Manuel Alves Fernandes
Condenado à prisão perpétua na Itália, sem direito a banho de sol, o
que não faltará ao ativista italiano Cesare Battisti, 56 anos de idade,
pelos próximos anos, serão dias ensolarados.
Ele ganhou do
Supremo Tribunal Federal (STF), que rejeitou o pedido de extradição
apresentado pelo Governo Italiano, o direito de permanecer no Brasil.
Depois que saiu da cadeia em Brasília, veio para São Paulo. Ficou dois
dias na casa do advogado Luis Eduardo Greenhalg. Mas, diante da pressão
da imprensa, recebeu um convite de Magno de Carvalho, que conheceu de
visitas que este lhe fez na cadeia, para morar na casa de praia do
sindicalista, em Cananéia.
DegredoEm
quase 500 anos de existência de Cananéia como núcleo urbano, Battisti é
a segunda figura histórica dessa cidade frequentada por veranistas, no
Litoral Sul de São Paulo, a passar por uma situação de degredo. Ele não
pode sair do Brasil, do contrário, corre risco de ser extraditado.
Em
1502, por conveniência religiosa e política, mestre Cosme Fernandes,
bacharel português, judeu convertido, foi desterrado e deixado em
Cananéia, tornando-se o primeiro europeu a se estabelecer no Brasil, por
volta de 1502.
O bacharel viveu degredado em Cananéia, condenado
por crimes praticados em Portugal. Casou com Ariró, filha do cacique
dos carijós e virou um “rei branco” com seis mulheres e 220 escravos.
É tido como fundador de Cananéia, lugar descoberto, curiosamente, por outro italiano: o navegador Américo Vespucci.
Battisti,
que conhece essa história e já se familiarizou com as ruas estreitas e
de casarões antigos de Cananéia, começa a se tornar popular na “pequena
aldeia de pescadores”, onde diz que foi muito bem recebido pela
população.
Caminha pelas areias da praia, frequenta os bares e
restaurantes, entre eles a “Toca da Onça” que pertenceu a João Cassiano,
o “seu Janjão”, de frente para a Matriz. É conhecido por César.
“Ninguém me incomoda, todos me tratam bem, mesmo fingindo que não me
conheciam, me contaram depois que sabiam quem eu era”.
Recebeu a
reportagem de A Tribuna e da TV Tribuna na casa de Magno de Carvalho,
cercado por reproduções de fotos Karl Marx, Che Guevara e Lenin. Na sala
há uma TV sob uma placa de madeira entalhada, colocada por Magno:
“Novela e Big Brother aqui, nunca“.
LiberdadeDurante
uma hora e meia respondeu, sem restrições, às perguntas deste e da
jornalista Paula Araújo (TV Tribuna). Pelos quatro crimes e a
condenação, Battisti é considerado por muitos um criminoso comum ou um
terrorista político. E não falta quem condene o STF e o governo do
ex-presidente Lula por considerar que a decisão foi um erro que levou a
uma espécie de perdão dos crimes a que Cesare Battisti foi condenado na
Itália.
Mas, ele se considera inocente e “bode espiatório” de uma
espécie de armação criada pelos verdadeiros autores do crime ou pelo
interesses do governo italiano.
Nos quatro anos de prisão,em que ficou no Complexo da Papuda, em Brasília, garante que foi respeitado.
“Basta
dizer que no dia da votação no plenário (no STF), cada vez que um
ministro decidia a meu favor, a ala onde eu estava explodia de aplausos.
Todo mundo gostava muito de mim. E eu gostava muito de todo mundo.
Presos que nunca tinham lido um romance, passaram a ler. Todo mundo lia
na hora do banho de sol. A gente comentava livros”.
Em Cananéia,
já recebeu a visita de duas filhas que residem na França e de cuja mãe
se separou. E tem uma namorada que reside no Rio de Janeiro, que
identificou apenas como “Joice”.
Sobrevive da ajuda financeira
que recebe de amigos solidários, principalmente franceses e do escritor
Gabriel Garcia Marques. “ Além de cozinhar não sei fazer outra coisa, a
não ser escrever”, revela.
