudando as versões, foi a ex-namorada Fernanda de Castro, uma das mulheres que tomaram conta do filhinho de Eliza: a) disse que não estivera em nenhum motel junto com Bruno, no trajeto Rio de Janeiro-Belo Horizonte, quando Eliza foi sequestrada; b) disse que estivera apenas com Bruno nesse motel e que não vira o suspeito Luiz Henrique Romão, o “Macarrão” (tem tatuada nas costas declaração de amor ao ex-goleiro); c) voltou atrás e disse que vira “Macarrão” no motel. Também Dayanne Souza, ex-mulher do ex-jogador, atordoou os responsáveis pelo inquérito: eles vinham cravando publicamente que Eliza fora assassinada no dia 9 de junho. Pois Dayanne garantiu que esteve com ela no dia 10 e os policiais tiveram de refazer todas as contas. Ou seja: resultado zero.

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“A polícia mete uma coisa na cabeça e só investiga nessa direção”
Roselle Soglio, professora de direito processual pena

“A prova técnica é decisiva”, diz o perito Mauro Ricart, chefe em duas gestões da Polícia Científica do Rio de Janeiro. “As investigações deveriam acompanhar o trabalho da perícia, e não a perícia ficar a reboque daquilo que os delegados falam. Dessa forma, todos falham”, diz Roselle. No inquérito de Bruno, há duas lacunas que qualquer perito debutante tira de letra: encontraram mancha de sangue de Eliza no Range Rover de Bruno, e pararam aí. É óbvio que é só verificar em laboratório se essa mancha é contemporânea ao desaparecimento de Eliza e muita coisa seria provada. Outro ponto: a polícia ficou martelando que os investigados não quiseram ceder material biológico para exame de DNA. Mas será que com tantas buscas em todas as casas não deu para recolher uma escova de dentes, um pente, um fio de cabelo, uma cueca, uma calcinha e, dessas peças, extrair material biológico? Quanto à investigação que cerca Mizael, a situação é pior: policiais disseram que havia cristais de terra no calçado do suspeito compatíveis com cristais de terra da margem da lagoa em que o carro de Mércia foi jogado no interior de São Paulo. É uma prova bisonha. Quantos cristais iguais a esses não existem em todo o Brasil? Houve uma falha mais grave ainda que expõe o pecado original de nove entre dez investigações no Brasil: a preservação do local do crime. Um caso emblemático é o assassinato do coronel Ubiratan Guimarães, em São Paulo, quando 28 pessoas estiveram nos 25 metros quadrados do cenário do crime (a sala de seu apartamento). A mesma contaminação de provas se deu no carro de Mércia, deixando dúvidas pendentes: segundo a polícia, ele foi mergulhado de frente. Então como foi retirado também de frente? O certo é que a seis metros de profundidade o automóvel “capotou” e ficou com as rodas para o alto. Os vidros estavam semiabertos mas, nessa posição, eles passaram a ser obstáculos para a saída do corpo de Mércia porque, com a entrada da água, ele subiu e ficou junto ao piso, agora voltado para cima. Como então o corpo foi encontrado fora do automóvel? É por isso que o veículo deve ter sido virado antes de ser trazido à superfície: adeus rigor científico. Finalmente, muito se falou que o carro tinha de secar para que se colhessem digitais. Absurdo: o Brasil leva o mérito de ser o país que desenvolveu reagentes para colher digitais em superfícies completamente molhadas.

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