Ruth Cardoso é um dos personagens discretos por trás da maior realização social da gestão Lula: a Bolsa- família.
Como uma das mais notáveis estudiosas brasileiras da questão social, Ruth Cardoso ajudou, quando era primeira-dama, na implementação de ações governamentais que fossem focadas e envolvendo diferentes esferas de poder, num esforço para evitar a superposição da tarefas e desperdício de recursos.
Havia tempo, ela observava a pulverização inconseqüente de planos oficiais. Até então praticamente não existiam no país projetos envolvendo tantos e tão diversos ministérios e secretarias, centrados no município.
Nessa visão, ela vinha impulsionando, dentro do governo FHC, um plano para que as diferentes bolsas (bolsa-escola, bolsa-alimentação etc) existentes fossem unificadas em torno de apenas um eixo --no caso, a família. Buscava-se um único cadastro para os programas.
Todo esse esboço de unificação já estava encaminhado quando Lula assumiu poder.
Gilberto Dimenstein, 48, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às segundas-feiras.
Ruth foi mais que uma primeira-dama, dizem políticos
Cúpula do PSDB cancelou sessão em que os tucanos celebrariam 20 anos de partido nesta quarta, 25
Christiane Samarco - Agência Estado
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Tucanos, democratas, antigos aliados do PMDB e até petistas que fizeram oposição ao governo Fernando Henrique Cardoso, como o presidente nacional do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), concordam na avaliação de que Ruth Cardoso foi mais que uma primeira-dama e que sua morte é uma perda para o País. "Além de ser uma pessoa de grande capacidade e de grande produção intelectual, ela foi sempre comprometida com a luta pela democracia e teve papel relevante na história do País", disse Berzoini. "Dona Ruth foi a maior ativista do programa de inclusão social no Brasil. Mobilizou a sociedade e o governo para a emancipação de nossa gente", lamentou o líder tucano José Aníbal.
No mesmo tom de pesar, o líder do DEM no Senado, José Agripino (RN), fez questão de registrar que ele e seu partido dividem com a família e o País a tristeza pela morte de dona Ruth. "Ela foi uma primeira-dama ao mesmo tempo competente e discreta, capaz de produzir um programa da importância do Comunidade Solidária, tocado com recurso privado e gestão pública", recordou o líder do Democratas.
Ex-ministro de FHC e amigo do casal Cardoso, Arthur Virgílio diz que dona Ruth era generosa, mas que não costumava fazer concessões políticas. "Por isto mesmo, ela era a consciência crítica do marido, do governo e de todos nós", completa o senador, ao lembrar que a "amiga Ruth sempre calibrava minhas ações, comentando meus exageros e meus acertos. Segundo ele, dona Ruth o elogiou pela atuação na derrubada da CPMF com a mesma ênfase que lhe puxou as orelhas quando o tucano pegou carona no avião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para comparecer ao enterro do ex-presidente do Senado Ramez Tebet (PMDB-MS).
Em missão oficial na cidade espanhoda de Zaragoza,.o ministro de Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), foi acordado com a má notícia de madrugada, por conta da diferença de fuso horário. "Lamento profundamente esta perda para o País e me associo à dor da família e especialmente ao Fernando Henrique pela perda desta grande mulher", disse o ministro ao Estado.
A comemoração do aniversário de fundação do PSDB no Congresso teve de ser cancelada até porque Fernando Henrique seria a estrela da festa em que o tucanato pretendia ensaiar o discurso da "herança bendita legada por seu governo ao País", com que se apresentará ao eleitor na disputa presidencial de 2010. Como a idéia era reunir em Brasília todas as personalidades do PSDB, o governador de São Paulo, José Serra, telefonou ao presidente do partido assim que foi informado da morte de dona Ruth, solicitando o cancelamento oficial da sessão do Congresso.
Além de suspender o evento, o presidente do PSDB assinou uma nota oficial, informando aos tucanos e à Nação que o PSDB estava de luto porque perdera "uma parte de sua história, no momento em que comemorava os 20 anos de sua fundação". A nota apresenta dona Ruth como "fundadora do nosso partido e mulher do nosso presidente de honra, que durante 8 anos esteve à frente do Comunidade Solidária, onde iniciou de forma consistente e criativa a imensa dívida social que cinco séculos de atraso e abandono nos deixaram". Em seguida, destaca que "os brasileiros ficaram sem a presença de uma mulher generosa, forte e combativa, que sempre sonhou com um País mais solidário, rico e justo" e que Ruth Cardoso será sempre, para os tucanos, "o norte, o rumo e o caminho para a construção de um Brasil para todos os brasileiros".
Em nota, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, disse que "D. Ruth foi uma mulher extraordinária que soube honrar a condição de primeira-dama com discrição e autoridade. De inteligência privilegiada, sabia conciliar atitudes incisivas e diretas com uma ternura peculiar".
Antes mesmo do Planalto divulgar nota oficial, o ministro das Relações Institucionais, José Múcio, manifestou-se: "Antes de tudo, uma dama o Brasil perde. Uma pessoa que serviu com elegância e distinção ao País".
A Presidência da Câmara dos Deputados também divulgou nota lamentando o falecimento da ex-primeira-dama. O orgão manifestou "profundo pesar pelo falecimento da ex-primeira-dama Ruth Cardoso." Ainda na nota, o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, completou: "Intelectual destacada, Dona Ruth ocupou papel de relevo no governo federal, na condução de programas sociais, quando da Presidência de seu marido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ao presidente Fernando Henrique e sua família nossas condolências pela perda irreparável."
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