Como é viver em liberdade, na praia de Cananéia, depois de tanto tempo fugindo?
Nasci
na Itália, perto do litoral. Então gosto demais do mar. Mas
principalmente o que mais gostei daqui é do povo. Tem uma comunidade de
pescadores muito forte, muito importante, isso faz que o caráter da
cidade e do povo ainda não esteja poluído pelo turismo agressivo. Aqui é
um lugar com vida sadia, pela maneira de viver, a maneira de se
alimentar, de falar e de se relacionar com a gente. Cheguei aqui dois
dias depois que saí da cadeia. E me sinto livre. A única coisa que me
está faltando é autonomia econômica. Essa liberdade é a liberdade de
poder falar o que quero por exemplo. De poder encontrar as pessoas que
eu quero e de poder andar, sem dar a volta a cada cinco metros, como na
cela.
O que faz atualmente?Estou
lendo bastante. Mas não estou escrevendo porque não consigo escrever, a
minha cabeça não está pronta para isso. Passo um tempo lendo, volto a
sair, dou outro passeio, cuido da correspondência com centenas de
pessoas que me ajudaram, que são amigos no mundo inteiro. Cuido de
manter contato com esses grupos de solidariedade que se formaram não só
aqui no Brasil mas de todo o mundo, até nos EUA tem. Estou agradecendo
pessoas que me ajudaram muito, desde o grande escritor como Gabriel
Garcia Marques, a toda essa gente que, sem me conhecer pessoalmente, se
solidariza comigo. Isso toma muito tempo porque no email. São dezenas de
emails por dia. Não consigo responder a todo mundo, mas estou tentando
fazer isso. Mas nas histórias que escrevo os elementos são sempre
sociais. São histórias de ficção, um pretexto para desenvolver um tema
social. Como eu ainda não tenho esse engajamento social e cultural, não
tem matéria para eu escrever sobre o Brasil. Mas eu estou querendo
escrever o que vivo aqui nesse país. Tenho um livro escrito em francês
que está em tradução com a Editora Martins Fontes, que talvez saia em
dezembro. Chama-se “Ao Pé do Muro”.
De que trata ?
Tem
sempre um caráter biográfico. Sou personagem, mas à distância. O que
mais interessa é falar do dia a dia da cadeia, da história pessoal de
alguns presos. Cada história dessa é uma janela aberta no Brasil.
Aproveito pra falar do Brasil que ainda não conheço, que conheço através
das palavras destas pessoas. Eles falam de um sentimento muito forte. E
no mesmo tempo pego a história deles, a razão pela qual estão presos.
Não comento, não julgo nada Pego assim tal e qual e assim as histórias
pessoais deles, as histórias do crime cometido, do suposto crime
cometido, são coisas tão fortes.
Você tem uma formação marxista, desde a infância. Mantém essa visão nas suas obras?
Acho
que nunca acabamos de ser marxistas, porque Marx ainda é uma utopia.
Mas eu gosto de utopia, então sigo sendo marxista, agora ter alguma
coisa de Marx, já não são coisas atuais, porque ele mesmo falou que
escrevia para ser superado. E acho que uma sociedade comunista não se
constrói sobre a miséria e sim sobre a riqueza. E agora estamos perto de
um mundo que se aproxima sempre mais do bem estar, sempre mais de uma
justiça social mais ou menos onde existe um certo equilíbrio, que
restabelece o respeito ao indivíduo. O comunismo ainda está por vir. O
que aconteceu, que se falou que era comunismo, nada tem a ver com o
comunismo. Mesmo se, talvez, tenham existido boas intenções, mas não era
possível construir o comunismo na época muito atrasada economicamente,
com muita injustiça social, onde ainda o problema era a fome.
Você escreve em francês essa obra e está sendo traduzida para o português?
Os
últimos três livros escrevi em francês porque esqueci o italiano. São
mais de 30 anos fora da Itália. Os contatos com italianos são raros.
