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quinta-feira, 10 de abril de 2008

CICLO CENTENÁRIO DE EÇA DE QUEIRÓS


Tema: Eça de Queirós e a estética do fimConferencista: Professor Carlos Reis18/07/2000
Presidente TARCÍSIO PADILHASenhores acadêmicos, minhas senhoras e meus senhores. Vamos dar início ao Ciclo sobre o Centenário de Eça de Queirós, e quanto ao significado do ciclo e à apresentação do conferencista, ambos os aspectos serão ventilados pelo secretário-geral, acadêmico Carlos Nejar, que é o coordenador deste evento.
Acadêmico CARLOS NEJARQuero dizer da nossa grande honra com a presença do escritor, professor Carlos Reis, que é catedrático da Universidade de Coimbra, onde leciona Língua Portuguesa e Teoria da Literatura, professor convidado também das Universidades de Hamburgo, Salamanca, Wisconsin e Madison, pró-reitor para promoção e difusão da língua e cultura portuguesa da Universidade Aberta, e coordenador da edição crítica das obras de Eça de Queirós e da História Crítica, da Literatura Portuguesa.Cabe ressaltar, também, a sua condição de diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa. Entre os livros publicados, o livro Entrevista, que fez com José Saramago, antes até da premiação do escritor português. Dirige várias revistas como a Queroziana e Leituras, a Revista da Biblioteca Nacional, e é autor de diversos livros sobre Eça de Queirós.
É uma grande alegria para nós, nesta tarde, poder ouvi-lo nesta união que temos com a literatura portuguesa, a cultura portuguesa, através também da nossa língua, estando presente aqui a sua esposa, que também é professora catedrática, Isabel Reis. Ficaremos muito honrados com a alegria de podermos ouvir a conferência.
Professor CARLOS REISHá alguns momentos no tempo pessoal, em que tudo parece, de repente, harmonizar-se e ganhar sentido. Quando ainda em 1973, há não muito tempo, e contudo, há já algum tempo, escrevi o meu primeiro trabalho sobre Eça de Queirós, que seria então a minha dissertação de licenciatura, longe estava de imaginar que, anos depois, um pouco mais de vinte e cinco anos depois, eu estaria na prestigiada Academia Brasileira de Letras, a abrir um Ciclo de conferências sobre esse que tem sido, em toda a minha vida universitária, o meu escritor.
Longe estava eu de pensar - naquele ano de 1973, o ano 2000 era quase um mito impossível -, que neste ano, como presidente da Comissão Nacional das Comemorações do Centenário da morte de Eça de Queirós, teria o privilégio de falar nesta Casa de Machado de Assis. Longe estava eu de pensar que me caberia, neste ano, a responsabilidade grata de organizar, na Biblioteca Nacional de Lisboa, aquela que é certamente a maior exposição alguma vez feita sobre Eça de Queirós.
Todas essas razões convergem na grata alegria que tenho de estar hoje aqui convosco, alegria que tem também alguma coisa de responsabilidade, que é de falar para um público para quem Eça de Queirós é certamente uma presença familiar, freqüente, quase constante, e de trazer até este público exigente uma reflexão sobre o meu escritor de sempre.
Não quero encetar essa reflexão, sem expressar o meu agradecimento pela honra que me é dada de estar hoje aqui convosco, e sem o expressar de uma forma que é gratidão portuguesa, trazendo até vós uma lembrança de Portugal. Essa lembrança é, de certa forma, Eça de Queirós, e ela é o catálogo da exposição que está na Biblioteca Nacional, e que vou ter o gosto e a honra de passar às mãos do senhor presidente da Academia Brasileira de Letras, justamente como testemunho dessa minha gratidão.
Falarei com vossa benevolência sobre Eça de Queirós e a estética do fim, e falarei sobre a estética do fim em Eça de Queirós, começando por aquilo que é o princípio de tudo, começando pelos textos.
Um dia algures na ação dos Maias, Carlos da Maia tem a seguinte conversa com a senhora condessa de Gouverinho. "Carlos ficou só com a senhora condessa, que recuperara a sua cadeira cor-de-rosa. Imediatamente, ela perguntou pelo Ega. - Coitado, lá está em Celurico. - Ela protestou com um lindo riso contra aquela frase tão feia! Lá está para Celurico? - Não, não queria, coitado do Ega. - Coitado, lá está em Celurico - ação fúnebre". Celurico era horrível para um fim do romance.
É esta, já difusamente, quase uma reflexão metaliterária em contexto ficcional. É a reflexão de uma personagem que, sem disso se aperceber, tenha consciência de que a literatura, de alguma forma, projeta-se sobre a nossa vida e interage com trajetos humanos, e imita, nesses trajetos humanos, um fim, um fim de romance. Ou por outras palavras, não é possível comentar este destino episódico do João da Ega, sem trazer até este destino episódico a imagem de um romance que acaba. Fim do romance, fim do episódio amoroso que tinha sido vivido por João da Ega, fim de narrativa, fim que traz em si conotações, neste caso negativas, mais do que positivas. Fim que remete para afinidades, para derivações do próprio conceito de fim, para o desenlace, para o desfecho, mas também, em alguns momentos de obras de Eça de Queirós, para o sentido da extinção, a extinção de raça.
Nos Maias fala-se, precisamente no primeiro capítulo, na raça dos Maias, e nos Maias e também na Ilustre casa de Ramires e também na Cidade e as serras, a problematização do fim é, de certa forma, a problematização do fim da família. Jacinto, na Cidade e as serras, a certa altura, diz: "Sou o último Jacinto. Jacinto, ponto final." Longe estava ele, então, de pensar que este fim é, no fundo, um falso final, porque logo depois de dizer isto, já nas serras, "Sou o Jacinto, ponto final", logo depois: "Que casa é aquela com os dois torreões?" - pergunta Jacinto. "É Flor da Malva" - responde José Fernandes, apresentando a casa de onde sairá a Joaninha, que há de favorecer não o fim, mas a continuação da família.
Em Eça de Queirós, são inúmeros os sentidos do fim, as reflexões sobre o fim. Qual, de certa forma, o trauma do fim? Em certa medida, o tempo de iniciação literária de Eça de Queirós, em 1866, na Gazeta de Portugal, é um tempo que vive textos, que se faz de textos, em que se foge ao fim. Os textos da Gazeta de Portugal, esses textos incipientes, heterodoxos, provocatórios, são textos que, pelo seu caráter fragmentário, pela sua serialidade incipiente, de certa forma, recusam o fim, de certa forma, envolvem uma continuação constante.
Mas esse tempo de iniciação na história literária de Eça de Queirós dá lugar a um tempo de aprendizagem e de maturação. O tempo da aprendizagem e da maturação queiroziana é, como bem sabido, o tempo da escrita dita realista, que se nutre da doutrina que Eça de Queirós, ele mesmo elabora nas Conferências do Casino, e onde Eça de Queirós concebe uma literatura e uma arte com um fim, com um intuito de moral, de justiça e de verdade. Algum tempo depois, alguns anos depois, numa carta conhecida a Teófilo Braga, Eça de Queirós fala num projeto que alimentava para depois do Primo Basílio, o projeto das Cenas da vida portuguesa, e diz: "O meu fim nas Cenas da vida portuguesa é pintar a sociedade portuguesa etc. etc."
É o tempo em que Eça cultiva um gênero literário, um romance que lhe serve como instrumento finalístico, um romance que, na sua estética própria desse tempo, se regia por um princípio de organicidade. O romance desse Eça, O primo Basílio, O crime do padre Amaro, é um romance internamente coerente, é um romance que tem um fim, o limite do texto, mas é um romance que, curiosamente, cultiva também, do ponto de vista ideológico, um princípio de transcendência que está para além do texto, quer dizer, um romance que tem um fim em si, como o texto que acaba e que não pode continuar, mas um romance que cultiva outro fim, o fim extra-literário, que é o de uma sua função ideológica e social.
