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domingo, 27 de abril de 2008

EÇA DE QUEIROZ, Os Grandes Portugueses

A escrita de Eça de Queirós modernizou a literatura portuguesa. Dono de uma língua feroz e um humor cáustico, escreveu romances fundamentais como “Os Maias” e “O Crime do Padre Amaro”. Foi um observador atento da sociedade do século XIX e, com a força das palavras, lutou contra a ferrugem nacional. Viveu durante anos fora do País, o que lhe aprimorou a inabalável lucidez. Morreu em Paris. A sua obra está traduzida numa vintena de línguas. Eça de Queirós foi um génio da literatura, ao nível “de um Charles Dickens ou de um Émile Zola”, diz o professor universitário José Miguel Sardica.

– Contrair Conteúdo

Eça de Queirós era - ainda é - um antídoto contra o tédio. No meio de tanta literatura soturna do seu tempo, a sua escrita era um refresco. Os textos de Eça criaram o português moderno A sua obra revelou uma capacidade de análise e distanciamento notáveis. É importante para o entendimento da sociedade, hábitos e costumes do século XIX.

Acutilante nas críticas à sociedade e certeiro na descrição do pântano em que Portugal vivia na altura, Eça de Queirós foi um dos maiores pensadores do seu tempo. Cáustico, desencantava os mais ácidos argumentos para descrever a sociedade do seu tempo.

Foi um escritor realista, mas também um revolucionário e anarquista. Considerava que a literatura era uma forma de intervenção. A médica Isabel do Carmo lembra que o autor tinha “um carácter social e político muitas vezes esquecido”.

José Maria Eça de Queirós nasceu em 25 de Novembro de 1845, na Póvoa de Varzim. Era filho natural do juiz José Maria de Almeida e oficialmente de mãe desconhecida. Foi criado por uma ama até à morte desta. O pai tinha, entretanto, casado com Carolina Pereira d'Eça de Queirós, que não queria saber do jovem. Foi viver com os avós paternos em Verdemilho, perto de Aveiro. Em 1855, foi para o Porto, onde residia o pai, mas a madrasta - já que senhora Eça de Queirós não se reconhecia oficialmente como sua mãe - continuava a não querer vê-lo. Foi, por isso, internado num colégio. Segundo o historiador José Hermano Saraiva, Eça de Queirós “foi criado na amargura de nunca ter tido uma família”. Com 16 anos partiu para Coimbra para cursar direito. No meio do ambiente boémio, que sempre caracterizou a cidade do Mondego, fez amizade com Antero de Quental e outros jovens intelectuais. Foi o início da Geração de 70, grupo que se afirmou pelo desejo de intervenção e renovação da vida política e cultural portuguesa.

Eça fez o primeiro contacto com a literatura através do teatro. Participou, como actor, no Teatro Académico da Universidade de Coimbra. Os seus primeiros escritos datam dessa época. Trata-se de crónicas jornalísticas que foram publicadas como folhetim na revista “Gazeta de Portugal”.

Eça veio para Lisboa em 1866, onde começou a trabalhar como advogado. Uma carreira marcada pelo insucesso, ao contrário da escrita, que corria cada vez melhor. O nome de Eça de Queirós ganhava notoriedade. Mudou-se para Évora, onde fundou o semanário “O Distrito de Évora”. Abriu, igualmente, um escritório de advogados, mas não teve melhor sorte do que em Lisboa.

Em 1869 viajou ao Egipto, onde assistiu à inauguração do Canal do Suez. Esta viagem inspiraria algumas das suas obras, como o “Mistério da Estrada de Sintra” e “A Relíquia”. No regresso a Lisboa, publicou as crónicas da viagem no “Diário de Notícias”. Foi enviado para Leiria como administrador municipal. Esta colocação permitiu-lhe observar uma realidade que deu origem a “O Crime do Padre Amaro”, primeiro romance realista português. Um retrato humano e social do País, fruto “da capacidade de Eça para desmontar as convenções morais”, explica José Miguel Sardica.

Durante a sua estadia em Leiria, prestou provas para a carreira diplomática, no Ministérios dos Negócios Estrangeiros. Iniciou, com Ramalho Ortigão, a publicação periódica de “As Farpas”, que, para José Miguel Sardica, “é só o melhor jornalismo alguma vez escrito em Portugal”. A colaboração com esta publicação terminou em 1872, quando foi nomeado para o lugar de cônsul de Portugal em Havana. Durante a estadia em Cuba, a veia revolucionária de Eça veio ao de cima. Encarregou-se da defesa dos emigrados macaenses que trabalhavam nas grandes plantações. Para o cônsul português, aquela situação era escravatura dissimulada. Passados seis meses, foi transferido para Newcastle, Reino Unido. Eça de Queirós nunca se deixou acomodar na rotina traiçoeira. Aparentemente, passou os anos mais produtivos de sua vida em Inglaterra. Foi lá que escreveu alguns dos seus trabalhos mais importantes, incluindo “A Tragédia da Rua das Flores” e “Os Maias”.

Eça de Queirós passou muitos anos no estrangeiro, o que nunca o impediu de escrever romances que, para Francisco Sarsfield Cabral, director de informação da Rádio Renascença, “são retratos da sociedade ainda hoje actuais”. A distância tornou possível a reflexão lúcida que Eça fez sobre Portugal.

Casou-se em 1886 com Emília de Castro, filha do conde de Resende. Seguiu-se um novo posto consular em Paris. Passados três anos, regressou a Lisboa. Juntou-se, pela primeira vez, aos jantares dos “Vencidos da Vida”, tertúlias que contavam com a participação de Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão e Oliveira Martins e representavam a crescente incapacidade dos homens da Geração de 70 para mudar a vida política portuguesa.

Eça de Queirós acabou por adoecer e partiu, a conselho de especialistas, de Paris para a para a Riviera francesa, e depois para os Alpes suíços. Tinha esperança que novos ares lhe fizessem bem. Faleceu em 16 de Agosto de 1900, na sua casa na capital francesa.

Eça de Queirós foi um espantoso escritor que apanhou, como ninguém, o carácter de uma nação. Apreendeu a nossa maneira de ser e criticou-nos com palavras tão belas que faziam esquecer a ironia e crueldade. Foi, também por isto, uma fera indomável do seu tempo. O nome de Eça de Queirós tornou-se num adjectivo. Haver um adjectivo - queirosiano - prova toda a sua importância.

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26/10/2008 free counters

OS MIAUS [Adaptação livre de “Os Maias” de Eça de Queirós]


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Os Miaus
Cristiana Resina, Sara Rodrigues
Colecção: Clássicos a Brincar
Nº págs.: 80
ISBN: 978-972-41-5079-6
Preço: 12,00 € (com IVA 5%)


Primeiro título de uma nova colecção, que reunirá adaptações livres, para os pequenos leitores (a partir dos 8 anos), dos clássicos da literatura portuguesa. O objectivo é proporcionar-lhes um primeiro contacto com algumas das obras fundamentais da nossa literatura – que eles irão mais tarde ter de ler e estudar na escola –, de forma a criar alguma familiaridade com as mesmas e facilitar a sua abordagem numa fase posterior.

OS MIAUS [Adaptação livre de “Os Maias” de Eça de Queirós]
Corria o ano de 1875. Os homens usavam cartolas e bengalas, as senhoras corpetes e saias de balão, e os gatos... Bem, os gatos também usavam tudo isto! Pelo menos, na nossa história.
A célebre família dos Maias ganha pêlo, bigodes e garras afiadas, e transforma-se na família dos Miaus, gatos com história e histórias para contar, não muito diferentes das vividas pelos personagens de Eça de Queirós, mas agora contadas às crianças, de forma simples e divertida. Naquela que será uma primeira abordagem aos clássicos portugueses, que mais tarde farão parte do conteúdo programático escolar, o que se espera de “Os Miaus” é que promovam a leitura e ensinem, brincando. E não é esta a melhor forma de aprender?

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26/10/2008 free counters

OS MAIAS, DOC

Ficha de Trabalho - Os Maias (Alencar e M. Monforte)
2003-10-22
35,50 KB
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Ficha de Trabalho - Os Maias (Hotel Central)
2003-10-22
41,00 KB
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Ficha de Trabalho - Os Maias
2003-10-21
41,00 KB
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26/10/2008 free counters

Eça olhando para sua musa (BLOG DE MIGUEL FALABELLA)

Escrito em:9/12/2007

AINDA PORTUGAL QUE COMPREENDE-SE NA SAUDADE.

Começo por agradecer aos comentários e às palavras que me chegaram. É sempre muito bom perceber que o pensamento encontra eco e abrigo em outras moradas que não a sua. Prometi terminar o relato sobre Portugal e cumpro o prometido, antes que me chamem de mentiroso. Para o André, que me pediu uma dica sobre cursos de teatro aqui no Rio, acho que a CAL (Casa das Artes de Laranjeiras) ainda é o melhor endereço, mas é preciso informar-se melhor, porque eu estou meio desatualizado quanto aos cursos que a cidade oferece.
Saindo do hotel, na Praça Camões e virando à direita na rua do Alecrim, em direção ao Cais do Sodré, num pequeno jardim intocado pelo tempo, encontra-se a estátua de Eça de Queirós, um dos maiores romancistas de todos os tempos, na minha opinião, e que, com uma pena afiada e precisão cirúrgica, vasculhou o avesso da sociedade lisboeta de seu tempo, criando personagens inesquecíveis e deliciosos. Eça tinha humor como ninguém e um mergulho na aventura de seu universo literário traz sempre um sorriso nos lábios, de puro deleite.

Aí está, o grande Eça olhando para sua musa, acredito eu, aquela que sussurrou em seus ouvidos a urgência de juntar as palavras para que seus iguais pudessem ver-se um pouco mais além dos próprios umbigos.
É preciso que se diga que herdamos de Portugal muito mais do que a língua e os paladares. Herdamos também a violenta falta de auto-estima que faz com que cuspamos não só na própria imagem, mas também em qualquer outra que nos dimensione a pequenez . Eça, a exemplo de Saramago, dia desses ainda, foi duramente atacado por alguns de seus pares, porque expunha os intestinos de uma sociedade que vivia de aparências e falsos valores. Eça reagia. Reproduzo, a seguir, uma carta que Eça de Queirós escreveu a Fialho de Almeida que tinha destroçado o romance “ Os Maias“ numa crítica para jornal onde escrevia.

Carta de Eça de Queirós para Fialho de Almeida

“Os franceses falam muito do espalhafato que faz Satanás, quando o mergulham dans un bénitier. Eu nunca assisti a esta escandalosa afronta feita ao venerável pai da mentira; nem você também, suponho eu. No entanto imagina você bem como Belzebu berrará e escoucinhará, ao sentir o contato untuoso do detestado líquido. Pois, querido amigo, assim eu escoucinhei e berrei, enquanto você, com mão dura e forte, me estava mergulhando na água benta da sua crônica sobre “Os Maias”.
Você concordará que esta analogia é rigorosa. Eu, com efeito, represento para você sa-tanás, o pai de toda a falsidade. Eu sou aquele mafarrico que escolhe, para personagens do seu livro, não sei que janotas petulantes e estrangeirados, em vez de dar, nessas pági-nas, o lugar preeminente ao Marquês da Foz, aos empreiteiros das obras do porto de Lisboa, aos rapazes beneméritos que foram premiados na escola; aos construtores do bairro Estefánia, ao Conselho de Estado, etc. etc. Eu sou aquele porco sujo que pretende que as mulheres de Lisboa têm amantes, e que, nos jantares de sociedade, em vez de discutirem Hegel, o positivismo, e a psicologia (sic) das religiões, falam de criadas e de cabeleireiros! Eu sou aquele gênio da maledicência, que afirma que os esplendores da Avenida são talvez inferiores aos da Via-Ápia, e que a sociedade que a freqüenta não é talvez nem a mais culta nem a mais original do universo, etc., etc., por aí além.