Então, não consegui mais escrever em italiano. E isso foi depois que
deixei Paris, vindo para o Brasil. Tudo isso foi um trauma forte para
mim. Escrevi o primeiro livro que se chama, aqui no Brasil "Minha fuga
sem fim". O segundo é "Ser bambu". E o terceiro é esse "Ao pé do muro"
que vai sair daqui a pouco.
"Ser bambu" , ser flexível?
Sim.
Ser flexível, pois a felicidade é um sonho para esse personagem que
seria o eu narrante. O que lhe falta é a flexibilidade. Ele bate sempre
de frente, e por isso paga um preço alto. Ele sonha de ser flexível para
não pagar um preço tão alto, mas continua a bater sempre de frente.
Aqui você está se sentindo bambu?
Espero que o Brasil vá me ensinar a ser bambu.
Como você domina bem português?
Eu
acho que eu não domino o português tão bem. Aprendi o português na rua e
na prisão. E agora com os amigos e companheiros que solidarizaram
comigo. São muitos. Quase em todo o estado tenho grupos de apoio e então
já estou enriquecendo meu vocabulário de português e brasileiro, eu
diria. Mas ainda falta muito, eu vou ter que fazer um curso de português
para poder começar a escrever em português, porque é impossível viver
em um país, pensar como pensa esse país e escrever em outra língua.
Você pensa em mais tarde pedir a naturalização?
Por
que não? Eu gosto do país, gosto do Brasil. Gosto do papel que está
tendo internacionalmente o Brasil hoje. Eu estou, não falo isso por
oportunismo mas eu sinto orgulho desse país pelo que hoje o Brasil está
fazendo no mundo. Então por que não? Gostaria de ser brasileiro. Mas
ainda é cedo para falar disso.
Você está afastado da família há tempos?Sim,
mas minhas filhas me visitaram algumas vezes na cadeia. Mas não é a
mesma coisa. O verdadeiro encontro foi aqui, há 15 dias, nesta casa. Foi
uma coisa muito forte, uma grande surpresa mista e a uma gratidão
imensa. É difícil de dizer. A filha mais nova eu deixei em Paris. Tinha 8
anos; agora tem 16 anos. (Emocionado) Foi uma felicidade conhecer minha
filha. Mas no mesmo tempo parecia que nunca a gente ficou separado. A
gente falou, imediatamente, como se tivesse me ausentado uma semana.
Isso foi muito bom. Elas felizmente são duas pessoas muito simples. Foi
muito fácil me relacionar com elas. Fácil demais.
Você sai na rua aqui normalmente, vai à praia, sem medo?
Faço
a vida como de qualquer outro habitante de Cananéia, ou seja, vou fazer
minhas compras. Virei caiçara. É impossível viver de outra maneira, tem
que viver como eles. Aqui não temos esse anonimato, onde a gente pode
se trancar no apartamento da metrópole. Felizmente aqui não existe isso,
então a gente tem que viver como vive qualquer outro. Então eu vou
fazer as compras, preparo a minha comida, passo o tempo aí conversando
com algum amigo.
Já fez amigos?
Aqui? Caramba aqui eu acho que nunca na minha vida fiz tantos amigos e tão rapidamente como aqui em Cananeia.
É verdade que alguns sabiam da sua situação e mesmo assim o receberam bem e depois disseram que sabiam de tudo, é isso mesmo?
É.
Eu acho que uma boa parte da gente que me encontrou por aqui, dos
amigos também, sabia quem era eu. Por educação, por delicadeza não
falavam disso aí. Depois quando saiu já nos jornais, que todo mundo
sabia, eles conversavam "não, mas eu sabia desde o início". E foi muito
engraçado porque alguns deles, aqui, me parabenizaram... uma coisa muito
forte foi uma. Um carro me parou na rua, e o motorista me chamou "sr
Cesare", eu voltei. No carro estava uma senhora e um senhor. E ela
falou: "não, não, fique tranqüilo, nós sabemos quem é você e estamos
orgulhosos que você more na nossa cidade"...