Curiosamente, quando escreveu e reescreveu e voltou a escrever O crime do padre Amaro, Eça de Queirós cultivou, com especial cuidado, o fim do romance, o episódio final, epílogo de uma história que devia apontar para além desse fim, para um outro fim, que é justamente nessa estética da função, nessa altura, e parecia a Eça que a literatura tinha uma função, uma função social, ideológica, até política. Depois disso, e superada essa concessão porventura excessivamente finalística da literatura, o que valeu a Eça de Queirós, como bem sabem, a crítica severa de Machado de Assis, depois disso, o Eça dos anos 80 do século XIX é o Eça que cultiva aquilo que, noutro local, chamei "outros mundos possíveis". Há mais mundos, em suma, descobre o Eça e descobre-o, em parte, porque leu a crítica de Machado de Assis.
Há mais mundos literários do ponto de vista temático, do ponto de vista propriamente ficcional, do ponto de vista formal, e nesses novos mundos, o fim deve rearticular-se, o fim deve rearticular-se em termos ideológicos, porque, para esse Eça e para essa literatura, já não é tão claro que a literatura deva ter um fim extra-literário no contexto social em que existe, e o fim deve rearticular-se também, porque nas obras que então publica, sobretudo quando elas são obras de caráter fragmentário, o fim obriga a uma nova problematização desse conceito.
Aquilo que temos chamado nos últimos anos "o último Eça" é um escritor que, de certa forma, prepara de outro modo o fim das suas obras, e que desse modo, prepara o seu próprio fim. Falar, portanto, a propósito deste último Eça, numa espécie de sindrome do fim, sendo que este último Eça, como é sabido, é que prepara, que escreve, mas que não chega a ver publicadas, a Correspondência de Fradique Mendes, A ilustre casa de Ramires e A cidade e as serras. É o Ega que cultiva agora outros discursos: o discurso da geografia, o discurso do conto de temática mitológica, até o discurso da auto-biografia mitigada. E é o Eça que, na Cidade e as serras, aborda outros fins, bem mais complexos e transcendentes do que o fim do romance, o fim do século, o fim da civilização ou de uma certa civilização, também o fim de uma certa história, que é a História de Portugal.
Já nos Maias - curiosamente e como se sabe, nos Maias encerra-se muito do que vem antes e do que vem depois deles -, já nos Maias, de certa forma, se antecipa esta nova problematização do fim, do fim do romance em si mesmo, e do fim da literatura para além do romance que tem esse fim. Lembro rapidamente um episódio, em que tal problematização aparece em filigrana. É o episódio em que começa a conquistar-se uma literatura com fins para além dela.
Relembro: "Nessa noite, Alencar teve o regozijo de encontrar aliados, a discussão é uma discussão em torno do naturalismo, evidentemente. Kraf não admitia também o naturalismo, a realidade feia das coisas e da sociedade nua estatelada num livro. A arte era uma idealização, bem, então que mostrasse os tipos superiores de uma humanidade aperfeiçoada, as formas mais belas do viver e do sentir".
"Ega, horrorizado, apertava as mãos na cabeça, quando, do outro lado, Carlos declarou que o que mais o incomodava no realismo eram os seus grandes ares científicos, a sua pretensiosa estética deduzida de uma filosofia alheia e a invocação de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart Mill e de Darwin, a propósito de uma lavadeira que dorme com um carpinteiro. Tudo isto, no fundo, procurando já refutar uma literatura que fazia do sucesso, neste caso, do sucesso ideológico e científico, o seu modo de existir. Tudo isso procurando refutar uma literatura que se fazia ponto de passagem para outros fins, neste caso, fins de natureza, digamos, científica.
Nos Maias, encontra-se não só aqui, mas em momentos localizados do romance, a elaboração de uma estética do fim. Tratam-se de momentos do texto em que, aparentemente de forma inocente, mas realmente,do meu ponto de vista, de forma ponderada e calculada, o fim surge associado a sentidos fundamentais, que o Eça desse tempo, e porventura a sua geração, iam vivendo. Há um momento em que Carlos da Maia, em Sintra, não encontra Maria Eduarda. É um momento de ausência e de falta, mas é um momento como que compensado pela contemplação, nem mais nem menos do que um fim, um belo fim de tarde. Toda sorte de idéias de amor, do som absoluto, de sacrifícios, invadiam-no deliciosamente, enquanto seus olhos se esqueciam, se perdiam, enlevados na religiosa solenidade daquele belo fim de tarde.
Só que a esse belo fim de tarde e à própria idéia de fim, vêm associadas, discretamente, idéias que são idéias já algo sombrias. Tudo que lhe aparece parado, num recolhimento melancólico e grave, olhando a partida do sol, que mergulhava lentamente no mar, onde o fim se faz realmente um fim dramático, melancólico, sombrio, é quando ele ocorre dentro de um outro fim, quer dizer, no final do romance, observa-se outra vez um fim de tarde.
Nesse melancólico passeio final em que aos olhos de Carlos e de João da Ega, aparece a paisagem que se vê do Ramalhete, ao fundo, encastilhada como uma tela marinha nas cantarias dos dois altos prédios, a curta paisagem do Ramalhete e um pedaço do Tejo e Monte tomavam, naquele fim de tarde, um tom mais pensativo e triste. Tudo vai resolver-se, portanto, neste fim do romance, em tristeza e o passo completa-se assim: "Um raio de sol morria lentamente sumido, esvaído na primeira cinza do crepúsculo, como um resto de esperança numa face que se anuvia". São já, naturalmente, os tons de ruína, conforme depois se diz, que vão cobrindo a casa do Ramalhete, e se calhar, a própria geração e os sonhos de Carlos da Maia.
Os Maias, portanto, sobretudo no seu final, são o romance em que as metáforas do fim se elaboram incessantemente, e se elaboram incessantemente, curiosamente, numa espécie de tensão dialética, em que o fim aparece, por um lado, como inevitabilidade, mas, por outro lado, como alguma coisa que é preciso subverter e refutar, contrariar. Aí a inevitabilidade do fim está na vivência, por Carlos da Maia e pela família dos Maias, de um episódio amoroso trágico, de fim brusco, um episódio de incesto. Está também na forma como esse episódio de incesto, e o seu fim trágico, traz consigo o fim da família ou o suposto fim da família. A própria longevidade de Afonso da Maia, que aparecia no final do trânsito da família como uma espécie de garante da sua existência, essa longevidade acaba por ceder, e quando ela cede é o fim da família que se aproxima.
Tudo parece resolver-se muito perto já do final, quando Afonso da Maia recebe, dramaticamente, a notícia do incesto, e diante de João da Ega, Afonso da Maia tem um gesto, que diz mais do que todas as palavras. Ega ainda balbuciou, quando Afonso da Maia diz: "Eu conheço essa mulher, é a sua amante, conheço essa mulher, Maria Eduarda". - Ega ainda balbuciou: "Não, não, senhor Afonso da Maia". Mas o velho pôs o dedo nos lábios, indicou que Carlos dentro podia ouvir, e afastou-se, todo dobrado sobre a bengala, vencido enfim por aquele implacável destino que, depois de o ter ferido na idade da força com a desgraça do filho, o esmagava ao fim da velhice com a desgraça do neto.
A tematização do fim como inevitabilidade, como alguma coisa que traz o fim da família, é - e volto aqui ao sentido dessa tensão dialética que há pouco referi - contudo, objeto de tentativas de negação, de subversão, um pouco como se o fim não fosse tão irreversível, como parece à primeira vista. Curiosamente, antes do fim do romance, há um pequeno episódio embutido na reflexão de Carlos com João da Ega, um pequeno episódio metaliterário, outro desses em que dentro da literatura se reflete sobre a literatura, aparentemente inócuo ou meramente cômico, mas que, realmente já traz consigo o propósito de encarar o fim como alguma coisa que é preciso subverter e contrariar.
É João da Ega que vai ler a Carlos da Maia um passo das Memórias de um ato, essa obra sem fim que ele não acabou, mal começou e imediatamente arrancou. "Afastou papéis e livros e desenrolou o manuscrito, espalmou-o, deu um puxão ao colarinho, e Carlos, que se postara à borda do divã, com a face espantada e as mãos nos joelhos, deixou-se quase sem transição, transportado dos rugidos do ventre do Viegas - era o doente que eu tinha que estar lá a atender - para um rumor de populaça, num bairro de judeus, na velha cidade de Heidelberg. Mas espera lá como eu, deixa-me respirar, isso não é o começo do livro - isso não é o caos, porque, supostamente, as memórias de um átomo deveriam começar por gêneses - isso não é o começo do livro, isso não é o caos".
