Doenças subclínicas da tireóide
Controvérsias sobre a relação entre causa e efeito nas disfunções tireoideanas subclínicas aquecem discussão a respeito da necessidade de rastreamento populacional e tratamento dos casos encontrados
Por Louise Henrique
era normal, mas os níveis de TSH, o hormônio estimulador da tireóide, estavam aumentados. Denominada de hipotireoidismo subclínico, essa condição, ao lado do hipertireoidismo subclínico, descrito em 1976 por Ernst Gemsenjäger, tem sido alvo de crescente discussão. O principal objetivo dos pesquisadores é determinar se essas manifestações
subclínicas teriam as mesmas repercussões sistêmicas do hipotireoidismo e hipertireoidismo francos, como dislipidemia, aterosclerose, infarto e fibrilação atrial. A glândula tireóide produz dois hormônios semelhantes e responsáveis por estimular o metabolismo celular, a tiroxina (T4) e a triiodotironina (T3). A síntese e a liberação desses hormônios são reguladas pelo hormônio estimulante da tireóide (TSH) secretado na porção anterior da hipófise. Se ocorrer eventualmente uma queda nos níveis de T3 e T4, a hipófise eleva imediatamente a produção de TSH para estimular a produção desses hormônios, os quais, aumentados, inibem a liberação de mais TSH, pelo mecanismo de feedback. No hipotireoidismo subclínico, tal aumento é constante, denotando que a tireóide daquele paciente precisa de mais estímulo para manter a produção normal de hormônios. No hipertireoidismo, os baixos níveis de TSH evidenciam que uma pequena quantidade de estímulo provoca uma resposta exagerada da tireóide.
Rastreamento desnecessário
O diagnóstico das doenças subclínicas da tireóide é baseado em exame laboratorial das alterações (veja quadro Definição e Classificação). A prevalência do hipotireoidismo pode atingir 20% das mulheres acima de 74 anos, segundo dados do National Institute of Health, a agência nacional de saúde dos Estados Unidos. As causas do hipotireoidismo subclínico são as mesmas do hipotireoidismo franco, incluindo, entre outras, a deficiência de iodo, o uso de medicamentos (amiodarona, lítio) e a tireoidite de Hashimoto.
Annals of Internal Medicine, de que o hipotireoidismo subclínico está associado à aterosclerose e ao infarto agudo do miocárdio sustentam a hipótese de que seria necessário o rastreamento populacional e o tratamento dos casos encontrados a fim de reduzir tal risco cardiovascular. E é aí que ganha fôlego a controvérsia.
O pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Dr. Rodrigo Olmos, afirma que estudos subseqüentes sobre o assunto não confirmaram esses achados. "A maior parte dos resultados é conflitante. Eles dependem
muito do tipo de estudo realizado e da população avaliada", afirma. Olmos explica que a prevalência de hipotireoidismo subclínico é, em geral, maior entre pacientes que também apresentam alta incidência de hipertensão, diabetes e dislipidemia, daí
a importância de os estudos que pretendem estabelecer uma relação de causa e efeito envolvendo disfunções tireoideanas subclínicas serem bem desenhados
para que esses fatores de risco cardiovascular já conhecidos não confundam os resultados.
O pesquisador fez uma revisão extensa da literatura internacional sobre o assunto para sua tese de doutorado e chegou à conclusão de que a maioria dos estudos que demonstraram uma associação positiva entre hipotireoidismo subclínico e doenças cardiovasculares contém erros metodológicos que tornam seus resultados mais suscetíveis a viés e, portanto, menos confiáveis. Os principais fatores de confusão encontrados foram o uso de modelos transversais, que analisam a população no momento estudado apenas, sem um seguimento ao longo do tempo, e a inclusão de pacientes com diagnóstico prévio de hipotireoidismo ou sintomáticos, ou seja, não representativos da população com hipotireoidismo subclínico. "Por definição, o rastreamento visa encontrar pacientes assintomáticos, mas que estão sob maior risco de desenvolverem uma doença.
Entretanto, como não temos dados definitivos de que o hipotireoidismo subclínico realmente ofereça algum risco para seus portadores, não há justificativa para um rastreamento populacional", conclui a livre-docente pela FMUSP e orientadora
da tese de Olmos, Dra. Isabela Benseñor. Quanto à necessidade de tratamento dos pacientes com hipotireoidismo subclínico já diagnosticado, os vários estudos de intervenção realizados apresentaram resultados controversos. Em primeiro
lugar porque o tratamento com hormônio tireoideano não é isento de riscos. A alteração da dosagem de TSH obtida com a administração de determinada dose de levotiroxina é extremamente variável de pessoa para pessoa e muitos pacientes
acabam, assim, supertratados, desenvolvendo ao fim hipertireoidismo subclínico que discutiremos adiante.