Por outro lado a sua crônica, meu caro Fialho, é uma bela pia de mármore, cheia a trasbordar de água benta da virtude, do Patriotismo, e da fé em Lisboa como capital da civilização. E, portanto, o que você fez, com a sua costumada veemência, foi plonger le diable dans un bénitier. Daí os berros e os couces.

Couces e berros, sobretudo de espanto. Porque enfim, eu tudo podia esperar do seu espírito, tão impressionável e ardente, menos essa atitude de pudicícia ofendida e de magoado patriotismo. O que era com efeito de esperar, dada a sua índole e os seus escritos, era que você criticasse o livreco, sob o ponto de vista do próprio livreco; e que, como legionário da mesma legião, ocupado também neste belo trabalho da literatura contemporânea, que consiste em fazer o inquérito experimental das sociedades, me cen-surasse só por os meus golpes não serem bem destros, nem bem certeiros, nem bem úteis, nem bem claros, nem bem eficazes. Mas vê-lo de repente surgir no campo inimigo, com uma sobrecasaca séria de conselheiro de Estado, gritando — “Em Lisboa não se deve tocar! Tudo aqui é puro, belo, e grande! Vergonha ao maldizente que ouse rir da cidade incomparável, perfectissima Urbs!” — eis o que verdadeiramente me assombrou! Por que tão singular mudança? Ó Fialho, foi você eleito diretor-geral de um Banco? É você o inspirador de um sindicato? Recebeu você, das mãos do monarca, a grã-cruz de São Tiago? Esta você diretor-geral de uma grande repartição do Estado? Que interesse supremo o fez aliar-se ao Conselheiro Acácio? Está você, por acaso, apaixonado pela mulher de Acácio, e finge-se assim pudico, ordeiro e patriota, para lisonjear o benemérito e cornudo homem... Sapristi, je crois que j’ai touché juste! Nessa sua crônica sobre “Os Maias”, Fialho, há uma mulher!! Se assim é, (e estou certo que é assim) como você deve ter sofrido, pobre amigo! Conheço essa situação, é medonha!... É ela ao menos bonita, e cochonne?

Sério, sério — a sua crônica, escrita com a sua costumada verve, espantou-me. Que você fizesse ao calhamaço um enterrement de primeira classe, bem está! O grosso cartapácio, com mil bombas, fervilha de defeitos! As duas próprias cenas que você incondicionalmente louva, estão bem longe de me agradar! Mas que você fizesse a vista grossa sobre esses defeitos, para se lançar sobre mim com indizível fúria e acusar-me de falta de respeito pelas nossas virtudes, pela nossa elevação moral, pela grandeza da nos-sa civilização, e pelo esplendor de Lisboa como capital — é forte! Cousa espantosa ver o meu velho e rebelde Fialho repetir, quase ipsis verbis, um grande rasgo patriótico do Tomás Ribeiro, há anos, nas Câmaras, declarando “traidores os que faziam, em escritos públicos, a crítica dos nossos costumes”! O Ramalho fez, sobre essa saída do lírico da Judia, um artigo extraordinário nas Farpas.

Esta carta já vai longa. E não me alargo por isso mais, além deste ponto de vista da sua crônica, — que foi o que me impressionou. Havia, porém, nela, ainda outros detalhes, que eu desejaria discutir com você, violentamente. Assim, diz você que os meus perso-nagens são copiados uns dos outros. Mas, querido amigo, numa obra que pretende ser a reprodução de uma sociedade uniforme, nivelada, chata, sem relevo, e sem saliências, (como a nossa incontestavelmente é) — como queria você, a menos que eu falseasse a pintura, que os meus tipos tivessem o destaque, a dessemelhança, a forte e crespa individualidade, a possante e destacante pessoalidade, que podem ter, e têm, os tipos de uma vigorosa civilização como a de Paris ou de Londres? Você distingue os homens de Lisboa uns dos outros? Você, nos rapazes do Chiado, acha outras diferenças que não sejam o nome e o feitio do nariz? Em Portugal há só um homem — que é sempre o mesmo ou sob a forma de dândi, ou de padre, ou de amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir; sem mola de caráter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias. É o homem que eu pinto, sob os seus costumes diversos, casaca ou batina. E é o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal que vemos.

Outra cousa bem singular é você duvidar da exatidão de certos detalhes, traços de sociedade, como as senhoras falando de criadas ou apostando dez tostõezinhos nas corri-das, etc. Oh homem de Deus, onde habita você? Em Lisboa ou em Pequim? Tudo isso é visto, notado em flagrante, e por mim mesmo aturado sur place!

Mas não palremos mais. Vocês, em todo o caso, hão de findar por me fazer zangar. O Carlos Valbom acusa-me de escrever à francesa, e com galicismo que o arrepiam; e diz isto em períodos absolutamente construídos à francesa, e metendo em cada dez palavras cinco galicismos! Você, por outro lado, nunca tomou a pena, que não fosse para cair sobre os homens e as cousas do seu tempo, com um vigor, uma veia, um espírito, um éclat que fazem sempre a minha delícia. E quando eu faço o mesmo, com mais moderação, infinitas cautelas, et une touche très juste — você aparece-me, e grita, “aqui del-rei patriotas!” É escandaloso. Para vocês tudo é permitido: galicismos à farta, pilhérias à pátria, à bouche que veux-tu? A mim, nada me é permitido! Ora sebo!

Positivamente, basta de cavaqueira.

Diga ao Oliveira Martins que eu lhe mando, por este correio, mais fradiquice. E você, caro Fialho creia sempre na sincera estima e verdadeira admiração, com que lhe aperta a mão o seu muito amigo

Bristol, 8 de agosto de 1888.
Eça de Queirós”

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26/10/2008 free counters

OS MAIAS , RESUMO DOC

Os Maias:
Pontos essenciais dos capítulos I, II, III, IV e VI
Educação de Pedro da Maia
O Jantar no Hotel Central - discussão literária (Realismo/Naturalismo e Romantismo)

Resumo | Autor: Diogo Santos


Os Maias:
Caracterização das Personagens
Resumo dos capítulos I, II e III

Resumo | Autor: João R. Silva

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26/10/2008 free counters

Netprof - Testes - Interdisciplinas

Escolha a opção correcta:
1 - O título - Os Maias - liga-se à história trágica que serve de pretexto para o desenvolvimento da comédia de costumes que o subtítulo
A) Episódios da Vida Romântica - sugere.
B) Episódios da Vida - sugere.
C) Episódios da Vida de Carlos da Maia - sugere.

2 - Na obra temos a história de uma família lisboeta, representante da alta burguesia (num conjunto de três gerações sucessivas). A primeira geração é representada por
A) Pedro da Maia/ Maria Monforte.
B) Afonso da Maia/ Maria Eduarda Runa
C) Carlos da Maia/ Maria Eduarda da Maia

3 - O início do romance situa-nos em 1875, no Outono. Estamos, por isso, na 3.ª geração, na história de Carlos. Apercebemo-nos, no entanto, que será necessário recuar no tempo para encontrar explicações para alguns factos do presente. Assim, surgem
A) as analepses
B) as prolepses
C) as reduções temporais

4 - A pergunta de Carlos "Onde nasceste tu, por fim?" provoca uma nova analepse sobre factos que, apesar de integrados, em termos temporais, na anterior, tinham sido "esquecidos" e que só agora são explicados. Assim, num misto de discurso indirecto livre e de discurso directo, ficamos a conhecer os pormenores do passado de Maria Eduarda, contados
A) por Vilaça
B) por Ega
C) pela própria personagem

5 - O período compreendido entre 1820 e 1875 foi sujeito a anisocronias (o tempo narrativo é menor do que o tempo da história), conseguidas através do recurso a resumos e a elipses. Estas constituem a omissão de alguns factos ou mesmo de alguns períodos da história. Exemplo:
A) "Seu pai morreu de súbito, ele teve de regressar a Lisboa. Foi então que conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa, uma linda morena, mimosa e um pouco adoentada. Ao fim do luto casou com ela. Teve um filho, desejou outros; e começou logo, com belas ideias de patriarca moço, a fazer obras no palacete de Benfica, a plantar em redor arvoredos, preparando tectos e sombras à descendência amada que Ihe encantaria a velhice." [...]
B) "Outros anos tranquilos passaram sobre Santa Olávia. Depois uma manhã de Julho, em Coimbra…" [...]
C) "Sintra, de repente, pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste…" [...]

6 - A época da Regeneração e a alta sociedade lisboeta aparecem-nos retratadas ao longo desta obra por meio de cenários onde se movem determinadas personagens que foram esvaziadas de traços individualizantes para melhor representarem os bons e os maus hábitos, as qualidades e os defeitos, as mentalidades retrógradas ou progressistas de certo grupo social, profissional ou cultural.
Destes ambientes devemos destacar (pelo pormenor da descrição, pela ironia fina ou sátira directa, pela cor epocal transmitida):
A) O jantar no Hotel Central: contacto de Carlos com a sociedade de elite, a crítica literária e a literatura, a situação financeira do país e a mentalidade limitada e retrógrada.
B) As corridas de cavalos: a educação das mulheres em duas concepções opostas e a superficialidade das opiniões de Sousa Neto, o representante da administração pública
C) O jantar em casa do Conde de Gouvarinho:o desejo de imitar o que se faz no estrangeiro e o provincianismo do acontecimento

7 - A época da Regeneração e a alta sociedade lisboeta aparecem-nos retratadas ao longo desta obra por meio de cenários onde se movem determinadas personagens que foram esvaziadas de traços individualizantes para melhor representarem os bons e os maus hábitos, as qualidades e os defeitos, as mentalidades retrógradas ou progressistas de certo grupo social, profissional ou cultural.
Destes ambientes devemos destacar (pelo pormenor da descrição, pela ironia fina ou sátira directa, pela cor epocal transmitida):
A) O jantar em casa do Conde de Gouvarinho: a superficialidade dos temas de conversa, a insensibilidade artística, a ignorância dos dirigentes, a oratória oca dos políticos e os excessos do Ultra-Romantismo.
B) O episódio na redacção do jornal "A TARDE": a parcialidade do jornalismo da época.
C) O sarau literário do Teatro da Trindade: a educação das mulheres em duas concepções opostas e a superficialidade das opiniões de Sousa Neto, o representante da administração pública.

8 - 8. Quando Carlos regressa ao Ramalhete, após o incesto consciente, mostra-nos "o avô em mangas de camisa, lívido, mudo, grande, espectral". Na mesma altura, no Ramalhete,
A) "o alto repuxo cantava".
B) a Natureza manifesta o seu pesar: "Rosas de Inverno esfolhavam-se num vaso do Japão".
C) "a luz sobre o veludo espalhava um tom de sangue".

9 - Afonso da Maia
A) “Era em tudo um fraco; e esse abatimento contínuo de todo o seu ser resolvia-se a espaços em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo, murcho, amarelo, com as olheiras fundas e já velho. O seu único sentimento vivo, intenso, até aí, fora a paixão pela mãe.”
B) "Era decerto um formoso e magnífico moço, alto, bem feito, de ombros largos, com uma testa de mármore sob os anéis dos cabelos pretos, e os olhos dos Maias, aqueles irresistíveis olhos do pai, de um negro líquido, ternos como os dele e mais graves. Trazia a barba toda, muito fina, castanho-escura, rente na face, aguçada no queixo - o que Ihe dava, com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma fisionomia de belo cavaleiro da Renascença."
C) “era um pouco baixo, maciço, de ombros quadrados e fortes: e com a sua face larga de nariz aquilino, a pele corada, quase vermelha, o cabelo branco todo cortado à escovinha, e a barba de neve aguda e longa - lembrava, como dizia Carlos, um varão esforçado das idades heróicas, um D. Duarte de Meneses ou um Afonso de Albuquerque. E isto fazia sorrir o velho, recordar ao neto, gracejando, quanto as aparências iludem!”