Me apertaram a mão,
eu fiquei muito emocionado porque, com essa propaganda negativa que se
fez a gente fica um pouco desconfiado. Mas pelo menos aqui em Cananéia
não pegou essa propaganda, essa criação do monstro não pegou não. O
italiano mesmo nem liga para isso aqui. Nem sabe quem sou. Não liga, não
tem nenhum interesse para isso. Agora, tem muitos grupos que apóiam.
Que me apoiavam e continuam a me apoiar. Ou seja, nessas manifestações
que aparecem na televisão são apenas dez a quinze pessoas em frente à
embaixada brasileira. Ao lado tem 500 pessoas que estão se manifestando a
meu favor. Só que a televisão não tem interesse. O caso é usado para
esconder muitas outras coisas, para distrair a atenção pública.
Você está emocionado?
Estou
falando de coisas que mexem muito comigo, com meus sentimentos, com o
emocional. Estou emocionado porque estou falando a um povo de um país
que me acolheu, que me deu essa chance e não é fácil. A "agradeço" é uma
palavra que não quer dizer nada. Eu gostaria de agradecer com os fatos,
com outras coisas, talvez por isso estou emocionado, ou seja, gostaria
que o país que me acolheu me conhecesse mais e que me desse a
possibilidade de eu poder contribuir em algo.
Essa emoção se deve ao fato de que, quando saiu da cadeia, estava com medo de como seria recebido?
Quando
saí da cadeia eu contava com muitos grupos de solidariedade que se
formaram neste país que foi uma maravilha, uma coisa muito
surpreendente, porque eu cheguei ao Brasil e não conhecia. E chegaram
pessoas de todos os lados me visitar na cadeia se se formaram grupos de
solidariedade, de ajuda de todo tipo desde econômica, à política, e à
psicológica. E não são relações políticas, são simplesmente relações de
pessoa a pessoa.
Saiu da cadeia com a roupa do corpo?
Saí.
A pouca coisa que eu tinha deixei lá, porque os outros presos precisam.
E saí com muitos livros, mas só porque era francês ou espanhol. Os
livros em português eu deixei para os presos.
Diante de toda a situação que passou, tanto na cadeia quanto ter que enfrentar os grupos contrários, teria feito algo diferente?
Alguma
coisa, talvez não teria feito de maneira tão imprudente, como eu fiz.
Por exemplo, não teria escrito algumas coisas sobre a situação italiana,
dessa maneira, porque eu estava na França, estava refugiado na França,
me achava em segurança. Eu estava tentando ajudar os camaradas
companheiros que ficavam presos na Itália. Isso talvez incomodou muito.
Incomodou
muito quando eu comecei a ser conhecido como escritor. Então eu comecei
a aparecer na mídia nacional e internacional. Acredito que esse foi meu
problema, porque senão não se explica por que na França, onde havia
centenas de exilados políticos, a Itália que nunca se interessou pelos
outros, só se interessou comigo. Eu não ninguém, não tinha nenhuma
importância, mais que os outros, pelo contrário bem menos que os outros,
na Itália dos anos 80.
Você é acusado de cometer quatro homicídios, e disse que não fez isso. Por que acusaram?
A
coisa mais estranha é que a Itália fez um pedido de extradição de 500
páginas, coisa que parece quase feito de propósito para que ninguém,
ninguém lesse esse pedido. E na realidade ninguém leu, todo mundo fala
nisso e ninguém leu.
Por quê?
Porque
se alguém tivesse se dado ao trabalho de ler esse pedido, a pessoa não
teria dúvida nenhuma que se trata de atividade política, que se trata de
ativismo político. Porque está no pedido, ou seja: o pedido de
extradição que já está feito para me prejudicar, porque senão não seria
pedida a extradição.
Qual a principal acusação?
Esse
processo ainda assim é uma defesa para mim, porque está claro que eu
sou acusado de associação subversiva , de luta armada contra os poderes
do Estado.
E o processo?
