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terça-feira, 5 de abril de 2011

Direita, centro, esquerda…


Eu mesmo manguei aqui do prefeito Gilberto Kassab quando afirmou que o PSD não será um partido de direita, de esquerda ou de centro. Comentei que já tinha visto gente matar a direita e a esquerda, mas nunca o centro — lugar que, a rigor, é reivindicado por todo mundo que não se diz de esquerda. No post abaixo, afirmei que foi uma resposta um tanto exótica a uma “pergunta-armadilha”.

Comentei ontem aqui, num tom um tanto irônico, uma “reportagem” de Laura Capriglione, na Folha, sobre movimentos neonazistas — ou algo semelhante. Laura, evidentemente, não é uma referência do pensamento, mas está aí na imprensa escrevendo o que bem entende. Este meu “o que bem entende” não quer dizer que a moça deva ser submetida à censura. Apenas reitero o seu descompromisso com os fatos. Ela continue lá na sua marcha, que também sou livre para apontar as suas tontices.

Depois de caracterizar seus “neonazistas” como os brucutus que são, ela não tem dúvida: “São de direita”. E a direita, então, para muitos leitores eventualmente desavisados da Folha, passa a se definir por aqueles cretinos. Mas é só ali no jornal? Não é, não! Vejam o show de covardia, de vigarice, de canalhice intelectual que ganhou o palco das idéias com o “episódio Bolsonaro”. Já escrevi tudo o que penso sobre o que ele disse e também sobre o seu direito de dizê-lo — não é o tema deste texto. Destaco, aí sim, que ele foi visto como “o” representante da direita. Procurem nos arquivos a importância que teve, por exemplo, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) no encaminhamento da lei que criminaliza a homofobia na Câmara. Fez pelo projeto mais do que a maioria dos deputados de esquerda — um mau projeto, reitero.

O senador Agripino Maia (RN), tão logo assumiu a presidência do DEM, apressou-se em dizer: “Não! O partido não é de direita”. Porque ninguém quer ser “de direita” no Brasil e associar seu nome aos “neonazistas” da matéria da Laura Capriglione, aos torturadores, ao golpe militar, ao diabo a quatro. Tivéssemos, na média, uma imprensa ao menos informada, capaz de reconhecer que os valores essenciais das democracias contemporâneas são, afinal de contas, liberais — e, pois, no que respeita ao ordenamento das idéias, “de direita” —, talvez o debate fosse um pouco mais civilizado. Quantos são os jornalistas que sabem, na opinião de vocês, que Churchill, por exemplo, era “de direita”?

Dia desses, conversando com um jornalista de razoável experiência, comentei que, em muitos aspectos, o regime militar brasileiro foi de esquerda. Ele arregalou os olhos, achando que eu estava tendo um surto. Lembrei ao rapaz que Ernesto Geisel poderia merecer o epíteto de “o maior criador de estatais do mundo”. Não por acaso, Lula jamais se referiu de modo positivo ao governo FHC, por exemplo, mas já elogiou muitos aspectos da ditadura.

Mandam-me aqui um troço inacreditável sobre uma novela que o SBT vai levar ao ar chamada “Amor e Revolução”, sobre, anuncia-se, “os anos de chumbo”. As duas palavras estão sobre uma estilização, parece, do Brasão da República, de sorte que ficam ancoradas numa estrela… A emissora apresentou um misto de making-of e reportagem sobre a novela em que a palavra “direita” aparece, claro!, associada à tortura. Os esquerdistas, sempre na posição de vítimas de brutamontes assassinos, queriam sabem o quê? Democracia!!! Quem não sabe que era esse o objetivo de Lamarca, Marighella e companhia? Dilma disse numa entrevista à TV portuguesa que o Brasil tinha “milhões, milhares, centenas” (ela não se decidiu) de desaparecidos políticos, depois de ouvir calada do jornalista que eram “500″. Na imprensa, só eu apontei: são 133! Não deveria haver um só, é evidente, mas não são milhões, milhares, centenas…

É preciso denunciar a vigarice do debate, a sua baixa qualidade teórica, a falta de rigor? É, sim! Mas, nesse ambiente, esperar que políticos se digam “de direita”? Aí acho que é sugerir que também se lancem ao mar, sem bóia. Assim, os que não se orgulham de ser “de esquerda” — uma referência positiva!!! — se dizem no centro. Kassab achou, num certo exercício lógico, que, não havendo mais direita e esquerda, como querem alguns, então o centro também havia desaparecido…

Vamos ver o que vai acontecer de fato com o PSD. Se as suas referências passarem a ser, como afirmou a senadora Kátia Abreu, a economia de mercado, o estado de direito e as teses liberais em economia — que só delinqüentes intelectuais consideram opostas ao social —, tanto melhor. Base do governo, creio, não será. Até porque não cabe, ainda que quisesse. Entraria como o último da fila e ficaria do lado de fora, estacionando os carros. Ninguém espera que PSD, DEM ou PSDB votem contra uma eventual boa proposta do governo. Esse luxo moral, reitero, é coisa de petista.

Por Reinaldo Azevedo





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