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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Sobre a demissão de John Neschling (


26/1/2009)
Por Nelson Rubens Kunze

É uma ironia do destino. No momento em que a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo alcança a maior repercussão da história sinfônica nacional em todos os tempos, a Fundação Osesp decide demitir o maestro John Neschling, principal responsável pelas conquistas da orquestra.

Não custa repetir. No que diz respeito à nossa atividade clássica, a Osesp é um marco histórico. Um projeto visionário e um investimento público inédito viabilizaram uma realidade cultural que alçou a vida musical paulista a patamares internacionais. Não é brincadeira. São poucas as cidades no mundo que possuem uma orquestra que oferece um repertório equiparável ao da Osesp. Uma orquestra dinâmica, participativa, que impulsiona a vida e a cultura, com um repertório erudito, vivo, instigante e provocador. E isso se deve à liderança e ao brilhantismo de um grande homem, que é o maestro John Neschling.

Qual é a força, senão a de interesses estranhos aos da promoção cultural, que faria cristalizar a decisão de demitir um maestro que realiza um trabalho paradigmático reconhecido cada vez mais no mundo inteiro? Qual é a motivação capaz de afastar da direção desse projeto o seu mentor e diretor?

Todos sabemos que o maestro John Neschling é um homem de personalidade forte, que sabe o que quer e que não mede esforços para alcançar suas metas. Mas todos sabemos, também, que a Fundação Osesp, o maestro e a orquestra vinham sofrendo pressões. Por que razão? Por que não havia mais "condições políticas" de sustentar o maestro? Por que tornou-se imperativo demitir o maestro que tem provado, dia após dia, que realiza um trabalho exemplar com repercussão mundial? E onde fica o tal do interesse público - concertos sinfônicos, programas educacionais, formação de público, edição de partituras, encomenda de obras, projeto academia, transmissões radiofônicas, etc. -, que nessa área nunca fora tão bem atendido?

O sucesso da orquestra é real e reconhecido no mundo inteiro. A mais recente prova disso foi a transmissão de Ano-Novo, ao vivo pela TV franco-alemã Arte, para diversos países da Europa. Naquele momento, a Osesp divulgou uma imagem do Brasil que renderá mais do que anos de trabalho do Itamaraty.

Será que a famosa entrevista do maestro John Neschling, sozinha, justifica a demissão? Ela foi um desabafo, que tornou público os bastidores do poder e, conforme a carta da Fundação Osesp, tornou a demissão inevitável. Não havia mais meios de manter o vínculo com o maestro, que demonstrara uma "conduta indesejável e inconciliável com o desempenho das atribuições contratuais".

Acredito que para a Fundação Osesp, até um determinado momento, as críticas do maestro Neschling eram legítimas, pois defendiam a autonomia de seu trabalho diante de uma interferência (explícita ou não) da Secretaria da Cultura e do governo do Estado. Até ali, as posições do maestro reforçavam o trabalho da orquestra e o arcabouço institucional da organização social (OS) Fundação Osesp. Em meados do ano passado, o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu, em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo", a autonomia da OS em relação ao governo. Contudo, no momento em que o maestro John Neschling rompeu com o Conselho de Administração da Fundação Osesp, ele avançou em terreno arriscado, difícil de ser defendido. Deu no que deu.

Pois é, a vida é assim: uns ganham, outros perdem. Se perdemos o maestro John Neschling, lutemos agora para garantir a continuidade de seu projeto, que passa, necessariamente, pelo fortalecimento de uma Fundação Osesp autônoma.

A carta de demissão evidencia a percepção da Fundação Osesp para com a imensa responsabilidade que a decisão acarreta. E as primeiras medidas para a busca de um novo diretor artístico, bem como as conversas com um maestro da qualidade do francês Yan Pascal Tortelier - cogitado para concluir o contrato de Neschling -, são demonstração da seriedade e compromisso com os quais a Fundação Osesp está tratando a questão.

Não será necessário zelar pela divulgação e memória do trabalho extraordinário que o maestro John Neschling realizou - tenho certeza de que ele se inscreverá sozinho na história de nosso país (mesmo que a contragosto de alguns...). Ainda assim, espero que algum dia tenhamos autoridades que, além de articulados governantes entendidos dos mecanismos da política e do poder, tenham a sensibilidade e a grandeza humana de retribuir ao maestro John Neschling pelo trabalho que realizou em prol da cultura e do desenvolvimento de nosso país.


Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO


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