"Ega, então acostou-se, desabotoou a sobrecasaca e respirou também. Não, não, não é o primeiro episódio, não é o caos, é já no século XV - e agora, atenção, mas num livro destes pode-se começar pelo fim, convém-me fazer este episódio, chama-se A hebréia. Acoene, pensou o Carlos, ou seja, a própria literatura pode subverter o fim e começar pelo fim".
Mas é no episódio final, depois de, aparentemente, o fim ser problematizado como alguma coisa de irreversível, no episódio final, que resulta do incesto, da separação e da morte, é nesse episódio final, que parece representar a extinção irreversível da família e de uma elite, é nesse episódio final, que o fim acaba por ser negado.
O momento é esse momento quase tragicômico, em que Carlos da Maia, na última página dos Maias, enuncia as suas últimas convicções, para, logo em seguida, as ver desmentidas. "E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se aquele, em verdade, fosse o caminho da vida, onde eles, certos de só encontrarem ao fim desilusão e poeira, não devessem jamais avançar, senão com lentidão e desdém. Já avistavam o aterro, a sua longa fila de luzes. De repente, Carlos teve um gesto de contrariedade, de ferro, e eu, que vinha desde Paris com este apetite, esqueci-me de mandar fazer hoje para o jantar um grande prato de paio com ervilhas."
O fim incerto do romance é o deste episódio final, em que não se sabe se Carlos e João da Ega conseguem apanhar o carro, que foge ao longe, e em que, ao mesmo tempo, negam uma existência feita de desistência.
Os Maias são, então, potencialmente, um relato sem fim, um esforço sem chegada conhecida, uma recusa implícita do romance com um fim, ou em outros termos, um romance, como a literatura de Eça a partir de agora, inevitavelmente aberto. É isso que se passa sob o signo da ambigüidade, nas últimas obras de Eça de Queirós. Também curiosamente, e há nisto provavelmente alguma coisa de um destino que o próprio Eça não pôde controlar, porque ele mesmo não viu nem tratou o fim das suas obras. Já há pouco disse, repito agora, tanto A cidade e as serras, como A ilustre casa de Ramires, como A correspondência de Fradique Mendes, são obras que Eça não terminou, são obras que Eça não viu publicadas em vida. De todas, é a Correspondência de Fradique Mendes aquela em que a recusa do fim é porventura mais significativa, desde logo pela sua estrutura, relato que introduz um conjunto de cartas, relato que introduz um epistolário. Esse epistolário é, de certa forma, um conjunto de episódios sem fim; tanto assim é, que várias das cartas de Fradique não foram publicadas nessa primeira edição. Um pouco como se o destino incerto dessa obra final de Eça de Queirós viesse dizer que, afinal, a literatura nunca tem fim, e que é possível sempre acrescentar alguma coisa mais; é essa lógica aberta que é a lógica da epislolaridade.
Quem aqui poderá dizer que, alguma vez, publicou um epistolário completo sem a incerteza de que, algum dia, alguma carta mais computará aquelas que foram publicadas?
De certa forma, a Correspondência de Fradique Mendes vem, de novo, refletir sobre uma literatura que, para Fradique, é uma literatura por natureza anti-finalística. Lembremos: Fradique Mendes coloca-se, em relação ao Eça dos anos 70, numa posição que é a do esteta anti-realista, a do poeta afinal sem poesia publica, que não admite uma literatura como instrumento finalístico. Mas, ao mesmo tempo que assim pensa, Fradique Mendes enuncia a própria impossibilidade, para ele, da escrita da literatura.
Quando, um dia, o amigo e biógrafo, editor de cartas, lhe propõe a publicação de um livro sobre África, Fradique tinha feito uma viagem à África - e o que seria o fim normal dessa viagem seria a publicação de um livro sobre África - quando o amigo lhe propõe isso, Fradique recusa e diz: "Não tenho sobre África, nem sobre coisa alguma deste mundo, conclusões que, por alterarem o curso do pensar contemporâneo, valessem a pena registrar". E acrescenta: "Apenas tenho sobre África uma série de impressões".
O livro fica pois por publicar. Fica por publicar, também, porque Fradique Mendes não é detentor disso que ambiciona: "uma prosa como ainda não há" - diz Fradique, "uma prosa - acrescenta - em que fosse possível enunciar verdades absolutamente definitivas, em forma absolutamente bela, isto é, uma prosa que fosse capaz de conjugar a comunhão indissociável, a beleza absoluta, ao caráter definitivo, e portanto final, das verdades a representar." Em vez disso, Fradique Mendes opta pelo silêncio, e esse silêncio é para Fradique Mendes uma forma bem singular, bem paradoxal, de cultivar também uma estética do fim.
Eça de Queirós, pelo contrário, e aqui divergindo de Fradique Mendes, o que afirma é o impossível fim da literatura ou a necessidade da sua existência constante. Eça de Queirós, por sua própria estética, e sobretudo, pela sua ética de escritor, o que veio cultivar, de certa forma contra Fradique Mendes, foi uma literatura em constante revisão, que é como quem diz uma literatura à procura do fim perdido.
Muito obrigado.
Presidente TARCÍSIO PADILHAA conferência que acabamos de aplaudir se insere como um dos momentos privilegiados desta Casa, uma vez que Eça de Queirós e Machado de Assis são os pontos culminantes da literatura dos nossos dois países, irmanados pela mesma língua, e cuja trajetória foi comum ao longo de vários séculos, mas se estende, posteriormente, ao que poderia significar a nossa independência, através deste denominador comum do nosso afeto e dos nossos valores.
A conferência é extremamente densa e certamente ensejará pedidos de esclarecimentos, indagações e aspectos que o conferencista, certamente, ainda adiante, poderá ampliar e aprofundar.
Já de pronto, à guisa de pequeno comentário de um não-literato, de um cultor da Filosofia, poderia aqui sublinhar o fato de que estão, por assim dizer, mesclados ao longo da exposição dois conceitos medulares: o conceito de finalidade e o conceito de finitude. Na medida em que o agente aja em vista de um fim, o agente busca um objetivo, o escritor se lança ao trabalho da criação, e ele, ao se adentrar na sua trama, a urdir e tecer o seu roteiro, ele visualiza aquele momento em que a cortina baixa e o espetáculo se encerra.
Esse aspecto da demarcação do fim não encobre, no entanto, a possibilidade da sua transcendência, de um ultrapassar-se daquele fim que se impôs num determinado momento, mas que em seu próprio bojo, contém uma mensagem que é prospectiva, e essa mensagem prospectiva se evidencia pari passu, à medida que o escritor não põe um ponto final na sua obra. Ele a prossegue, uma vez que aquele fim é um fim provisório, já que o homem é o ser da intencionalidade. Essa intencionalidade está presente no seu espírito, por assim dizer, a impeli-lo para prosseguir, para caminhar, porque o homem é um caminhante, e não poderia deixar de sê-lo o esteta da palavra, como é o narrador.
Daí por que o conferencista sublinhou, num determinado momento, que há como que uma recusa do fim. É esta não aceitação do limite que a obra de arte lhe impôs, neste perpassar pelos eventos, que lhe constitui a trama romanceada. Poderíamos imaginar, por absurdo, que já foi tentado por uma ilustre escritora, aquela idéia de reverter as expectativas e começar, por exemplo, uma história para crianças, dizendo: "E foram felizes para sempre" - e terminar por dizer: "Era uma vez". Esta idéia da reversão é exatamente para mostrar que, só dentro de um imaginário puxado até o seu extremo limite, seria possível evitar o fim que demarca a narrativa.
Seriam essas umas poucas considerações a acudir a alguém que vislumbra na literatura todo esse possibilismo de pintar a condição humana, sem que isso esconda, pelo contrário, isso ponha em evidência todo o mistério que cerca a realidade da pessoa. Mas são pequenas considerações. Meu prezado colega gostaria certamente de pedir a palavra?