Em segundo lugar, nenhum estudo conseguiu comprovar que o tratamento melhora os parâmetros cardiovasculares supostamente associados ao hipotireoidismo subclínico ou tem impacto sobre a mortalidade dos indivíduos estudados. "As conseqüências das doenças subclínicas da tireóide são mínimas, portanto, não aconselhamos o tratamento de pacientes com níveis limítrofes de TSH (entre 4,5 e 10 mUI/L)", concluíram Martin Surks e demais autores de uma revisão sistemática da literatura, publicada em 2004 no The Journal of the American Medical Association (JAMA). De acordo com os autores, o tratamento poderia ser justificado apenas em pacientes com TSH maior que 10 mUI/L, por prevenir a progressão da disfunção tireoideana subclínica para o hipotireoidismo franco, que pode ocorrer em cerca de 5% desses casos. Outro fator de risco é a presença de autoanticorpos contra a tireóide, de antiperoxidase e de antitireoglobulina.
Tais parâmetros poderiam ser considerados como fatores a favor do tratamento. Preconiza-se por fim o tratamento de pacientes grávidas, pois, segundo algumas evidências, o hipotireoidismo subclínico pode estar associado ao desenvolvimento de insuficiência tireoideana no feto, fator responsável por atraso neuropsicológico. Embora não existam estudos de intervenção com o uso de levotiroxina em grávidas, especialistas acreditam que os benefícios superam os riscos do tratamento nesta população específica.
O outro lado da moeda
O hipertireoidismo subclínico apresenta prevalência menor, cerca de 1,5%, em mulheres acima de 60 anos. É interessante notar que a etiologia comum desses casos é o uso de uma dose excessiva de levotiroxina no tratamento do hipotireoidismo. Tais casos, porém, não se enquadram na controvérsia sobre a necessidade de rastreamento e tratamento porque são pacientes já diagnosticadas e seu tratamento e acompanhamento devem ser realizados periodicamente. Quanto às causas endógenas do hipotireoidismo subclínico, as mais freqüentes são a doença de Graves e os nódulos funcionantes da tireóide. Apesar do menor número de estudos sobre tal condição, são mais sólidas as evidências de associação entre o TSH abaixo de 0,1 mUI/L e maior incidência de fibrilação atrial, segundo Mark Helfand1.
Esta é mais uma situação em que o tratamento é indicado, independentemente da certeza sobre se ele irá reduzir a incidência de fibrilação atrial ou influenciar a mortalidade, em virtude das conseqüências potencialmente graves dessa arritmia
na população idosa. A maioria dos pacientes, no entanto, apresenta níveis de TSH entre 0,1 e 0,45 mUI/L e não há registro da mesma associação com fibrilação atrial ou com qualquer outra com condição pesquisada, tais como osteoporose, sintomas
psiquiátricos e disfunções cardíacas entre tais casos. Nananda Col e colegas defenderam, em artigo publicado no JAMA2, que em pacientes com mais de
60 anos que já apresentem alguma alteração cardíaca ou de densidade óssea também seria prudente o tratamento do hipertireoidismo subclínico, visando
eliminar mais um fator de risco desfavorável, mas esse ponto de vista não é universal.
Resumindo, as doenças subclínicas da tireóide, apesar de prevalentes, não justificam o rastreamento populacional ou tratamento de casos encontrados ao acaso. Com base nos dados atuais, só devem ser tratados os pacientes com indicações específicas (veja quadro Quando considerar o tratamento). Vale ressaltar ainda a diferença entre rastreamento realizado em indivíduos assintomáticos na comunidade e busca ativa de casos. "Há uma grande diferença no significado de um TSH alterado em um indivíduo totalmente assintomático e um TSH alterado em um indivíduo com sintomas inespecíficos, como obstipação intestinal, dores crônicas ou desânimo", escreve o Dr. Rodrigo Olmos em sua tese. No segundo caso, a solicitação de exames laboratoriais de função tireoideana visa o diagnóstico de uma condição clínica manifesta e não o rastreamento de doença subclínica. Neste caso, é válido lembrar que elas apresentam uma gama variável de manifestações e nem todo esse espectro merece ser tratado.
Referências:
1. Helfand M. Screening for subclinical thyroid dysfunction in non-pregnant adults: a summary of the evidence for the U.S. Preventive Services Task Force, Ann Intern Med 2004;140(2):128-41. 2. Surks MI et al. Subclinical thyroid disease. Scientific review and guidelines for diagnosis and management. JAMA 2004;291(2):228-38.
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