Eu
fui processado, a primeira vez em 1980. E fui condenado a doze anos e
seis meses por associação subversiva e falsidade. Os fatos específicos,
como esses quatro homicídios, no mesmo processo foram condenados os
responsáveis desses homicídios. Eu fui exilado no México. Oito anos
depois fazem outro processo porque o promotor de Justiça precisava se
desculpar e desculpar outros colaboradores. Todos jogaram (a
responsabilidade) sobre quem não estava la, que era eu. Mas não tem uma
prova técnica, nada. Não existe nada sobre isso aí. E eu sempre me
coloquei contra atentado à vida humana, em todos os meus escritos, em
tudo que eu produzi até agora, em tudo que escrevi e falei até agora.
Isso é uma constante.
Contesta a condenação?
É
um absurdo. Nunca acreditei que esse segundo processo, onde me acusam
de quatro homicídios, fosse tomado a sério sequer pelas autoridades
italianas. Fui condenado por uma lei de exceção, leis aplicadas
retroativamente. É uma loucura de colaboradores de justiça se
contradizendo um com outro. Tem um colaborador (deleção premiada) que me
acusa de ter feito uma determinada coisa que não fiz. Depois pegam
outro, volta a colaborar, e esse outro se auto-acusa por essa mesma
coisa. E aí modifica, cada vez vai modificando o processo instrutório. É
uma loucura!! Ninguém, lendo essa coisa aí, tomaria a sério essa
sentença, ninguém.
O senhor não conseguiu se defender?
E
como ia me defender? Me parecia tão absurda uma coisa dessas que,
sinceramente, ou ingenuamente, eu achava que ninguém ia pretender me
cobrar isso aí. Tem centenas de refugiados no mundo inteiro, e se sabe
que esses processos não têm valor nenhum. Então, nunca dei importância a
esse processo aí.
Pela sua linha de raciocínio você está se considerando o um 'bode expiatório' desse quadro todo?Acho
que fui usado mesmo sim. Eu fui usado por razões que ainda não me
explicam. E a Itália, não sei por que, começou a criar esse monstro aí
que eu não sou. E depois de certo ponto, mesmo querendo, não podia
voltar pra trás. Teve que continuar fazendo isso aí, dizendo que Cesare
Battisti é um criminoso comum. Mas, quando aconteceram esses homicídios
eu não estava mais na organização. Eu saí por essa razão, porque quando a
organização tomou uma linha dura, eu junto com quase todos os que
fundaram a organização, eram muitos, saímos da organização.
Você disse que julgam Cesare Battisti como um monstro. Quem é Cesare Battisti?
Cesare
Battisti está aqui. Tenta viver, tenta se engajar socialmente, acredita
na justiça. E acredita que não é com a violência que se consegue obter a
justiça. Hoje no Brasil não é através da violência que vamos fazer uma
sociedade mais justa.
O Cesare que
acredita na justiça, que tem aquelas utopias, tem o sonho de um dia,
quem sabe, conseguir visitar novamente a Itália?
Claro.
Eu gostaria de voltar à Itália porque nasci na Itália e ainda tenho lá
irmãos e irmãs. Gostaria de voltar, passar aí um mês, dois. Agora morar
acho que não. Já é muito tempo (fora). Já tenho problemas para me
expressar em italiano por exemplo. Mandei um e-mail para minha cunhada
outro dia. E ele me respondeu: "Como pode um escritor escrever tão mal o
italiano"? Estou esquecendo a língua. Minhas relações já não estão na
Itália, estão mais em outros países e agora no Brasil. Eu hoje estou
'tão saboreando' a liberdade de estar aqui no Brasil que não penso nisso
agora.
Sofreu, depois que saiu da cadeia, alguma pressão de grupos contrários?
Não.
Eu soube de algum grupo de extrema direita que fez alguma reação. Mas
nunca vi ninguém, não tive nenhum contato com essas pessoas.