PLATÉIA - Acadêmico Geraldo França de LimaMeu presidente, desejaria, data vênia, pedir licença para uma observação ao ilustre professor Carlos Reis. Quando Sua Excelência diz: "incesto dos Maias", acho que é preciso fazer uma profunda observação sobre o fato, porque o incesto é uma coisa consentida, é uma coisa definitivamente realizada, com uma parceria ciente e consciente. No caso dos Maias, não houve isso. O Carlos da Maia só veio a saber que era irmão de Maria Eduarda, tempos depois, quando, desgraçadamente, o senhor Guimarães, indo a Portugal por motivo de herança procura o Ega no Loreto, e en passant, conta a ele. - "Que irmã?" - "A irmã dele, a única que ele tem".
Ora, como poderia ter havido incesto, se o Carlos não sabia que era irmão de Maria Eduarda? Se Maria Eduarda não sabia que era irmã de Carlos da Maia? Só pode ter havido incesto depois, já no fim que a desgraça é revelada, porque o próprio Afonso da Maia sabia da existência de Maria Eduarda, tanto que diz ao Ega: "Eu sabia dessa mulher, vive na rua São Francisco de Paula, passou todo o verão com ele, é a amante dele". Isso é textual.
Ora, repare bem Vossa Excelência, senhor professor, que o Carlos só praticou incesto depois da revelação daquela maldita carta. Este é o meu ponto de vista.
Professor CARLOS REISA questão que é levantada é uma questão extremamente pertinente e que, no fundo, vem recolocar análises que foram feitas várias vezes em torno desse problema, e lembro aqui, sobretudo, uma análise que nunca me foi muito simpática, nem muito convincente, que é a análise que Antônio Sérgio fez sobre o problema ideológico, ao moral, na ficção de Eça de Queirós, onde ele justamente pondera e ajuíza o incesto de um ponto de vista moral que, como ficou observado, é, em boa parte, irrelevante. E isso justamente porque, no fundo da relação entre Carlos e Maria Eduarda, o que se verifica é que, na sua quase totalidade, o incesto é inconsciente, num certo momento, e tanto quanto se percebe pelo romance, por uma única vez. Existe uma relação incestuosa entre Carlos e Maria Eduarda, porque Carlos já sabia que era irmão, mas não Maria Eduarda.
PLATÉIA - Acadêmico Geraldo França de LimaMas depois. Isso é depois da carta.
Professor CARLOS REISÉ depois da revelação, exatamente. Mas, nesse momento, ele sabia que era irmão dela, e ela não sabia. Aquilo que choca Antônio Sérgio é o fato de, depois de ele saber, ainda existir essa relação carnal entre Carlos e Maria Eduarda. Julgo que essa interpretação, de imediato severa, porventura um pouco moralista de Antônio Sérgio, não atenta suficientemente na importância que têm, para a interdição do incesto na nossa matriz civilizacional, os códigos de natureza moral e religiosa, isto é, alguma coisa que, no fundo, o indivíduo adquire com a sua formação, com a educação que lhe é dada, com as interdições de natureza moral, e que alguém que cometia incesto, involuntariamente, não pode incorporar, de um momento para o outro.
Em todo caso, julgo que a questão do incesto, conforme já foi muitas vezes observado, é, portanto, sobretudo do ponto de vista simbólico, mais do que do ponto de vista moral propriamente dito, porque, no fundo, a questão do incesto que, eventualmente, se traduz nos Maias é essa espécie de congênita impossibilidade da sucessão, ou essa espécie de absurdo de uma ligação sem validação social. Assim, por esse lado, o absurdo de uma relação amorosa como era a de Carlos da Maia que, quando atinge a sua plenitude, ganha também, ou adquire também, a interdição para a sua continuidade, e com isso, determina, de certa forma, o fim da família.
PLATÉIA - Acadêmico Geraldo França de LimaMais uma observação. No momento em que o Castro Gomes vem de Paris e recebe a carta do Dâmaso, e que vai conversar com o Carlos da Maia, ele diz ao Carlos da Maia que a Maria Eduarda era uma prostituta, era uma prostituta. Então, o Carlos Eduardo vai disposto a brigar com ela, mas não briga, e a perdoa.
Não haveria possibilidade de, um dia, o Carlos saber que aquela criatura fosse parenta dele, porque uma irmã morreu em Viena, a outra morreu não sei onde. Ora, o que ficou? A própria família tinha procurado a filha em toda a parte, não a encontrou. E o Carlos da Maia diz ao Ega: "Uma mulher que se poderia, por alguns francos, ter-se inteiramente nua sobre o divã".
O Carlos da Maia, portanto, era, no caso, uma figura inconsciente. A minha tese é que o incesto houve depois da revelação da carta.
Presidente TARCÍSIO PADILHACom a palavra, o acadêmico Carlos Nejar para uma observação.
Acadêmico CARLOS NEJARSerei breve. Quero dizer que aqui, nesta tarde, há um encontro casual, embora penso que não haja casualidade no espírito, tudo tem o seu sentido: os dois presidentes de Biblioteca, aqui no Brasil, o nosso Eduardo Portella, e Carlos Reis, da Biblioteca Nacional de Lisboa. Essas duas presenças hoje aqui nos honram, sobretudo, essa conferência que nos tocou pelo brilho, e também pela visão desse romancista tão ligado ao Brasil, e que representa, para vocês também, o que é Machado de Assis para nós, embora ambos estejam unidos no mesmo espírito, que é a língua portuguesa.
Quando o conferencista, brilhantemente, falava a respeito da estética do fim, me lembrava de versos de Eliot, que dizem: "O princípio é o fim e o fim é o começo", porque, na invenção da memória e na memória da invenção, o fim e o começo se entreligam, pois aquele que inventa cria uma sua própria lógica, que é uma lógica mágica, que é a lógica da invenção, e é o encontro feliz da memória e da invenção, porque, no fundo, tudo é memória, como dizia Borges.
E eu, quando ouvia também esta conferência a respeito da estética do fim em Eça, me lembrava de Borges, porque, em Borges, a morte antecede a vida. Em muitos dos seus contos, todas as coisas são como que embaralhadas, porque vige o princípio de que o fim é sempre um começo para a criação. Como nesse trabalho das Mil e uma noites que, na narrativa, nunca terminava, sempre recomeçava, e que leva também ao nosso Grande sertão: veredas de Guimarães Rosa, e sobretudo, também, ao Macunaíma de Mário de Andrade.
Queria dizer da minha admiração pelo trabalho do conferencista, honrando a nossa Academia Brasileira de Letras que, nesta tarde, tem a presença de tantos acadêmicos e um público que ama a obra de Eça de Queirós.
Presidente TARCÍSIO PADILHAAlguma outra indagação que queiram endereçar ao conferencista? Desejo, antes de mais nada, agradecer ao doutor Carlos Reis a sua bela exposição nesta Academia, e dizer-lhe que Portugal e o Brasil, hoje preocupados com a lusofonia e os desafios que cercam o futuro da nossa língua comum, vivem neste momento o enlace cultural necessário para mais e mais se ampliar e irradiar a cultura dos nossos povos, ainda mais, pensando-se no grande décor da nossa latinidade.
Por outro lado, não posso deixar de agradecer, e o faço com prazer, a presença da acadêmica Nélida Piñon, ex-presidente da Casa, dos acadêmicos Murilo Melo Filho, Antonio Olinto, Geraldo França de Lima, Lêdo Ivo, Josué Montello, nosso decano, Afonso Arinos de Melo Franco, Ivan Junqueira, Dr. Evandro Lins e Silva, Dr. Eduardo Portella, e nós dois aqui, completando este grupo de acadêmicos, que puderam acorrer hoje à conferência.Digo "puderam acorrer", porque estamos vivendo momentos de luto na nossa Casa, e abrimos assim um parêntese, uma epoké ao nosso sentimento de luto, porque é um momento cultural e a cultura não tem férias, não há feriado para a cultura, ela prossegue. E aquele que nos deixou, certamente, deixaria também esta mensagem: prossigam a caminhada, que já vai longe - e ele nos antecedeu no tempo, porque nasceu antes da criação da própria Academia.
Além dessas palavras, quero anunciar a próxima conferência, no dia 25 de julho, do acadêmico Carlos Heitor Cony; o título é Eça, invenção e observação.
Agradecendo a presença de todos, e especialmente grato ao conferencista, está encerrada a sessão.