10 - A sociedade lisboeta (costumes, vícios, virtudes…) é representada por personagens que tipificam um grupo, uma profissão, um vício… Alencar
A) é identificado claramente com o Ultra-Romantismo, na aparência, no modo de vestir…
B) na parte final da obra, assume papel importante na intriga: toma conhecimento da verdadeira identidade de Maria Eduarda e a sua presença passa a marcar os principais acontecimentos daí em diante.
C) é a projecção de Eça de Queirós

11 - A sociedade lisboeta (costumes, vícios, virtudes…) é representada por personagens que tipificam um grupo, uma profissão, um vício… João da Ega
A) considerava que as senhoras podiam ler a literatura romântica sem terem necessidade de corar de vergonha; por outro lado, considerava que dentro da cabeça dos realistas só existia "excremento, vómito, pus, matéria verde".
B) é o defensor das ideias do Realismo, pensador, literato, excêntrico, cínico, inteligente, audacioso, demagogo, dândi e ateu…
C) apresentava "voz arrastada, cavernosa, ateatrada".

12 - A sociedade lisboeta (costumes, vícios, virtudes…) é representada por personagens que tipificam um grupo, uma profissão, um vício… Sousa Neto
A) "lamentava que os seus muitos deveres não Ihe permitissem percorrer a Europa. Em pequeno fora esse o seu ideal; mas agora com tantas preocupações políticas [...]".
B) é "um diabo adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de génio".
C) "tem viajado por todo o Universo, colecciona obras de arte, bateu-se como voluntário na Abissínia e em Marrocos, enfim, vive, vive na grande, na forte, na heróica acepção da palavra."

13 - A sociedade lisboeta (costumes, vícios, virtudes…) é representada por personagens que tipificam um grupo, uma profissão, um vício… Cruges
A) é "filho de um clergyman da igreja inglesa do Porto".
B) é "um diabo adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de génio".
C) "considerava Lisboa chinfrim e só estava bem em Paris - sobretudo por causa do género fêmea de que em Lisboa se passava fomes: ainda que nesse ponto a Providência não o tratava mal.".

14 - A sociedade lisboeta (costumes, vícios, virtudes…) é representada por personagens que tipificam um grupo, uma profissão, um vício… Dâmaso Salcede
A) é um snob, servil, pouco inteligente e cobarde, congrega em si os vícios da sociedade ("de charuto na boca (...) percorria o Figaro").
B) é o inglês rico, culto e boémio ("dá largas ao seu temperamento byroniano").
C) "além de muito maçador e muito pequinhento, não tinha nada de cavalheiro."

15 - A sociedade lisboeta (costumes, vícios, virtudes…) é representada por personagens que tipificam um grupo, uma profissão, um vício… Palma "Cavalão"
A) é redactor da "Corneta do Diabo" e jornalista corrupto ("O artigo fora-lhe, simplesmente, encomendado e pago. No terreno do dinheiro vence sempre quem tem mais dinheiro.").
B) é conde, ministro da Finlândia e diplomata ("complicou esta simples transacção com tantas finuras diplomáticas, tantos documentos, tantas coisas com o selo real da Finlândia…").
C) é judeu banqueiro, director do Banco Nacional e homem influente ("o respeitado director do Banco Nacional, o marido da divina Raquel, o dono dessa hospitaleira casa da Rua do Ferregial onde se jantava tão bem.").

16 - Carlos recebeu uma educação
A) cosmopolita
B) inglesa.
C) portuguesa.

17 - Carlos e Ega chegam ao Teatro da Trindade, onde Rufino faz um discurso cheio de retórica. Rufino é
A) “um bacharel transmontano, muito trigueiro, de pêra», com um «vozeirão túmido, garganteado, citadino, de vogais arrastadas em canto”.
B) “um bacharel sulista, muito trigueiro, de pêra», com um «vozeirão túmido, garganteado, citadino, de vogais arrastadas em canto”.
C) “um bacharel transmontano, muito trigueiro, de pêra», com um «vozeirão túmido, garganteado, provinciano, de vogais arrastadas em canto”.

18 - "Ega sentara-se também no parapeito, ambos se esqueceram num silêncio. Em baixo o jardim, bem areado, limpo e frio na sua nudez de Inverno, tinha a melancolia de um retiro esquecido, que já ninguém ama: uma ferrugem verde, de humidade, cobria os grossos membros da Vénus Citereia; o cipreste e o cedro envelheciam juntos como dois amigos num ermo; e mais lento corria o prantozinho da cascata, esfiado, saudosamente, gota a gota, na bacia de mármore. Depois ao fundo, encaixilhada como uma tela marinha nas cantarias dos dois altos prédios, a curta paisagem do Ramalhete, um pedaço de Tejo e monte, tomava naquele fim de tarde um tom mais pensativo e triste: na tira de rio um paquete fechado, preparado para a vaga, ia descendo, desaparecendo logo, como já devorado pelo mar incerto; no alto da colina o moinho parara transido na larga friagem do ar; e nas janelas das casas, à beira da água, um raio de sol morria, lentamente sumido, esvaído na primeira cinza do crepúsculo, como um resto de esperança numa face que se anuvia.” […]

Eça de Queirós - Os Maias


Este excerto
A) situa-se no fim da obra (último capítulo), quando Carlos regressa da América, dez anos depois da morte do avô.
B) situa-se no fim da obra (último capítulo), quando Carlos regressa da Europa, dez anos depois da morte do avô.
C) situa-se no fim da obra (último capítulo), quando Carlos regressa da Europa, onze anos depois da morte do avô.

19 - O Realismo
A) baseia-se numa doutrina filosófica (já formulada na Idade Média) que procura representar o mundo exterior de uma forma fidedigna, sem interferência de reflexões intelectuais nem preconceitos, e voltada para a análise das condições políticas, económicas e sociais.
B) procura ver a realidade de forma objectiva e surge como reacção ao idealismo clássico, ou melhor, como afirma Gaëtan Picon, «sucede ao Classicismo como a análise à síntese, a exploração minuciosa à intuição global».
C) é um movimento artístico e cultural que surge no século XVIII, durante o neoclassicismo, e dura até meados do século XIX. Desde cedo se revela como um novo modo de vida e maneira de sentir e de pensar.

20 - O Naturalismo
A) apresenta-se estimulado pela incessante busca do absoluto e do belo, pela escuta e vivência em contacto com as «vozes da Natureza» selvagem e grandiosa, pela concepção da «paixão sagrada» e sem limites, pela idealização do povo sublime em revolta contra os poderosos e opressores. O Naturalismo cria assim uma concepção idealista da vida e da estética, numa atitude de constante desprezo e rebeldia face às normas estabelecidas.
B) aparece como reacção do espírito nacional à tentativa de hegemonia do poder napoleónico. Alemanha, Inglaterra, Itália, Espanha e Portugal despertam para os seus valores nacionais e procuram a total liberdade: política, religiosa, cultural e literária.
C) é um concepção filosófica que considera a Natureza como única realidade existente, recusando explicações que transcendam as ciências naturais.

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26/10/2008 free counters

Uma breve introdução


"Um escritor que não escreve as suas memórias tem o direito de exigir que os outros lhas não escrevam", disse Eça de Queiroz.

Gravura de Leal da Câmara Porém, muitos estudiosos queirozianos já o fizeram para benefício da literatura portuguesa. Também eu me propus fazê-lo. E escrevi a biografia de Eça para ser publicada em livro dirigido aos que começam, na escola, a tomar contacto com este escritor.
Influenciada e atraída por alguns jogos de computador, dei-lhe a forma de uma aventura cujo objectivo é a caça a um tesouro. Para levar a bom termo a sua missão, dois jovens mergulham, virtualmente, na época de José Maria Eça de Queiroz. Entretanto, surgiu a ideia e a oportunidade de divulgar esta obra através da Internet. A criatividade e a técnica do webmaster (webmaster@apenas-livros.com), a concepção e a orientação iconográfica da investigadora e editora da Apenas Livros, Fernanda Frazão (fernandafrazao@oninetspeed.pt), deram-lhe uma outra dimensão. Ao transformarem esta "autobiografia virtual" num site, permitiram não só torná-la acessível a um público mais vasto, como completá-la com mais informações e algumas novidades sobre a época e um escritor que teve «a epilepsia do talento».

Dedico esta "Autobiografia Virtual" ao meu professor e amigo
Francisco António Peres Coelho

Gabriela Morais

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26/10/2008 free counters

O senhor da terceira chave ou O retorno do «Senhor Diabo»

A gargalhada que os dois amigos ouviram ecoou no Terreiro do Paço. Vindo de uma rua da "Baixa" lisboeta, Zé Maria aproximava-se deles, envolto numa ampla e longa peliça "de príncipe russo... com alamares trespassados à Brandeburgo..."

- Até que enfim! - disse-lhes. - O conselheiro Acácio fê-los andar à deriva... É o que acontece quando nos deixamos guiar por esse tipo de gente.

- Então o que nos disse de Bristol foi mentira?

- O perigo dos Acácios é a demagogia. São uns "formidáveis empecilhos": cheios de certezas e de si próprios, mascaram-se de alguma verdade para convencer os ignorantes, ou os inocentes como vocês. De facto, fui cônsul em Bristol mas só parti para lá em 79. Estive aí oito anos e tal, o tempo que levei a criar e a publicar "Os Maias"! Houve tanta peripécia. Emendei, mudei, aumentei... o costume! E houve mal-entendidos e confusões com os editores! Em 88, finalmente, fui para Paris...

- "Os Maias"? Carlos da Maia, amigo do Ega... Sempre o acabaste! - exclamou Maria. Alencar

- Estavas tão mal a última vez que te vimos. Tememos que tivesses deixado a escrita...

- Sabem uma coisa? Um artista não pode viver cheio de regalos, de comer muito, de dormir muito; também é necessário arrepiar-se, ter tempestades de nervos, para criar. Oh! Isso é indispensável! E foi o que me aconteceu nessa altura...

- Se assim é, então... ainda bem! Coitado do Ega! Estava com medo que o deixasses na gaveta e não lhe desses hipótese de acabar "As Memórias de um Átomo" - disse Maria.

- Foi uma autobiografia, não foi? - perguntou Zé.

- Nunca chegou a fazê-la, sequer! - riu Eça. - Os átomos dele não irão a lado nenhum!

- Espero que não aconteça o mesmo contigo... - murmurou Maria.

- Caramba, está um calor! Esta peliça é pesada! - exclamou Zé Maria, de repente.

- Não! -gritaram Zé e Maria ao mesmo tempo. - Não vais despi-la aqui, no meio da rua!

- Apesar de estares "fantasma", é melhor não... - pediu Maria.

Zé Maria deu uma das suas habituais gargalhadas.

- Mas se viveste em Bristol até 88 - perguntou Zé - estás em Lisboa? Em que data...?

- Irás ter a explicação de toda esta confusão. Caramba, rimei! Gostaram? Ora bem, este foi um período em que viajei muito. Londres, França e, volta e meia... Portugal.

- Ah! Vieste mais vezes cá! Afligia-te tanto estar longe do ambiente que descrevias...