Terça-feira, 6 de setembro de 2011 -
08h05

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Cesare Battisti
Battisti,
algemado, sendo conduzido pela Polícia Federal, ainda quando estava
preso em Brasília: procurador acha que visto de permanência é ilegal
(Foto VEJA)
Amigos, nem tudo está perdido: ainda existem autoridades com vergonha na cara “neste país”.
O Ministério Público Federal no Distrito Federal pediu hoje na
Justiça, por meio de ação civil pública, a anulação do visto de
permanência do ex-terrorista italiano Cesare Battisti no Brasil.
Solicitou, também, que o assassino julgado e condenado por quatro
homicídios na Itália seja deportado para a França, o México (os dois
últimos países onde viveu antes de chegar ao Brasil) ou para algum outro
país que concorde em recebê-lo.
O Ministério Público goza de autonomia para tomar essa iniciativa
porque não é subordinado nem ao Judiciário, que deixou nas mãos do então
presidente Lula a decisão de extraditar ou não o criminoso para a
Itália, nem ao Executivo. O procurador da República Hélio Heringer, que
usou perfeitamente essa autonomia, considerou, na ação, que a concessão
do visto a Battisti é ilegal e contraria o Estatuto do Estrangeiro (
lei n º 6.815, de 19 de agosto de 1980).
Caso não tem a ver com a extradição
Ou seja, sua iniciativa não tem nada a ver com a decisão do Supremo
Tribunal Federal, que considerou Battisti passível de extradição para a
Itália — cujo governo quer vê-lo pagar por seus crimes em uma de suas
penitenciárias de segurança máxima –, mas deixou nas mãos de Lula a
decisão de entregar ou não o criminoso para Roma.
Lula, pressionado pela esquerda do PT, ONGs e outros grupos, foi
empurrando o caso com a barriga até que, no último dia de seu mandato, a
31 de dezembro passado, com o entusiástico apoio do então ministro da
Justiça, Tarso Genro, decidiu que o assassino poderia ficar no Brasil.
Em seguida, o Ministério da Justiça concedeu a Battisti visto de permanência no Brasil, bem como o direito de trabalhar no país.
O procurador Hélio Heringer entrou no caso sem abordar a questão da
extradição. Argumenta, com poderosos fundamentos, que a legislação
brasileira proíbe a que se conceda visto de permanência a estrangeiro
condenado ou processado em outro país por crime doloso, passível de
extradição.
O procurador argumenta que o Supremo Tribunal Federal, ao longo do
julgamento do pedido de extradição, acabou concluindo claramente que os
quatro assassinatos cometidos por Battisti nos anos 1970 são de natureza
comum, e não política.
São, portanto, passíveis de extradição. Sendo passíveis de
extradição, mesmo não tendo ela sido concedida por Lula, esses crimes
caem no caso da lei nº 6.815. O visto de Battisti, portanto, é ilegal.
Ele não pode permanecer no país. Mesmo que não seja entregue à Itália,
precisa ser deportado.
Battisti voltará
para a cadeia
em seis meses
O terrorista e assassino italiano Cesare
Battisti está com os dias de popstar contados. O promotor Walter Silva
Pinto avalia que, dentro de seis meses, ele poderá ser deportado para a
Itália, onde é condenado pela morte de quatro pessoas. É o prazo que
processos de cassação de visto leva para ser julgado. O MPF do DF quer
fazer valer o Estatuto do Estrangeiro, que barra no Brasil condenados no
país de origem.
- 15/10/2011 | 00:00
Cumpra-se a lei
Pela lei, Battisti não poderia ter visto de
trabalho no Brasil por ter cometido crimes comuns na Itália, os mesmos
reconhecidos pelo STF.
- 15/10/2011 | 00:00
Cerco federal
Autor do livro “O caso Cesare Battisti – A
palavra da Corte”, Silva Pinto elogiou a decisão do procurador Hélio
Heringer de cassar o visto.
- 15/10/2011 | 00:00
Abobados
Com advogados ligados ao PT e asilado pela
decisão do amigão Lula, Battisti leva vida de petista da alta: de
jatinho a hotel de luxo.