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Monforte e Pedro em Sintra II


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Os Maias, Monforte conhece Tancredo


Os Maias o suicidio de Pedro


Os Maias, Maria Monforte, depoimento de Simone Spoladore


Os Maias,Carlos Eduardo vai estudar em Coimbra


Os Maias, Carlos e Ega em Coimbra


Selton Mello fala sobre Joao da Ega


Os Maias, Carlos ve Maria Eduarda pela primeira vez


Os Maias, Carlos e a filha doente dos Castro Gomes


Maias, Personagem Alencar por Osmar Prado


Os Maias, - Carlos Eduardo da Maia , que lindo nome!


Os Maias, Ega e Rachel Cohen, Ines de Castro


Os Maias, Carlos descobre a verdade sobre a mae


Os Maias, Carlos ouve a voz dela pela primeira vez


Os Maias, os Castro Gomes agradecem!


Os Maias, Carlos Eduardo procura Maria Eduarda em Sintra (1)


Os Maias, Carlos procura Maria Eduarda em Sintra (2)


Os Maias, Carlos volta de Sintra : Falhou- me tudo hoje


Os Maias, Carlos diz que a ama !


Os Maias, Maria Eduarda, apaixonada por Carlos


Os Maias, O primeiro beijo de Carlos e Maria Eduarda


Os Maias, Ega expulso da festa dos Cohen


Os Maias, Ega parte de Lisboa apos a festa dos Cohen


Os Maias, Havia uma similitude nos seus nomes.


Os Maias,Dr. Carlos, nao se va !


Depoimento do ator Fabio Assuncao contendo cenas


Ana Paula Arosio e Fabio Assuncao comentam os Bastidores de Os Maias video (SEM EDICAO)


Maria Eduarda conhece o Ramalhete


Os Maias, O Ramalhete


Os Maias, Castro Gomes conta a verdade


Os Maias, Castro Gomes nos Olivais


Os Maias, O que é que tu amavas então em mim?


Os Maias, Carlos parecia aniquilado...


Os Maias,1- Monforte retorna


Os Maias, 2-Monforte retorna e procura Don Afonso


Os Maias, 3 - Monforte retorna , Nao pode ser !


Os Maias, A morte de Don Afonso


Os Maias, Cenas finais parte 1 (sem edicao)


Cenas Finais parte 2 (sem edicao)


Os Maias, Somos irmaos !


Os Maias, Maria Eduarda parte para Paris


Os Maias, Carlos fecha o Ramalhete


Os Maias, Carlos retorna depois de dez anos


Os Maias, - Falhamos a vida !


Os Maias, - Nos nao tivemos culpa !


Os Maias, - DESTINO TRACADO !

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26/10/2008 free counters

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Eça de Queiroz e as singularidades dos nomes

Paulo de Toledo

O conto “Singularidades de uma rapariga loura” (QUEIROZ, Eça. Contos. Ediouro, RJ, s/data, p. 11.), escrito em 1873, por Eça de Queiroz, deve ter causado estranheza ao público da época em que foi publicado, devido à destruição dos moldes convencionais do Romantismo e à apresentação de tipos e situações que se chocavam contra os códigos morais vigentes da burguesia portuguesa.

Narrado em terceira pessoa, o conto apresenta-nos a história de Macário, um jovem guarda-livros que se vê “assaltado” pelo amor a uma mulher: a jovem Luísa.

OURO E LOURA

Nessa obra, novamente Eça de Queiroz, como em O Primo Basílio, manifesta sua fixação pela figura da mulher loura. Luísa tem olhos azuis, é branca e loura como um “arminho”. Toda a aparência da personagem sugere pureza e ingenuidade. Por meio da detalhada descrição que é feita do caráter (apego ao luxo e à vaidade) e ainda pela semelhança entre as palavras “loura” e “ouro”, repetidas inúmeras vezes no conto, somos levados à principal característica psicológica da personagem: a cleptomania.

O conflito entre a aparência e as pulsões internas que o indivíduo procura ocultar, é um dos eixos do conto. A aparência singela de Luísa, a clareza de sua pele e dos seus cabelos escondem um caráter “obscuro”.

Por seu turno, a honestidade do protagonista Macário é enfatizada desde o início da história, de modo a confrontar-se com a personalidade viciada de Luísa. Esse dado confirma-se na descrição das origens de Macário. Segundo o narrador, o guarda-livros era proveniente de uma família marcada por uma “velha tradição de honra e escrúpulo” [p. 15].

O espírito desarmado e puro de Macário também fica expresso no fato de ele relatar sua história à primeira pessoa (o narrador) que encontra numa estalagem de província

OS NOMES

É interessante que nos detenhamos na análise do sobrenome de Luísa e de sua mãe: Vilaça. O adjetivo “aça” designa animal ou pessoa albina. Sendo ambas as Vilaças descritas como sendo mulheres muito brancas, o jogo entre “Vilaça” e “aça” sugere a brancura da pele das personagens. Podemos conjecturar também que “Vilaça” remeta anagramaticamente à palavra “vil”. Sendo assim, concluímos que o sobrenome Vilaça sugere a junção de “vil+aça”, podendo significar uma mulher branca e vil, evidenciando as principais características dessas personagens femininas.