- Mas o facto de ter estado longe fez-me pensar: regressava para continuar o género de romances à moda da época, observador crítico, racional, estudando de fora a vida de certos tipos sociais portugueses? Ou refugiava-me na literatura fantástica e humorista? O fantástico continuava dentro de mim; o humor, tinha-o subalternizado. Então...

- O Homem fechado no laboratório com a Razão, um dia rebentou a porta e foi ao encontro da Imaginação - recordou Zé.

- Isso! E "Os Maias" ajudaram a redescobrir-me. Deram-me liberdade. São algo que conheço por dentro. Respiro, vivo o ambiente da classe social dos meus personagens!

- Percebe-se logo! Bastou-nos ver o Ega... - disse Maria.

- Pude, assim, dar largas ao sentido de humor e à imaginação. Eu era um deles! Tanto podia ser o Ega como o Carlos da Maia... E aí meti tudo o que tinha no meu saco: a observação do real e a fantasia; o retrato cruel da fealdade e a poesia, a emoção, o culto da beleza. Veio ao de cima a minha verdadeira natureza. Tinha feito por a ignorar, influenciado pelas correntes científicas e positivistas da época... Mas também elas mudaram. Quanto mais progredia a Física ou a Matemática, mais as verdades se tornavam provisórias e as certezas ruíam. O homem continuava a não ser feliz! O desenvolvimento técnico contribuía para aumentar as diferenças, a injustiça social. Era necessário procurar outras respostas... E lá voltou a minha busca do transcendente e do absoluto... Agora, com a experiência da vida...

- Já percebi: o imaginário, o fantástico e o maravilhoso passaram a servir-te para realçar o que querias dizer sobre a realidade que vivias e observavas - concluiu Maria.

- Como em "O Mandarim" e depois os Contos! - juntou Zé. - Não perdeste nada, transformaste-te, disseste-nos uma vez. Espectacular! Fizeste uma espécie de círculo!

- Ou uma volta em espiral...

- A minha imaginação deixou de ser caótica, abstracta, inspirada nas minhas obsessões e em livros de outros. 1880 foi a última data que viram no calendário? Nesse ano fiz "O Mandarim". De uma assentada! Uns dias que estive em França, de volta para Bristol.

- Boa! Estavas mesmo necessitado de voltar ao fantástico! - riu-se Zé. - Tiraste a tampa!

- Então o diálogo do Prólogo de "O Mandarim", entre os dois amigos, reflecte o caminho que tu próprio fizeste, como escritor! - observou Maria.

- Isso mesmo! - e Zé Maria, em tom teatral, reproduziu o diálogo:- "1ºAMIGO -..."Por estes calores do Estio...Repousemos do áspero estudo da Realidade humana... Partamos para os campos do Sonho, vaguear por essas colinas onde se ergue a torre abandonada do Sobrenatural e musgos verdes recobrem as ruínas do Idealismo... Façamos fantasia!..." 2ºAMIGO: - Mas sobriamente, camarada, parcamente!... Misturando-lhe sempre uma moralidade discreta..." - depois Eça mudou o tom e disse: - Tinha prometido ao Diário de Portugal um romance em folhetim. Como "Os Maias" se foram estendendo, estendendo... Ofereci-lhe "O Mandarim"! E, nesse ano de 80, comecei outro, com estilo de realismo fantástico: "A Relíquia"! Teve as revisões da praxe... Só veio a ser publicado em 87, na Gazeta de Notícias, no Brasil.

- E "Os Contos"? - perguntou Maria. - Quando os...?

- Vamos ao último período da minha vida. Encontrarão as respostas todas. E vão gostar de saber... - o resto da frase deixou de se entender.

Os jovens foram arrastados para mais um salto. Depois ouviram: - Para criar cenas de "Os Maias", visitei uma imaginária quinta de Santa Olávia...

- Santo Ovídio! - exclamaram Maria e Zé. - Os Rezende!

O portão da quinta estava aberto. Entraram. No jardim, Zé Maria, com perto de quarenta anos, O grupo de Lequeconversava com Manuel de Rezende e outros membros da família. Hesitantes, ficaram a observá-lo, sem saber se deviam ir ao seu encontro. Este olhou na direcção deles, mudou de posição na roda dos amigos, pôs as mãos atrás das costas e agitou os dedos brancos e finos, indicando-lhes a casa. Eles entraram. Atravessaram os corredores já conhecidos e viram a porta aberta de um quarto onde nunca tinham ido.
Então, ouviram passos; de um pulo, correram a esconder-se debaixo da cama. Uma jovem, elegante e bonita, com vinte e poucos anos, entrou, dirigiu-se para a mesa de cabeceira e nela guardou qualquer coisa. Pouco depois, saiu. Os dois saíram também do seu esconderijo e Maria foi ver o que tinha sido guardado numa gaveta:

- Um diário!

- Um leque! - exclamou Zé, ao vê-lo, de cetim dourado, poisado junto do diário. - Tem cinco cães desenhados! Os Autores, diz acima do desenho. Do lado oposto... - e leu:

Os latidos

I Quem muito ladra, pouco aprende. Antero de Quental
II Escritor que ladra não morde. Oliveira Martins
III Dentada de crítico cura-se com pêlo do mesmo crítico. Ramalho Ortigão
IV Cão lírico ladra à lua; cão filósofo aboca o melhor osso. Eça de Queiroz
V Cão de letras - cachorro! Guerra Junqueiro

Envoi
São cinco cães, sentinelas
De bronze e papel almaço;
De bronze para as canelas, De papel para o regaço.
(assinada)A MATILHA


- Isso é... excelentíssimo! Mas o que significará este leque?

- Vou ler o diário, Zé. Cá está: "Granja, Outubro de 1884: recebi de presente do Zé Maria, um leque. Em resultado de uma aposta perdida no salão de bilhar, tinha de o trazer assinado pelos amigos com quem ia almoçar ao Porto. Tal como no ano passado, ele voltou de férias, este Verão. Estivemos juntos na casa da praia, na Costa Nova. As suas conversas encantam-me. Falamos de religião, arte ou livros, de receitas de cozinha, das notícias do Jornal Ilustrado, da cultura da beterraba e... de cães, a condizer com o leque!" Assinado: "Emília de Rezende". A irmã do Luís e do Manuel? Será desta?

- Será desta o quê? Escuta, Maria! Passos no corredor. E música! Vamos espreitar!

Saíram do quarto. Guiados pela música, chegaram à sala de jantar. Estava deserta, bem como o oratório contíguo. Mas a música continuava. Era a "Marcha Nupcial". No altar, o livro, sobre o qual Zé tinha encontrado uma chave, estava agora aberto. E leram: "A 10 de Fevereiro de 1886, aqui se realizou o casamento de Emília de Rezende e de José Maria Eça de Queiroz. Testemunharam a mãe da noiva, a Condessa de Rezende, e o irmão, Manuel de Rezende e a mulher, Maria, Ramalho Ortigão..."

- Foi desta! - gritou Maria, toda contente. - Já tinha mais do que idade. Quarenta anos!

- Um maço de cartas! - viu Zé, ao folhear o livro. - Do Zé Maria, em Bristol, e dela, antes de casarem. Nesta, ele declara-se e Emília aceita. Todo formal! Extraordinário!

- Mas a certa altura, parece um rapazinho apaixonado! Um romântico! Bem dizia o João Penha. Afinal, foi sempre um incurável romântico. Mas sem ser lamecha.

- Então, gostaram? Eu também! - ouviram. Era Zé Maria - Finalmente! A minha mãe e a minha irmã Aurora vieram assistir. O meu pai não, porque estava doente. No dia do casamento, partimos para Paris onde passámos umas semanas. Encontrei lá dois amigos meus, o Conde Ficalho e Bernardo Pindela, a quem convidei para nos visitarem em Bristol, onde podiam comer o bom bacalhau de cebolada à portuguesa. Eles foram os nossos primeiros convidados. E logo vieram mais. Eram animadas, essas visitas! Em Bristol e depois em Paris. Já vão ver e participar numa dessas reuniões... Estou a preparar umas coisas que eu cá sei...

- Engraçado! O mesmo nos disse o Dr. Coelho a propósito desta aventura! - disse Zé.

- E foi uma óptima ideia! A tua também é? Tem a ver com a chave que nos falta? - perguntou Maria. - Afinal, ainda não temos o trabalho feito!

- Calma! Para já, Maria, tens uma surpresa! Aqui, em Santo Ovídio. Venham!

Levados por Zé Maria, chegaram à porta de um quarto.

- Esperem aí. Há uma pessoa que quero que vejam.

Pouco depois, Zé Maria saía do quarto. Nos braços trazia uma pequena trouxa que exibiu, orgulhoso e comovido:

- Maria e Zé apresento-vos a Maria! Já não sei se lhe pus este nome por ti ou por mim. - disse à jovem, que via uma bebé ao colo de um pai felicíssimo. - Nasceu em 16 de Janeiro de 1887. Agora, Zé, vais ser tu o surpreendido. Vamos para Londres! A Emilinha não se dava bem em Bristol e alugámos lá, uma casa, em Dezembro.

Rápido como sempre, os dois amigos viram-se em Inglaterra. Era 26 de Fevereiro de 88 e, à porta de um quarto, a cena anterior repetia-se. Só que desta vez, estava um bebé nos braços do pai todo contente:

- Chamei-lhe José. Por ti e por mim! - disse a Zé. - E como vocês os dois e eu próprio, também Maria. É mais um Zé Maria! Foi um ano bom para mim. Além de rodeado de Zés e Marias, consegui realizar o meu sonho: ser nomeado cônsul em Paris! Tomei posse em Agosto, depois de uma cena com a mulher do anterior cônsul - e Eça, como não podia deixar de ser, teatralizou a recepção feita pela "medonha criatura". No papel dele próprio, de chapéu na mão, de boca aberta, ora de pasmo, ora de pânico, avançava ou simulava a fuga; no papel do outro personagem, actuava como um monstro, ladrando, berrando, espumando, ganindo e dando murros na mesa: - "Só eu sou cônsul, consulesa! Só eu tenho as chaves do consulado" - gritava esganiçado. - "Não as dou a ninguém!" No fim de uma pausa representando o "monstro" esfalfado de tanto esforço, retomou o papel dele, deu enormes pulos como se fugisse por uma porta e galgasse escadas até à rua. Eça e a Viscondessa Consuleza

Na rua, também se viram Maria e Zé - Rue de Crévaux, nº 5.

- Paris! - exclamou Eça para os dois amigos. -Então, não era jeitosa esta viscondessa consulesa? Enfim... Aqui, em Paris, realizei um velho sonho; embora durasse pouco, de 89 a 92, tive um jornal, ou melhor, a Revista de Portugal.

- Onde publicaste a minha "Correspondência" - ouviram. Era Carlos Fradique Mendes que chegava. - Eça e eu voltámos a ver-nos, como lhes disse no Egipto. Reapareci na Revista de Portugal. Uma bela obra original, cheia de humor e elegância.

- Estás diferente - notou Zé.

- Amadureci! - riu-se Fradique. - Como o Zé Maria. O tal círculo ou volta em espiral que ele fez... Adquiri novas características.

- O mundo também! - disse Eça. - Foi neste ano que, pela primeira vez, fui a um jantar com o grupo a que Oliveira Martins pôs o nome de "Vida Nova". Queria a regeneração do país. E do mundo, se possível! Mas passámos a chamar-nos "Vencidos da Vida". Vencidos da Vida

- Vencidos...?! Porquê? - perguntou Maria.- Não eram afinal vencedores?