Do mesmo modo, é bastante sugestivo o fato de que o encontro entre Lúcia e Macário se realize na Rua dos Calafetes. “Calafete” designa aquele que calafeta, sendo calafetar o ato de untar com piche ou breu as juntas de um barco. Isto é, foi na Rua dos Calafetes onde o amor de Macário por Luísa foi untado de “piche” (elemento que indicaria a impureza da alma de Luísa).

No final do conto, depois que a rapariga loura rouba um anel de brilhantes na loja do ourives e é desmascarada, Macário, já na rua, ao lado da sua noiva, “instintivamente leu o cartaz que anunciava ‘Palafox em Saragoça’” [p. 44]. Após ler o cartaz, Macário, claramente irritado, ordena a Luísa que vá embora.

Se detivermo-nos na palavra “Palafox” perceberemos que se dá a união entre “Palas” (o nome da deusa grega Palas Atena) e “fox” (raposa, em inglês). Saragoça, por sua vez, pode nos levar a “saragoço”, que quer dizer cão perdigueiro de cor branca com pequenas pintas escuras. Podemos concluir, portanto, que o cartaz é um resumo metafórico das características físicas e morais de Luísa. Sendo ela descrita pelo autor como uma bela mulher, Luísa se aproximaria metaforicamente da deusa grega Palas Atena (que, juntamente às deusas Hera e Afrodite era considerada uma das três mais belas deusas do Olimpo). Além disso, o nome da peça em cartaz contém as palavras raposa (“fox”) que indica pessoa de personalidade astuta e traiçoeira. Vemos aí, aglutinadas, as duas faces de Luísa: sua beleza e seu caráter traiçoeiro.

Por sua vez, o substantivo “saragoço” permite-nos relacionar a cor branca que caracteriza esse cão à palidez de Luísa. Além disso, as pintas do saragoço podem sugerir as máculas no espírito da personagem: sua cleptomania.

PRODUTO DO MEIO

Esse “defeito” de Luísa pode ter como causa a necessidade da personagem de corresponder às expectativas da sociedade burguesa que a rodeia. É importante observar que os objetos furtados por Luísa (os “lenços da Índia”, o anel de brilhantes e o leque, o qual somos levados a crer que também fora roubado) são elementos típicos de ostentação de riqueza utilizados pela alta classe burguesa da época.

Eça de Queiroz, adepto do Naturalismo, elabora, assim, uma crítica à sociedade a qual pertencia, cujo comportamento estaria baseado na valorização das aparências, uniformizando as individualidades, ou seja, destruindo as suas “singularidades”.

PAULO DE TOLEDO (Santos/SP, 1970) é poeta. Tem poemas, contos, traduções e ensaios publicados em vários sites literários e na revista de poesia Babel.

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26/10/2008 free counters

REVISTA TPM , Selton Mello

“o recomendo começar criança. O que meus pais fizeram comigo foi lindo, mas tem muita criança que pira”

Tpm. Você veio de Minas para São Paulo quando era bem pequeno, não é?
Selton Mello.
É. Os meus pais são de Passos e, no meu nascimento, eles voltaram para sua cidade natal. Aquela coisa de ficar perto da família e tal. Eu nasci lá, passei um mês e voltei para SP, onde vivi minha infância. Mas sempre passei grandes temporadas em Minas, que foram fundamentais na minha formação. Eu tive uma relação muito forte com a natureza, com os bichos, com a terra. Imagino, se um dia eu tiver um filho – o que acho uma viagem muito bacana –, vou fazer de tudo para estar bastante no mato. Acho que é legal para a criança, sabe?

Tpm. Você iniciou sua carreira cantando em shows de calouros?
Selton Mello.
É, meu início é hilário. Sempre toquei violão e guitarra, já tive banda e tudo. Um dia disse para minha mãe que queria cantar no programa do Raul Gil. Tinha uns 7, 8 anos. Cantei no Bozo também. É engraçado.

Tpm. Você cantava Roberto Carlos?
Selton Mello.
Cantava. Gostava muito de Roberto Carlos e minha mãe fez um terninho para eu cantar. Nessa onda, pintou um olheiro de agência que me chamou para fazer comerciais e, nessa de comercial, comecei a fazer novela. Fiz Dona Santa, que foi a primeira, e Braço de Ferro, a segunda. As duas na Bandeirantes.

Tpm. Você colocaria um filho para trabalhar tão cedo, como foi com você?
Selton Mello.
Não e não recomendo começar criança. O que meus pais fizeram comigo foi lindo, mas eu vi muitos atores da minha época de criança dançarem por causa dos pais. Lembro de muito pai enchendo o saco de diretor, mas meus pais, supermineirinhos, sempre me deram ferramentas para fazer o que eu queria fazer. Nunca me impuseram nada. Quando eu terminei Corpo a Corpo e não apareceu nenhuma outra novela, tinha sempre a dúvida: “Será que a gente vai falar lá com o diretor que te trouxe?”. A gente sempre acabava optando por não ir. Então isso foi muito bacana. Eles sempre conversaram muito comigo, para eu não pirar. Mas tem muita criança que pira.

Tpm. Você continua tão metódico como o menino de 11 anos que decorava o texto de todo o elenco da novela?
Selton Mello
. Isso eu não perco. E acho que ficou mais forte depois de ter recebido um prêmio fora do meu país, lá em Cuba, que foi o mais importante da minha carreira [Selton recebeu o prêmio de melhor ator no 23º Festival Internacional Del Nuevo Cine Latinoamericano, no ano passado]. A emoção e o orgulho que senti defendendo o Brasil foi muito grande. Me senti meio “os caras do vôlei”. Isso me estimula a ficar cada vez melhor.

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26/10/2008 free counters

O coronel e o lobisomem

Pode ser que você nunca tenha ouvido falar no nome dele. Mas referências não faltam a Maurício Farias. O cara é filho do cineasta Roberto Farias (diretor de “Assalto ao trem pagador”) e irmão de Lui Farias. Maurício é casado com a atriz Andréa Beltrão e assina a direção do seriado “A Grande família”, além de minisséries, como “Hilda Furacão”. Achou pouco? O diretor é um sujeito tranqüilo, confiante quanto à sua estréia em longas metragem em “O coronel e o lobisomem” e, principalmente, quanto à parceria e amizade com Guel Arraes. E aliás, que amizade. O diretor e produtor pernambucano poderia ter dirigido esse fechamento da “trilogia da comédia popular”, mas passou a regência para o parceiro que, segundo ele, teria “um olhar novo e trataria o material com mais originalidade e criatividade”. Duvida? Então, confira abaixo o que o próprio Maurício tem a dizer a seu favor.


O diretor durante a coletiva de lançamento do filme em BH

Pílula Pop: Você já tem bastante experiência com direção na TV, como “A grande família” e “Hilda Furacão”. Quais as diferenças e as dificuldades que você encontrou ao dirigir um longa?

Maurício Farias: A minha maior dificuldade foi fazer da equipe uma nova família. Porque o elenco já trabalhava comigo na TV, mas a equipe não. Acredito no trabalho em grupo, daí minha afinidade com o Guel [Arraes]. Quando a gente se encontrou na televisão, e nós dois já trabalhamos juntos há seis anos, foi um cruzamento de tendências, até mesmo na prática. Então, a minha maior dificuldade foi criar essa família, fazer com que ela caminhasse com intimidade e animação - o que é preciso se ter, com certeza, num filme.

Pílula Pop: Como foi a primeira experiência no comando de um longa metragem e como foram as filmagens em Minas Gerais?