- Para efeitos públicos, talvez. Mas o conceito de vencido, para nós, dependia, não da realidade aparente a que chegara cada um, mas do nosso próprio ideal íntimo. Éramos onze. O Ramalho, o Ficalho, o Pindela, o Guerra Junqueiro, eu sei lá! Lembro-me de um jantar em que cantámos em coro a "Rosa Tirana"!

Como era de prever, começou a cantar: - "Ó Rosa Tirana! Quem te deu a tirania? Trolaró, laró, laró!"- depois, pôs-se sério e disse: - No final desse ano de 89, morreu D. Luís. E em Janeiro de 90, a Inglaterra enviou um ultimato a D. Carlos...

- O Mapa Cor-de-Rosa - lembrou Maria.-A Inglaterra quis possuir a África, do Cairo ao Cabo, do Norte ao Sul, e expulsou Portugal da zona entre Moçambique e Angola.

- Ah! Pois! - exclamou Zé. - Foi no teu tempo. Aconteceu o que nos disseste no Egipto: a partilha do mundo pelos países ocidentais mais poderosos.

Arco do Triunfo, Paris- Ora vês!? Tinha ou não tinha razão de ser o nome de "vencidos"? Com os nossos idealismos de liberdade e igualdade, da ciência ao serviço de todos... Caramba! Uma choldra! No Porto até se tentou uma revolução para implantar a República, em Janeiro de 91. Tive momentos de profundo pessimismo. Acreditei que Portugal tinha acabado! Mas o mal não era só português. Era de toda a civilização gananciosa do Ocidente. Nos últimos anos da minha vida olhei de modo diferente para tudo. E França já não era deslumbrante. Paris tornou-se grosseira, mais fabril que intelectual. Deixou de ser luminosa, para se tornar negra, com este ruído e cheiro terrível!

- Automóveis!... - exclamaram Zé e Maria que tiveram de se esquivar a uma "Dona Elvira" que avançava à velocidade de 20 Km/hora.

- Por isso os meus livros começaram a ser diferentes...

- "Os Contos"! - disse Zé.

- Sim, "Os Contos", as lendas de Santos, "A Ilustre Casa de Ramires"... E "A Cidade e as Serras" onde passei a ver o meu país de modo diferente; aprendi a conhecê-lo nas frequentes férias ou visitas que fazia para tratar das propriedades da família, do Alentejo ao Minho. Uma coisa era Portugal, outra eram os políticos congregados à volta de Lisboa... Daqui de longe, também o via melhor. Os podres não eram só nossos. E percorria avidamente os alfarrabistas, no cais do Sena, vasculhando livros antigos portugueses para os estudar. Lá descobria um Fernão Lopes, arrematava um Damião de Góis ou um António Vieira... Encontrei um dia, aí, Alberto de Oliveira...

- O que contou a história do teu banho, em Cádis! Tormes

- Pois foi a ele e a António Nobre, grande poeta português, a quem confessei a minha enorme ignorância sobre os mestres da nossa língua e história. "Meus amigos", disse-lhes, "a gente em Portugal não estuda nada na idade de estudar, não sabe nada, eis porque cheguei à velhice quase analfabeto. Ando a formar-me... bem fora de tempo..."

- Ah! Por isso te zangaste comigo, em Coimbra, quando falei na escola - disse Zé.

- A propósito, não deixem de ler os livros de História de Oliveira Martins. São belos... embora também partilhasse comigo do pessimismo sobre a História e a cultura do nosso tempo. Ainda tentei lançar com ele, em Portugal, uma biblioteca escolar. Mas os obstáculos foram tantos! Contudo, eu fui compensado na minha vida, entretanto com...

A conversa foi interrompida por um choro de bebé. Admirados, Zé e Maria olharam para todos os lados. Eça deu uma das suas gargalhadas:

- Estão espantados? Também eu! Fui apanhado de surpresa com o nascimento de mais um filho, um pouco antes do tempo esperado. Venham vê-lo! Chama-se António. António Nobre

Era 28 de Dezembro de 1889 e a cena do pai feliz voltava a repetir-se.

Mas o calendário trazido de Neuilly dava outro salto - 16 de Abril de 1891 - o choro ouviu-se de novo... a cena foi a mesma. Chamava-se Alberto.

- Tiveste quatro filhos! - exclamou Maria.

- Foi uma época muito atarefada! Entre o trabalho, os amigos, a família... - riu-se ele.

- Uma grande família! - sublinhou Zé. - Mas a tua vida foi sempre muita cheia!

- Felizmente! E em casa, não só aumentava a família como eram constantes os hóspedes: Benedita, irmã de Emília, e de quem gostava muito, Eduardo Prado, com quem queria que ela casasse e não consegui, Carlos Mayer, Carlos Valbom, Bernardo Pindela... Quando fomos morar para Neuilly, em 91, fazíamos sessões de pintura. Aos Domingos, também eu era pintor! Mas havia outras sessões... Lembram-se de vos ter dito andar a preparar uma coisa para vocês? Então, entrem! Não conhecem esta casa...

Estavam em Neuilly, Rue Charles Laffite, junto de uma moradia com jardim. Eça apontou um pavilhão coberto de trepadeiras: - Eu trabalhava ali, longe do bulício das crianças. Vão entrando em casa. Lá me reencontrarão, com os meus 45 anos. Mas cuidado, esperem pela altura certa de poderem ser vistos pelos outros - e desapareceu.
Cabaia Maria e Zé cumpriram à risca as ordens dadas. A casa, decorada com gosto e elegância, era grande mas, vindo de uma das salas, o som de piano e de vozes abafadas orientou-os. Encaminharam-se para lá. Espreitaram e, entre os convivas, reconheceram Emília, Zé Ortigão e Batalha Reis. Identificaram um outro que tinham visto nos tempos de Coimbra, Carlos Mayer. Ao piano, estava uma jovem que calcularam ser Benedita. Zé Maria, para divertimento geral, deixava-se fotografar em várias posições, vestido com uma sumptuosa "cabaia" chinesa de seda negra, bordada a ouro, enquanto dizia:

- Oh, Bernardo, vês-me agora vestido com o teu presente esplêndido! Recorda o que te disse na carta quando o recebi: "...tenho medo, amigo, de não ser competente para dignamente usar esta nobre vestimenta de Mandarim erudito! Onde tenho eu as qualidades precisas para me poder encafuar com coerência dentro destas sedas literárias? Onde tenho eu o escrúpulo gramatical, a dogmática pureza de forma, a sólida gravidade dos conceitos, o religioso respeito da tradição, a serena e amável moral, o optimismo clássico de um bom letrado chinês, membro fecundo da Academia Imperial? Onde tenho eu, sobretudo, a pança, para encher estas pregas duplas e mandarinais? ...O conselho que me daria qualquer Mandarim será sempre o mais sábio e prudente: respeita a gramática e ganha barriga!" - Parou, então, a brincadeira e disse em tom cavernoso: - Meus amigos, está na hora de uma das nossas sessões especiais.

Mesa dos Espíritos - Isso mesmo! Vamos à sessão de espiritismo - concordaram todos.

- Sentemo-nos pois e concentremo-nos para evocar os espíritos! - e Zé Maria declamou: - Interroguemo-los sobre o destino de Portugal. Existirá daqui a um século? Resistirá, como o fez depois de 1580, sob a mão rija dos espanhóis? Cito o que escrevi uma vez: "Também então havia fome e descrença, todavia ainda cá estamos, depois de três séculos, com a nossa constituiçãozinha, o nosso reizinho... Cá estamos, na mesma choldra sim, mas numa choldra que é portuguesa, só nossa, toda nossa!" Aproximai-vos, ó espíritos do futuro! Provai-nos que Portugal não acabou! Firmai, com esta pena de pato, o vosso nome e demonstrai que existis como portugueses de boa cepa!

Maria e Zé, compreendendo ser aquela a sua deixa, entraram. Dirigiram-se a Zé Maria, que lhes deu uma folha em branco, uma pena de pato e um tinteiro:

- Utilizai os honestos e preciosos meios de trabalho que trouxe do meu pavilhão expressamente para este momento solene. Assinai aqui. Toma, meu amigo!

Zé agarrou no papel e, no local indicado por Eça, assinou, seguido de Maria:


- Portugal viverá! Estes nomes são bem portugueses! - disse Eça, guardando o papel.

Nesse instante, todas as luzes da sala se apagaram. Zé e Maria pensaram ser mais uma brincadeira. Mas os minutos passavam sem que nada acontecesse.

- Zé Maria! - chamaram, por fim. - Onde estás? Zé Maria!...

Não houve resposta. Pouco a pouco, uma claridade difusa foi aparecendo: o lugar onde estavam era "nebuloso e vago, espécie de fronteira entre o céu e a terra, sem contornos definidos. A única referência concreta era aquela campainha, dourada e reluzente, poisada sobre um livro de capa vermelho escuro..."
Foi então que uma voz insinuante e metálica lhes disse no silêncio:

- Vamos, meus amigos, sejam fortes, estendam a mão para a campainha, se querem a 3ª chave!...- na penumbra viram um indivíduo corpulento, todo vestido de negro, rosto lívido, de linhas fortes e duras. Os olhos, fixos neles, assemelhavam-se a dois clarões: Desenho de M. Macedo

- Vamos, sejam fortes! Para terem a última chave basta que, ao contrário do que fez o Teodoro para matar o Mandarim, impeçam a campainha de tocar. Tirem-lhe o badalo! Se ela não mais tocar, Eça de Queiroz soltará apenas um suspiro. Será então um cadáver e eu vos darei a chave! O Zé Maria aliás, não vo-la dará pois nunca fez tenção de deixar abrir o cofre da sua vida. Pregou-vos uma partida! Se quiserem abri-lo...

- Mentes! - gritou Maria. - És o diabo a tentar-nos!

- Senhor Diabo, se fazes favor! Como ele me chamou, nas Prosas Bárbaras. Depois quis esquecer-se de mim. Mas não conseguiu, claro! A verdade, porém, é que estou a fazer-vos um jeito e a ele também. Coitado...Os últimos anos da sua vida são tão maus! Desfaz-se o sonho de liberdade, paz e justiça para todos. Desfaz-se o sonho da França, símbolo do progresso: revela-se-lhe Nação videira, formigueira, egoísta, seca, cúpida... cruel. Desfaz-se o sonho de publicar uma revista cultural de qualidade... Também os amigos se desfazem. Além de Antero, morre Oliveira Martins em 94; em 95, outro, em 97, mais outro... E Benedita, que casou como ele tanto queria, enviuva logo depois. Sofre pulhices graves de um cunhado por causa da partilha dos bens dos Rezende. Desfaz-se Santo Ovídio. Vejam!

A imagem da quinta passou diante deles, deserta, semi-destruida. Cá fora, começava a demolição. Lá dentro, uma só sala estava mobilada, com um velho fogão e uma cama, onde Manuel e Maria Rezende viviam os últimos dias do casarão. Zé Maria despedia-se deles, triste, alquebrado, macilento...
E a voz metálica continuava, persuasiva: - Coitado! Sofre, de novo, problemas financeiros, agravados pelas mudanças sucessivas de casa e pela necessidade de passar temporadas em locais saudáveis. Os filhos adoecem gravemente e ele também! Lembram-se das fartas comezainas? Por isso ou por tuberculose, frequente na família e de que sempre teve medo, a saúde torna-se-lhe cada vez mais frágil. Febres, insónias, incómodos de estômago... Apodrece por dentro. Já nem escreve! Nem o ar da Suíça, onde está agora, o curará. Condoam-se! A morte é inevitável e antecipá-la torna-lhe mais breve o sofrimento. Para ele, é uma benção, para vocês, é a chave a recompensa!
Imóveis, arrepiados, os dois amigos cravaram os olhos ardentes na imagem dele moribundo, sofredor... E a campainha continuava poisada pacatamente sobre o livro onde, gravado a letras de ouro, se lia: JOSÉ MARIA EÇA DE QUEIROZ.

- Dar-vos-ei a 3ª chave e mais ainda: sem badalo, a campainha que vos obriga a ir às aulas deixará de tocar! Ficarão para sempre livres da escola e dos trabalhos para casa!

- Com essa é que te desmascaraste! - disse Zé, furioso. - Foi o toque da campainha que nos deu a conhecer o Dr. Coelho e Zé Maria. Desaparece! Podes levar a chave contigo!

- Faremos nós a história dele. Eça de Queiroz não morrerá por nossa causa. Zé, regressemos ao gabinete do professor Coelho para fazermos o trabalho!

Quando iam a tirar o equipamento, os olhos do diabo apagaram-se e o escuro voltou. E, ao som da gargalhada bem conhecida, a luz regressou.
Estavam no quarto de Neuilly, Avenue du Roule, a 16 de Agosto de 1900. Zé Maria jazia deitado na cama. No rosto, de olhos fechados, a boca sorria. Nas mãos postas sobre o peito estava uma chave, dourada e reluzente, como a campainha:

- Até à vista. O meu cofre não ficará por abrir, como o dos irmãos de "O Tesouro"... Lembram-se? A moral das minhas histórias vem sempre no fim...

Então, a imagem do cofre de ferro a abrir-se sobrepôs-se à de Eça. Antes, porém, de conseguirem ver o seu conteúdo, ela começou a afastar-se, a afastar-se...
Sentiram alguém a tirar-lhes o capacete, os óculos e as luvas. Era o Dr. Coelho.

- Oh! E a autobiografia? Estava dentro do cofre? - perguntou Zé. - Não consegui ver!

- Acho que o vi vazio -disse Maria. - Teremos de ser nós a contar a vida dele...

- Num cofre como o vosso, os filhos encontraram muitos inéditos; quanto à autobiografia... Mas a história de José Maria Eça de Queiroz está aqui, impressa neste livrinho que outros jovens poderão ler. Querem ver o que se segue à palavra:


FIM ?










MEMÓRIAS DE UM (UNS) ÁTOMO(S) ?
uma biografia ou uma autobiografia?


- Escutem! As gargalhadas do José Maria ainda se ouvem!... "Vêm da alma, abalam todas as vidraças de uma casa"...

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26/10/2008 free counters

Amaro, Acácio, Ega e Comp.ª - Quem guarda a terceira chave

Um barco do Nilo passava com os seus remadores e os dois jovens sentiram-se transportados rio abaixo. Atravessaram o estreito de Gibraltar e... deram por eles, em plena Lisboa, na Rua de S. Pedro de Alcântara.
Mal refeitos do susto e da brusquidão dos acontecimentos, foram surpreendidos de novo pela figura de um jovem estranhamente ajanotado que se aproximava. Vestia uma longa sobrecasaca, com a botoeira ornada por um enorme e colorido ramo de flores. Um plastrão imenso era coroado por um colarinho alto. Nos punhos, salientavam-se uns imponentes botões com correntes de ouro e, nas mãos, umas luvas cor de palha. Nas pernas, calças claras, arregaçadas alto, mostravam as meias de seda preta com grandes pintas amarelas; calçava sapatos pretos, envernizados e pontiagudos. Para culminar tudo isto, tinha, no olho direito, um monóculo que o andar fazia cair constantemente e, na cabeça, um chapéu alto de pêlo de seda brilhante.

- Zé Maria! - exclamaram. Porém, este, sem lhes dar atenção, entrou no prédio nº 111.

- Além de nos ter deixado, indecentemente, no deserto, vem nesta figura! - disse Zé.

- Não nos ligou nenhuma! Entramos também ou...?

Pormenor de caricatura de Bordalo Pinheiro- Espera, deixou cair uma coisa no chão - Zé correu a apanhar uma folha de um jornal: - A Revolução de Setembro, 13 de Abril, 1870. Traz uma história dele: "A Morte de Jesus". Claro, veio de Jerusalém. Mas... A data está a apagar-se!!! Agora é 1871!

- Zé! - gritou Maria - Vem aí alguém! A sombra, outra vez?... Não é Fradique. É um padre e bem nítido! Pelo sim pelo não, escondamos-nos.

- Meninos, perderam-se? - interrogou-os o sacerdote, antes de terem tido tempo de se esconder.- Estão com ar tão aflito!... O que procuram?

- Um homem. José Maria Eça de Queiroz. Conhece-o? - atreveu-se Zé a perguntar.

- Se conheço!!! E é meu dever avisá-los, como cristão, como padre, que ele é um desavergonhado, um ateu, um herege, um... um...

- Por acaso não tem aí uma chave para nos dar? - atalhou Maria que, ao vê-lo tão furioso, tentou distraí-lo com outra pergunta.

- Não tenho! Mesmo que a tivesse, não vo-la daria. Tão moços e a lidar com gente dessa! Devia ser excomungado, banido! O que ele está a tentar fazer de mim. Eu, o padre Amaro, pároco de Leiria! Santo Deus!... Como esse senhor fala de mim! E nem dá uma oportunidade de me redimir. Antes de dizer tudo o que tem a dizer, e de se decidir definitivamente, podia consultar-me. Mesmo que ele emende ou venha a emendar ou a acrescentar trezentas coisas, fico sempre mal visto. Eu e os outros como eu. Odeia-nos! E à santa religião... Um ateu, é o que ele é! - E, enquanto se afastava agastadíssimo, resmungava frases ininteligíveis.

- Um padre de Leiria? Ora esta, Zé! Porquê Leiria? Conhece o Zé Maria e diz coisas tão estranhas sobre ele. O que fala ou emenda ou ... sei lá o quê!

- Vamos pensar. O que temos de pistas? O jornal que mudou de 1870 para 1871. Deixa ver. Cá está! - Zé entusiasmou-se: - Casino Lisbonense! Lembras-te do Fradique dizer que Eça regressara ao Cenáculo e às "conferências do casino"? Segundo este jornal, o Antero propôs criar "as conferências democráticas... Uma tribuna para a transformação social, moral e política dos povos" etc, etc, "ligar Portugal ao movimento moderno... aos factos que nos rodeiam na Europa... Agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência". Casino Lisbonense! Vamos lá!

- E Leiria? Mas, parece que tens razão, Zé. Repara: mudou o cenário, enquanto conversávamos. Estamos no Chiado e ali fica o Casino Lisbonense! Anuncia uma conferência, "O Realismo como nova expressão da Arte", feita por Eça de Queiroz.

Quando se predispunham a entrar no Casino, alguém os deteve. Deram um pulo, mas logo verificaram ser Zé Maria:

- Deixem o tema da conferência para estudar mais tarde... Meninos, estão a sair-se muito bem. São merecedores...

- Pois olha que tu não! Pregaste-nos uma partida - censurou Maria.Oliveira Martins, caricatura de Bordalo Pinheiro

- Ainda por cima, vimos-te naquela figura, de meias às pintas, e tu nem nos ligaste! Onde foste? O que queria dizer aquele padre que encontrámos? Onde vais...?

- Pschiu! Eu avisei de que isto seria um desafio. E até agora, estou muito contente por ter confiado em vocês. Mas vamos por partes: depois da minha viagem ao Oriente, também me apeteceu experimentar ser um janota, como aqueles senhores que encheram os hotéis de luxo das mil e uma noites árabes... Sempre gostei muito de vestir bem. E excentricidades eram comigo!.... - disse, soltando a sua alegre gargalhada - Quando regressei, em 70, recomecei a frequentar a nova casa de Batalha Reis, a S. Pedro de Alcântara, onde me viram nessa figura; ele e Antero passaram a reunir aí o Cenáculo, enriquecido, entretanto, com novos elementos: o nosso historiador e meu grande amigo para o resto da vida, Oliveira Martins, por exemplo. E sabem quem mais? O Zé Ramalho Ortigão. E juntando o crítico com espírito de artista que este era, com o artista de espírito crítico que eu fui, escrevemos juntos crónicas sobre a vida portuguesa: As Farpas, "jornal de luta, mordente, revolucionário, a pilhéria, a ironia, o ferro em brasa, o chicote", como eu descrevi, numa carta, ao meu amigo João Penha.

- Outro janota, como tu dizes - riu-se Maria.Desenho de M. Macedo

- De arromba! Mas, continuando: Ramalho e eu imaginámos outra obra para abalar a apatia chinesa dos lisboetas: "O Mistério da Estrada de Sintra". Íamos historiando um misterioso rapto, no Diário de Notícias, como se fosse um facto verdadeiro. E escrevemos com estilo de livro policial. Sublime! Até desmascararmos a brincadeira...

- E Leiria? E o padre?

- Ah! Leiria... Pois bem: resolvi seguir a carreira diplomática. Aí têm o que acabei por fazer até ao dia em que me viram pela primeira vez, ou seja, o último da minha vida terrena! Como advogado, fui uma miséria, já sabem... Ora para ser diplomata, convinha ter um lugar na administração e fui nomeado, em Julho de 70, administrador do concelho de Leiria. A páginas tantas, no exacto sentido do termo, dei por mim a fazer "O Mistério da Estrada de Sintra", "As Farpas" e... não só! Absorvendo os costumes risonhos e risíveis e os tipos curiosos das gentes de uma cidade da província, comecei a redigir "O Crime do Padre Amaro".

- Foi então o Pe. Amaro que nós encontrámos. Uma das concretizações da nossa, da tua sombra de Coimbra - compreendeu Maria. - Um personagem teu.Ilustração de Padre Amaro

- Muito zangado! Queixou-se que escrevias, rescrevias sempre para dizer mal dele e aconselhou a não nos darmos contigo - disse Zé.- Afirma que o odeias e à religião.

- Quanto à reescrita, é certo. Levei anos a refazer o romance. Foi publicado na Revista Ocidental, de Oliveira Martins, em 75, contra a minha vontade, depois em livro, em 76, e, de novo, em 80. Sempre emendado e re-emendado. Até acrescentei personagens! À medida que evoluía, as minhas obras acompanhavam-me... Antero, que não gostou da primeira versão, numa carta que me enviou, concordou com as minhas emendas: "Não é realismo nem naturalismo, é a verdade, a natureza humana... aquela pobre gente não merece ódio, nem desprezo... é uma boa gente... vítimas da confusão moral do meio em que nasceram...sem entenderem mais... sem a menor transcendência... A Arte é sempre serena, tolerante, magnânima..." Não ataco a religião ou os padres, mas a hipocrisia; aquilo é apenas uma intriga de clérigos e de beatas tramada e murmurada à sombra de uma velha Sé de província portuguesa...

- O Amaro queixou-se de que não lhe deste oportunidade de se modificar - disse Maria.

- Claro! O objectivo neste tipo de romances é mostrar, até às últimas consequências, aonde nos pode levar uma sociedade ignorante e medrosa.

- Então ainda vamos para Leiria? E as conferências?- perguntou Zé.

- Quanto a Leiria, fartei-me! Uma terra melancólica, sem um livro, sem um dito, sem uma conversa, um paradoxo, uma teoria, um satanismo - cercado de regedores e devorado por candidatos a políticos... Por minha parte, só devorava jornais para ler as notícias da guerra franco-prussiana, o desastre e abdicação de Napoleão III... Marquês de Ávila e Bolama, caricatura de Bordalo Pinheiro Um palhaço, coitado! Em 71, a derrota francesa veio propiciar a instalação de um estado revolucionário em Paris, a Comuna. Os socialistas, apoiados nos operários, opuseram-se à Assembleia Nacional. Durou pouco mais de dois meses, de Março a Maio, mas foi uma época de euforia revolucionária... Eu voltei para Lisboa em Junho desse ano. Quanto à Conferências, calculem, foram proibidas! O ministro do Reino, chefe do governo, Marquês de Ávila e Bolama, alegou que atacávamos a religião e o Estado! Devia ter medo que a revolução cá chegasse...