Maurício Farias: Eu me senti muito bem, porque estava bem acompanhado. Quando se tem esse apoio total e irrestrito, como eu tive em “O coronel e o lobisomem” é muito bom, porque direção é um trabalho muito solitário. Todas as decisões pesam sobre as suas costas: contas, erros, acertos. É muito importante ter parceiros, como o Guel e a Paula, com quem você pode dialogar à altura sobre todos os aspectos da produção. As decisões eram tomadas de igual para igual, ao mesmo tempo em que a minha opinião era respeitada - a escolha do elenco, por exemplo, foi minha. Foi uma felicidade para mim. Quando o Guel me chamou para fazer o filme e me mostrou o roteiro, eu tinha bem claro que o caminho que eu devia seguir era algo na linha do realismo mágico. Comprei na hora a idéia de filmar em Minas, já que eu conhecia aqui. Já havia gravado na Praça da Liberdade em “Hilda Furacão”. E em Tiradentes também.

Pílula Pop: E como você encara as comparações com o “Estilo Guel” de direção?

Maurício Farias: É uma afinidade que eu tenho com o Guel. Já trabalho com ele na TV há anos. É um mestre na comédia, na narrativa. O texto e a adaptação eram do Guel e isso já traz em si um caminho. Os atores e os parceiros também contam para essa visão, porque já têm essa mesma grife “Guel Arraes” associada. É o estilo de um grupo, mas não é a mesma direção. Eu acredito no que está feito e eu não fiz nada copiando, fiz o que eu achava melhor para cada cena.


O elenco: Selton Mello, Lúcio Mauro Filho e a esposa de Maurício, Andréa Beltrão

Pílula Pop: Assistindo ao filme, percebe-se que o elenco está muito a vontade na atuação e nos diálogos. O filme teve muito de improvisação ou vocês se fixaram mais no que estava no roteiro?

Maurício Farias: O tipo de trabalho que eu faço praticamente não dá espaço para o improviso. Apesar desses atores serem capazes de qualquer coisa, mesmo (risos). Mas a gente ensaiou muito, ficamos um mês trabalhando bastante cada cena antes de filmar. A gente se entende bem, trabalha há muito tempo junto. É isso, somado aos ensaios, à seriedade e à forma como esse grupo trabalha, que resultou nesse conforto.
***Nesse momento, alguém chega dizendo que o tempo está acabando e atropela minha entrevista. Paciência. E um pouco de insistência***

Pílula Pop: Esse ano tem sido de vacas magras para o cinema nacional. Somado a isso, ainda existe o sucesso do “Auto da compadecida” e de “Lisbela e o prisioneiro” que, de certa forma, precedem “O coronel e o lobisomem”. Como está a expectativa para o lançamento do longa?

Maurício Farias: A expectativa é enorme. Eu espero que o maior número de pessoas goste e que faça o maior sucesso possível. A gente sabe que não adianta, mas sofre, sofre, sofre. Agora, porém, o próprio filme responde por ele mesmo. E são as pessoas que vão ver - e vão gostar ou não. Espero que elas gostem porque ele foi feito de uma maneira muito bacana e muito caprichada.


A bela Ana Paula Arósio, os produtores Paula Lavigne e Guel Arraes e o diretor

Pílula Pop: Com tanto trabalho de pós-produção, tem alguma cena ou alguma coisa que você gostaria de refazer ou melhorar no filme, depois de pronto?

Maurício Farias: Eu, como diretor, considero-me um obsessivo. Essa coisa não tem fim. Todo trabalho que você faz, vai sempre querer refazer alguma coisa. Mas estou muito satisfeito, acho que o filme está excelente. Gosto do meu trabalho no filme, dos atores, da produção, da direção de arte e fotografia, do figurino – está tudo bem legal. Se tivesse mais condições, mais tempo, é claro que a gente sempre faria melhor, né? Mas eu tive bastante conforto para filmar, fiz praticamente tudo da forma que tinha imaginado.

Pílula Pop: E qual a sua cena preferida no filme?

Maurício Farias: Gosto da passagem de tempo, logo que a Esmeraldina vai embora. As cenas dele comendo na cozinha, a barba dele cresce. Ele dormindo escondido com o olho para fora, depois virando coronel. Gosto da cena no trem em Tiradentes também, acho uma seqüência linda. E o Selton aparecendo por trás é bacana. Mas o filme tem de tudo: diversos exercícios de direção. Desde ritmo a algumas virtuoses de câmera. E gosto muito do julgamento, acho que se fosse para citar, as cenas do tribunal, realmente, são as mais interessantes.

por Daniel Oliveira

O coronel e o lobisomem

(Brasil, 2005)

Dir.: Maurício Farias
Elenco: Diogo Vilela, Selton Mello, Ana Paula Arósio, Pedro Paulo Rangel, Tonico Pereira, Othon Bastos, Andréa Beltrão, Lúcio Mauro Filho, Francisco Milani, Marco Ricca

Princípio Ativo:
Grife Guel Arraes

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Tem elenco do Guel Arraes. Tem roteiro do Guel Arraes. Tem produção do Guel Arraes. Tem a cara do Guel Arraes. Preste bem atenção, não estou dizendo que seja um filme do Guel Arraes. Até que não é. “O coronel e o lobisomem” pode completar a tal “trilogia da comédia popular” – que já é, pelo menos, uma quadrilogia, com o anúncio de “O bem amado” em longa metragem. Mas tem traços próprios, para o bem e para o mal, que salvam o diretor Maurício Farias da acusação de “Guel Arraes with lasers” (ou with lobisomem digital).

Adaptado do livro de José Cândido de Carvalho, o longa conta a saga do Coronel Ponciano (Diogo Vilela), um Dom Quixote do romance regionalista nacional. Ele é criado junto com o filho do capataz, Pernambuco Nogueira (Selton Mello) e os dois se apaixonam por Esmeraldina (a bela Ana Paula Arósio), prima do coronel. Quando um lobisomem aparece na região da fazenda, os moradores suspeitam de Pernambuco e Ponciano questiona a lealdade do amigo.

Estreante em longas, Maurício Farias tem longa experiência na televisão e sua direção de atores é segura e competente. A adaptação respeita o texto rebuscado de José Cândido, cheio de períodos longos e neologismos, à la Graciliano Ramos. Isso faz com que o filme seja guiado pelos diálogos e interpretação. O elenco é o grande destaque do filme, dominando um texto desafiador, especialmente Pedro Paulo Rangel, que rouba a cena como o enxerido Seu Juquinha, empregado da fazenda.

O quesito técnico não decepciona, com fotografia e direção de arte extremamente bem cuidadas, auxiliadas por efeitos visuais de qualidade incomum no cinema brazuca. A Digital 21, empresa responsável pelos efeitos e co-produtora do longa, ainda teve o desafio de criar a fera do título, em uma seqüência que poderia ter ficado ridícula, mas que surpreende e não compromete a proposta do filme. Na trilha, Caetano Veloso repete a função de “Lisbela e o prisioneiro” e “Dois filhos de Francisco”, mas dessa vez com a parceria de Milton Nascimento, que combina o estilo e os acordes das canções com a beleza das locações mineiras.

Com tudo isso, “Coronel” é excelente, você me diria. Não é para tanto. Maurício Farias é bom com os atores, tem bons momentos como as seqüências do julgamento, mas peca um pouco no ritmo. E a solução final não faz jus ao resto do roteiro. Assim como as músicas recentes de Caê e Milton, você reconhece a qualidade e o primor técnico, mas sabe que não chegam aos pés do arrebatamento das canções da fase áurea dos emepebistas. Nada que os olhos de Ana Paula Arósio não consigam superar.