- Então, a democracia?

- Pois, pois... Saltaram por cima da Carta Constitucional. Preferiam ver no Casino as mulheres despidas cantando cantigas obscenas e imundas, em vez do estudo, o pensamento, a crítica, a história, a literatura, considerados incompatíveis com a moral!

- Deram-te pano para mangas para " As Farpas" - observou Zé.

- O que se segue agora? A tua carreira diplomática? Os teus livros? - perguntou Maria.

- Já lá vamos! Entretanto, os meus amigos do Cenáculo enveredaram pela agitação política, revolucionária. Eu não. Durante esta fase, em que abandonei a arte pela arte e passei a empenhar-me na revolução cultural, dei prioridade à literatura com uma missão social e pedagógica; mas não era um revolucionário, como já vos disse, aliás. Por isso...

- Olha! - exclamaram os dois jovens - Santo Ovídio, no Porto! Voltaste para aqui?

- Por uns tempos, com Luís de Rezende...Pobre amigo! Estava a passar dificuldades e começou a meter-se na bebida... Deixou-se levar... Depois soube que tinha morrido, estava eu em Inglaterra, em 1875...

- Vamos para Inglaterra agora!? - perguntou Zé, vendo desaparecer a quinta de Santo Ovídio. - Estes saltos não acabam...

- Zé! Estamos em Lisboa, na Calçada dos Caetanos.

- Deixa-me ver o calendário. Olha, Maria, 1872! Mas... o Zé Maria?!?

- Desapareceu? Ah, não! Está ali. Vivo e novo outra vez. Quem está com ele? A Carta Constitucional, caricatura de Bordalo Pinheiro

- É melhor não nos mostrarmos - disse Zé, vendo-o com um estranho em animada conversa.

- João Burnay, meu amigo e vizinho, ora viva! - ouviram. Ramalho Ortigão saía de casa e dirigia-se aos dois conversadores - Vai dar ao Zé Maria mais um banho...?

- Um banho de vida prática - riram-se Maria e Zé recordados das palavras de Eça a Batalha Reis, tempos atrás. E continuaram a escutar Ramalho Ortigão:

- Sabe que ele disse, uma vez, que na terra da sua infância se plantavam saladas? E enfureceu o escritor Alexandre Herculano quando, numa novela, colocou Vila Real no Minho! Tanta leitura que fez, tanta aprendizagem que não fez na altura certa! Como poderia ser alguém se não se esforçasse a sério?

- É fácil cedermos à tentação de não nos esforçarmos... Tomo nota - reagiu Zé.

- Deixa-te de conversas e escuta-os! - sussurrou Maria. - Vê se percebes para onde devemos ir. Estamos sem pistas. O Zé Ramalho já deu a 1ª chave; ele e os irmãos Rezende. Só não percebo porquê os Rezende... O Luís vai morrer em 75, o Manuel...

- E a sombra que nos deu a 2ª chave, embora se tenha vindo a concretizar nos personagens dele, disse-nos um nome que não sabemos qual é - lembrou Zé.

- Pois é verdade, amigo João - ouviram. Era Ramalho quem falava ainda: - Zé Maria, para além de artista e escritor, está na vida diplomática. Colocado em Havana, tem feito um bom trabalho. Felizmente, não é outro inútil burocrata, politiqueiro, conselheiro...

- Como esse que aí vem! - exclamou Eça.

Maria e Zé voltaram-se para ver quem chegava. Quando, de novo, olharam para o local onde os três amigos conversavam, já lá não estava ninguém.

- O que eles disseram foi uma pista - afirmou Zé, sem se dar por vencido - Anda! - E avançou para o homem que subia a rua: - Bom-dia, senhor...

- Conselheiro, prezado amigo. Acácio de nome. O conselheiro AcácioNão me reconheceis? Bom, é natural, é natural. Com os trajes que envergais, não sereis meu patrício. E tão mancebo ainda!

- Patrício?! Mancebo?! - segredou Maria, perdida de riso.

À pompa e circunstância do tom, o conselheiro Acácio aliava o gesto estudado e esforçava-se por parecer imponente. "Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado num colarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até à calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabelos, que de uma orelha a outra lhe faziam colar por trás da nuca - e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho à calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, caído aos cantos da boca. Era muito pálido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo e as orelhas grandes muito despegadas do crânio".

- Senhor Conselheiro Acácio - disse Zé, acentuando as sílabas e a esforçar-se para não se rir - V. Exa. conhece o famoso artista José Maria Eça de Queiroz?

- Ora então não havia de ter o sublime privilégio de o conhecer. Toca divinamente!

- Toca?!? Homessa, como diria a minha avó! Ele é escritor! - exclamou Maria.

- Pois, com toda a evidência! - proferiu logo o conselheiro - Eu sei perfeitamente e vós sabeis que eu sei e eu sei que vós sabeis que eu sei... Quando digo toca, quero significar com isso que a finura do seu estilo é tão musical como um cântico laudatório às virtudes pátrias e ao grande civismo dos nossos patrícios. Ainda no outro dia, veio cumprimentar Sua Excelência, o Senhor Ministro e a mim...

- Viu-o? Onde? - perguntou Zé, farto de tanta conversa.

- Creio que Sua Excelência, o Senhor Cônsul, se encontra agora a prestar os seus serviços à Pátria, em Bristol, na velha Albion, a nossa mais ancestral aliada.

- Onde??? Essa velha magistral aliada mora onde?

- Ó Zé! Ele refere-se à Inglaterra. Bristol é uma cidade da Inglaterra.

- É a nossa pista! Zé Maria e Ramalho Ortigão falaram na carreira diplomática. E o Eça disse-nos que estava em Inglaterra quando morreu o amigo Luís. Temos de ir para lá...

- Espera, Zé. A morte do amigo foi em 1875. Ainda há pouco estávamos em 72... O senhor tem a certeza que ele está nesse sítio que nos disse? - perguntou Maria a Acácio. Anúncio a 'O Crime do Padre Amaro'

- Minha prezada amiga - exclamou o conselheiro, fungando um pouco de rapé - Eu nunca tenho dúvidas! E mais, afirmo que é a primeira vez que ele lá está pela segunda vez. Podeis estar certa disso, pois raramente me engano. Tenho até na minha posse dois bilhetes para ir ter com ele, à velha Álbion! Infelizmente os meus que fazeres impedem-me de sair agora desta bela cidade, a Lisboa de granito e mármore, como dizia o...

- Obrigada! - gritou Zé, tirando-lhe, rápido, os bilhetes exibidos como prova de tanta certeza. E os dois correram rua fora, ainda a ouvir os gritos do conselheiro Acácio:

- Polícia!!! Mandarei abrir um inquérito a este acto indigno! Seguirá os trâmites legais até às últimas consequências. A responsabilidade será apurada, doa a quem doer...

- Pois, pois - ria Maria, ainda a correr para se escapar ao conselheiro. - Tanto disparate! É com certeza um personagem de Eça. Imortal! Bem dizia o professor Coelho... No nosso tempo também há gente desta. Se eu escrevesse à Zé Maria...

- Um barco no Tejo! - gritou Zé, correndo à frente dela. - Vamos para Inglaterra...

- Tu acreditaste nele? Olha que não sei. Vê a data no... - Maria não acabou a frase: o amigo, depois de mostrar os bilhetes a um homem junto da escada de acesso ao paquete, subia resoluto para bordo. Tentou chamá-lo, mas ele nem a ouviu, tendo entrado no barco. E ela correu para alcançar a escada, já a ser retirada.

O navio iniciou viagem, depressa deixando Lisboa para trás. Maria foi à procura de Zé, evitando, aqui e além, esbarrar com um tripulante ou outro passageiro a bordo.

- Zé! - chamou Maria, baixinho, quando o encontrou a espreitar por uma vigia onde se via a ponte de comando. - Estás certo que vamos bem? O Ramalho falou em Havana...

- Mas o outro disse... - objectou Zé.

De súbito, os motores deixaram de se ouvir e o navio imobilizou-se.

- O que aconteceu? Parámos?! Estamos no alto mar!...

- Bem me queria parecer, Zé, que não era de fiar no conselheiro Acácio. E agora?

- Temos de entrar no posto de comando. Toca aquela sineta para ver se conseguimos distrair o homem que lá está dentro.

Maria obedeceu. Como Zé previra, o piloto saiu da cabina e eles esgueiraram-se lá para dentro. Trancaram a porta para inspeccionar a sala. A primeira coisa que viram foi um mapa marcando a rota para o porto hulheiro inglês, Newcastle-on-Tyne.

- Nada indica Bristol. Vê a data no calendário de Neuilly, Zé.

- 1878! O que se passa, Maria? Perdemos pelo menos seis anos da vida dele! Por isso o barco parou. Não é ainda altura de lá irmos. Como vamos voltar para trás?

- Olha, Zé, está ali uma chave! Mas não é igual às nossas...

- Há um cofre nesta parede. Experimenta abri-lo, Maria.

A chave entrou, ouviu-se um clique e o cofre abriu-se. Lá dentro, estava um papel escrito com a letra corredia de Eça: "Encontraram o conselheiro Acácio, está visto. Pois aprendam a não confiar na choldra! Que lhes fique de emenda. Como, porém, quero facilitar-lhes a vida, e merecem, em conluio com o vosso mestre, aqui lhes deixo uma coisa... Reconhecê-la-ão. É do vosso tempo, um avanço espectacular! No meu tempo, ainda a electricidade era quase uma promessa. O Porto, quando lá estive em 98, não me pareceu, no entanto, mais feliz ou mais alegre com a luz eléctrica. Bem queria que os avanços científicos servissem a todos e não aumentassem as diferenças. Mas avancem vocês e perdoem-me o anacronismo."

- Ana... quê?

- Anacronismo, Zé. Atribuir a uma época o que pertence a outra. O que será?

- Ali ao fundo! Uma cassete de vídeo, Maria!

Ao tirá-la, o cofre afastou-se da parede e mostrou uma TV e um leitor de vídeo.

- O que vão ver passou-se em 1872, em Cádis - ouviram, quando o vídeo começou a trabalhar. Era a voz do professor Coelho que acompanhava as imagens de uma praça e da fachada de um Hotel. - Alberto de Oliveira, também escritor e diplomata, soube desta história extraordinária, ainda antes de conhecer Eça pessoalmente. Zé Maria esteve aqui, a caminho de Havana, onde ia exercer o primeiro consulado. Agora vejam o que ele fez, quando soube não ter possibilidade de tomar banho no hotel.

O vulto esgrouviado do escritor aparecia, na recepção, de chinelos e roupão colorido, toalhas, sabonete e uma esponja enorme nas mãos. Sem mais cerimónias, saiu para a rua, atravessou a praça perante o pasmo das pessoas que por ali andavam e foi até à casa de banhos públicos situada do outro lado. Pouco depois, viram-no de regresso, na mesma figura, embora com o ar consolado de quem tomara um banho delicioso, sempre indiferente aos risos, aos ahs! e ohs! dos transeuntes.

- Que tal? Gostaram? - perguntou o professor. - Ora bem: Eça chegou a Cuba, colónia espanhola, em Dezembro de 1872. Logo se embrenhou nos problemas graves dos emigrantes chineses saídos de Macau, postos sob protecção do consulado de Portugal.

- Os desgraçados eram tratados como inferiores aos cães - ouviram dizer Zé Maria, ao mesmo tempo que as imagens, a par das paisagens luxuriantes da ilha, lhes mostravam uma multidão de miseráveis, corpos esqueléticos, rostos vincados pelo sofrimento. Explorados, mal alimentados, sovados pelos ricos e poderosos fazendeiros, dependiam de mil e um subterfúgios que lhes impedia a legalização para obter trabalho com um mínimo de condições. Barracões enormes, mais parecidos com os barracões dos campos de concentração, albergavam (aprisionavam?) milhares de chineses.

- Parecem escravos - disse Maria.

- Olha o Eça, Maria! Só escreve cartas e relatórios para o Governo português, para as autoridades locais ou para Madrid. E os livros? Terá deixado de os escrever? Basílio e Luísa

- Conseguem imaginar-me, meninos? - Era a voz dele: - Durante cinco meses não fiz outra coisa. Só papelada oficial e burocracia. Logrei aliviar o sofrimento de alguns, mas foram apenas migalhas no meio de tanta desgraça. Lutava contra os interesses de gente poderosa. Odiei Havana. Longe da arte e portanto da serenidade e do contentamento, confesso que vivia com saudades do Rossio! Por fim, quando se aproximou o tempo do calor tórrido e das chuvas tropicais que me faziam muito mal à saúde, obtive férias nos Estados Unidos e Canadá. Experiência maravilhosa! Tive encontros inesquecíveis.

- Ahn! Ahn! Aqui houve coisa! Será desta que ele casa, Zé? Já tem quase trinta anos...

Mas Eça não esclareceu Maria sobre isso e continuava:

- Tive um trabalhão em convencer os zelosos funcionários alfandegários de Nova York de que as minhas gravatas eram para uso pessoal. Caramba, não levava assim tantas!

- Pois não! - riram-se os dois, ao ver na mala uma grande profusão de gravatas de seda.

- E melhor do que tudo: escrevi um conto, o que já não fazia há muito tempo: "Singularidades de uma rapariga loira".

- Uma rapariga loira... Mmm! Houve romance...

- Pschiu, Maria, deixa ouvir!

- Tem um nome giro, como vocês diriam, hem? - prosseguia Zé Maria: - Foi publicado no Diário de Notícias. Regressei a Havana em Novembro. E sabem o que recomecei? "O Crime do Pe. Amaro". De volta a Portugal, em Junho de 74, continuei-o, enquanto escrevia temas bem diferentes, para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, sobre a emigração moderna. Entretanto pedi nova colocação. Fui então para Inglaterra.

- Bristol, finalmente! - exclamou Zé.

- A 6 de Janeiro de 75, cheguei ao foco do socialismo inglês. Era desagradável, o foco!

E contra o que esperava Zé, não era Bristol que aparecia no ecrã, mas Newcastle-on-Tyne, o porto de hulha que tinham visto no mapa ao entrarem na sala.

- Que horror! Ele tem razão - concordava Maria à medida que via a cidade descrita por Zé Maria, "de tijolo negro, meio afogada em lama, com espessa atmosfera de fumo penetrada de um frio húmido, habitada por 150.000 operários descontentes, mal pagos e azedados e por 50.000 patrões lúgubres e horrivelmente ricos".

- Olha, Maria, lá vai ele. Está mais velho! Aquela deve ser a casa onde vive. Numa cidade tão feia, até é agradável. Tem muita relva ao pé...

- Pôs-se a escrever. São cartas, muitas cartas! Algumas dirigem-se a Ramalho Ortigão. E queixa-se: "Há um ano que não converso". Já passou um ano, Zé? Olha a data! Não, passaram dois: esta carta é de 1877! Deve ser horrível, com o feitio dele... Adora as tertúlias e as conversas com os amigos. Bem diz que é "dilacerante"! O Primo Basílio, no prelo

- Olha o que escreve agora: "As minhas relações são pessoas perfeitamente idiotas que nunca leram um livro, que não suspeitam sequer que eu o faça e que pensam que o único produto da inteligência humana é o Times". Extraordinário!

- Lá está outra vez a aperfeiçoar o "Pe Amaro", Zé. E crónicas chamadas... Claro: "Cartas de Inglaterra", para um jornal do Porto, A Actualidade.

- Maria, está a descrever o Conselheiro Acácio. Igualzinho ao que conhecemos!

No ecrã, desenhava-se a figura de Acácio e uma página do Diário de Notícias, de Outubro de 77, reproduzia um excerto de uma obra intitulada "Um chá de família".

- Um novo romance, com o figurão que encontraram - disse Eça. - E mudei o nome do livro. Chamei-lhe "O Primo Basílio". É sobre a hipocrisia das famílias da pequena burguesia. Mas não estou contente com esta obra. É falsa, ridícula, afectada, disforme, piegas e papoilosa, isto é: tendo a propriedade da papoila - sonolificente.

- Que disparate! Não acredito.

Como resposta à observação de Maria, as imagens mostraram o livro recém-editado, em Fevereiro de 78, a esgotar rapidamente os três mil exemplares da primeira tiragem. Depois, apareceram páginas de jornais e revistas com esplêndidas críticas:

- Uma crítica de Teófilo Braga! Zé, é o escritor de Coimbra, do Teatro Académico.

- Segundo diz, "nas literaturas europeias não há romance que se lhe avantage". Boa!

A imagem do professor Coelho apareceu entretanto e esclareceu:

- Ele estava com medo, depois do insucesso da 1ª edição de "O Crime do Pe. Amaro".

- Claro! Saiu contra a vontade dele - objectou Maria. - E, na época, criticar os padres...

Zé Maria, de novo no écran, continuava com a sua escrita. Os títulos somavam-se: "A Tragédia da Rua das Flores", "O Conde Abranhos", "Alves & Compª", etc. Pouco a pouco, porém, o escritor transformava-se num homem muito cansado e triste.

- Estou sob a influência do desalento - disse-lhes, às tantas. - Tenho estado a preparar um conjunto de pequenas novelas a que chamei "Cenas da Vida Real" ou "Cenas Portuguesas". Mas... não sei... Um artista não pode trabalhar longe do meio em que está a sua matéria artística. Não posso pintar Portugal em Newcastle. Para escrever qualquer página, qualquer linha, tenho de fazer dois violentos esforços: desprender-me inteiramente da impressão que me dá a sociedade que me cerca e evocar, por um retesamento da reminiscência, a sociedade que está longe... Ainda por cima, estou sem dinheiro! Os meus rendimentos são inferiores às minhas dívidas. Já não me resta coragem para entender os desgostos dos meus personagens quando tenho de os observar através da espessura dos meus. Sinto o que devo fazer, mas não o sei fazer. Mereceria auxílio como cônsul e artista. Farto-me de o pedir para Lisboa e... nada! Anúncio a 'Cenas Portuguesas'

E, num desabafo de quem não pode conter por mais tempo o desespero, disse:

- Sinto-me só e desamparado. Não tenho família nem paixão, limito-me a comer e a fazer prosa. O meu cabelo embranquece... Estou com trinta e dois anos e tenho corrido tanto pelo descampado da sentimentalidade... Precisava de uma mulher que quando eu começasse a chorar pela lua, ma prometesse - até eu a esquecer...

Os dois viram-no meter numa gaveta, páginas e páginas de obras por acabar.

- Reparaste, Maria, uma das novelas tinha o nome "A Capital". Deve ser sobre Lisboa. De facto, está tão longe há tanto tempo. Não me digas que desistiu de escrever....

- E está tão sozinho e triste... Eu bem dizia que já tinha idade para se casar!

Nesse instante, a cassete parou.

- Não pode ser! - e como se ele o pudesse ouvir, Zé gritou: - Não te deixes ir abaixo!

- Temos de ir ter com ele! Como vamos conseguir, Zé?

Foi então que a porta da sala, apesar de trancada por eles, se abriu. E entrou uma "figura esgrouviada e seca, os pêlos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito... uma mecha frisada na testa".

- Como estão Vossas Altezas? - perguntou o recém-chegado, numa voz prazenteira.

- Zé Maria?! - interrogaram-se os dois, vendo alguém que parecia ser e não ser Eça.

- Pela vestimenta estranha que traz até pode ser - disse Zé, reparando nas luvas amarelo canário, uma gravata de cetim com uma ferradura de opalas, polainas de casimira, sapatos pontiagudos de verniz; o corpo estava envolto num casacão, uma "sumptuosa peliça de príncipe russo, agasalho de trenó e de neve, ampla, longa, com alamares trespassados à Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoço esganiçado e dos pulsos de tísico uma rica e fofa espessura de peles de marta".

- João da Ega, meus amigos, estudante de Direito em Coimbra, escritor de uma epopeia em prosa, " Memórias de um Átomo", ateu feroz, positivista, satanista e anti-burguês! O Ferrão. Sem dúvida uma caricatura de Eça de Queiroz, desenhada por Manuel de Macedo.

- Ah! João da Ega, o nome que ouvimos em Coimbra, Zé!

- Foi a primeira sombra que vimos. És parecido com ele - disse Zé ao recém-chegado.

- Eu diria que és uma mistura de Zé Maria e de João Penha - observou Maria.

- Ele inventou-te agora? Então não desistiu de escrever! - esperançou-se Zé.

- Encontrou a inspiração em si próprio e no amigo, louco como ele? Foi isso não foi?- Não se entusiasmem. Ele está numa crise!... Interrompeu uma série de obras. Com título e tudo. E não se decide: agora ou pensa em mim, ou em Artur Corvelo, também estudante de Coimbra, amigo de um tal Damião que o ajuda a estudar Proudhon...

- Como ele mesmo e Antero?

- Sei lá! Não estou dentro da cabeça dele. Ou melhor: estou dentro da cabeça dele mas não da de outros personagens que ele cria. O Artur pertence a uma história diferente embora também tenha a ver com o ambiente da capital...

- Ah! Era isso: "A Capital"! - relacionou Zé. - Então e tu? O que está a acontecer agora?

- Imaginou-me, mas temo que não venha a acabar-me... Como pode acontecer à minha autobiografia, "Memórias de um Átomo".

- Que estava na cabeça dele, já em Coimbra - lembrou-se Maria.

- Calculo! Mas se não me acaba a mim, nem ao meu amigo Carlos, da família dos Maias... Se quer dar largas à sua maneira de ser, fantasista e sonhadora, que o faça, mas que não nos deixe incompletos, a morrer, amarelos, dentro de uma gaveta ou de um cofre qualquer. Abafa-se lá dentro!

- A propósito de cofre, não tens outra chave?

- Nem para mim. Caramba, está um calor! Esta peliça é pesada! - desembaraçou-se da opulenta peliça e mostrou o tronco nu, apenas com o peitilho de uma camisa.

- O quê? Tu não trazes nada por baixo? Nem um colete? - espantou-se Maria.

- Curioso! Mais ou menos isso dirá o meu amigo Carlos da Maia... se o nosso autor assim o quiser - riu João Ega. - Bom sinal! Talvez sejam capazes de o levar a dizer mais frases dessas para que acabe o nosso romance. Vamos, desembarquem! Chegámos a um país com melhor clima do que a Inglaterra húmida e enevoada.

- Chegámos? Onde? O barco está parad... - Zé calou-se. Através da vigia do navio, viu o porto de Lisboa. - Maria, voltámos! Em que data estamos? Deixa ver... Oh, 1880!

- Então... e Newcastle? E Bristol? O que se passa, Ega? João da Ega, onde estás?

Maria e Zé bem olharam à sua volta, mas este tinha desaparecido.

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