Arósio: bonita, até de olhos fechados

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26/10/2008 free counters

Amor, loucura e morte social num clássico cinqüentenário





Lygia Fagundes Telles, a autora do livro Ciranda de Pedra, prefere não dar palpites quando o assunto é a adaptação de suas obras . Não deu na primeira versão, de 1981, assinada por Teixeira Filho, e não será agora que a dama da literatura brasileira vai intervir. A própria escritora já teve uma desagradável experiência ao adaptar a obra de outro autor - no caso, nada menos que o Dom Casmurro - e ver no cinema algo bem diferente do que havia escrito no roteiro, feito em parceria com o marido Paulo Emílio Salles Gomes.

Portanto, considera normais algumas modificações em seu romance, como a supressão do lesbianismo da tenista Letícia ou a camuflagem da impotência de Conrado. ''Acho até bom, porque há tanto sexo nas novelas hoje em dia que Ciranda de Pedra vai inovar com essa sexualidade velada'', brinca, lembrando a resistência com que a sociedade da época recebeu o romance, finalmente lido por recomendação dos maiores críticos literários da época (e republicado este mês pela Rocco). ''Em 1954 não se podia falar de homossexualidade, impotência e suicídio, e creio que até hoje temas como o último continuam tabus'', diz, referindo-se ao caso do filósofo vienense André Gorz, que cometeu duplo suicídio com sua mulher, em setembro do ano passado.

Em Ciranda de Pedra, quem se mata é o médico Daniel, por não suportar a morte da companheira Laura. ''É estranha essa ligação com o suicídio de Gorz anos depois, mas entendo que grandes amores como o dele por Dorrine ou o de Daniel por Laura levem à morte, pois são experiências intensas'', diz, lembrando que, no caso de Laura, a deterioração de seu estado mental corresponde a uma morte social , antes da morte física. Vale lembrar: o desajuste que leva à loucura e ao confinamento tampouco era um tema incomum em 1952, quando Lygia começou a escrever Ciranda de Pedra. Foucault só trataria disso duas décadas mais tarde.

Lygia, claro, tem consciência de seu pioneirismo, mas diz que não foi uma provocação deliberada. O livro nasceu de um passeio romântico por Higienópolis. Ela entrou num casarão demolido e, ao ver uma fonte com anões de pedra formando uma ciranda, lembrou-se de um poema de Rilke. Como só a poesia ''é capaz de dizer o que as próprias coisas jamais pensaram ser na sua intimidade'', ela decidiu: iria escrever a história dessa família desaparecida junto às paredes do velho casarão. E é ela que agora chega à novela das seis. A.G.F.

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26/10/2008 free counters

CIRANDA DE PEDRA


Ascensão e queda da classe média

Ciranda de Pedra fala da desestruturação da família, mas autor da telenovela diz que prefere seguir Chekhov a fazer sociologia

Antonio Gonçalves Filho

O dramaturgo Alcides Nogueira revela sem temor que recuou deliberadamente ao adaptar o livro de Lygia Fagundes Telles, Ciranda de Pedra, para o horário das seis da tarde. Assim, na novela que a Globo começa a exibir dia 5 de maio, a tenista Letícia, campeã das quadras no livro Ciranda de Pedra, será derrotada em sua atração por mulheres, uma vez que a classificação por faixa etária - eufemismo para censura - não permite que crianças vejam pessoas do mesmo sexo se amando na televisão. E o que vai ser de Conrado, o amor de infância de Virgínia, a heroína do romance, um homem amargurado e isolado por sua impotência sexual? E de Frau Herta, a empregada recolhida a um cômodo imundo, doente e abandonada na periferia do mundo? E da família burguesa do patriarca Natércio, que decai a ponto de se tornar irreconhecível? Tudo isso cabe no horário das seis?

A saída encontrada por Alcides Nogueira para driblar a camisa-de-força da classificação etária foi compensar o tônus peculiar de Ciranda de Pedra - a força social do romance - com o desenvolvimento do perfil psicológico dos personagens. Assim, a lésbica Letícia deixa de ser a desbravadora do virgem território da sexualidade alternativa, nos anos 1950, para ser simplesmente uma mulher que rejeita o modelo patriarcal, assumindo sua autonomia como esportista profissional. Conrado, o correspondente brasileiro do 'belo Antonio' de Brancati, homem consumido pela desolação, não será um impotente sexual, mas 'afetivo', tendo dificuldades para assumir o cargo de diretor da siderúrgica que recebe como nefasta herança.

'Lygia tem aquela coisa das pequenas tragédias de Katherine Mansfield', define Nogueira, justificando sua opção por um caminho mais intimista para narrar essa história de desestruturação familiar, na qual a matriarca Laura (Ana Paula Arósio) seria o que hoje se conhece como vítima de transtorno bipolar. Laura, porém, não é a protagonista, mas sim sua filha Virgínia (Tammy DiCalafiori), uma solitária rejeitada pela família, espécie de gata borralheira que herda as sobras das reformas dos quartos das irmãs quando a mãe decide se separar do rico marido advogado, Natércio (Daniel Dantas), para assumir sua relação extraconjugal com o pobre médico Daniel (Marcello Antony).

É na casa de Natércio - 'um Dom Casmurro dilacerado', na visão do autor da novela - que existe a 'ciranda de pedra' do título. São anões ao redor de uma fonte no jardim do patriarca, que mantém a distância a filha ilegítima. Deslocada, Virgínia vai para um colégio interno e, em seu retorno, testemunha a morte da mãe e o suicídio do médico para, finalmente, voltar ao jardim que tanto amou e concluir que jamais fez parte daquela ciranda de cimento.

Na telenovela das seis, Virgínia vai adotar uma atitude reagente, garante Nogueira. 'Natércio aceita o papel de pai para não passar por marido traído e comprometer sua posição social, enquanto Virgínia se fortalece quando volta do colégio, desistindo de pertencer a essa ciranda social fechada.' O autor assume como modelo o folhetim balzaquiano e diz que viu o suficiente dos filmes de Douglas Sirk para não sentir vergonha do melodrama. 'Talvez seja mesmo a forma que a sociedade contemporânea tenha de entender o sentido da tragédia', observa o dramaturgo, citando a adaptação que Fassbinder fez nos anos 1980 do épico Berlin Alexanderplatz, de Alfred Dõblin, minissérie produzida para a televisão alemã com 15 horas de duração, depois exibida nos cinemas. Fassbinder é um modelo assumido, por sua coragem de enfrentar o monumento literário de Dõblin, sofisticado autor expressionista alemão marcado pela leitura de Kierkegaard e ele mesmo roteirista em Hollywood nos anos 1930.

A principal adaptação que Alcides Nogueira fez foi transferir para 1958 o ponto de partida da novela, um ano simbólico por incorporar momentos históricos de ruptura como a bossa nova, a ascensão da classe média, a conquista da copa mundial de futebol e o começo da construção da nova capital. Para o dramaturgo, um proustiano de carteirinha, essa evocação do tempo perdido vai além da nostalgia. É uma oportunidade de repensar onde o Brasil tropeçou no terreno da ética.

Apesar disso, Alcides não pretende fazer da novela um tratado sociológico sobre a ascensão da classe média que, nos anos 1950, cedeu ao vale-tudo para entrar no circuito do consumo. A tradicional família Prado, avesso da pobre família de Daniel, adota, segundo o dramaturgo, um modelo chekhoviano de ser. Ou seja: no meio de um turbilhão social, tenta sobreviver como se nada pudesse afetá-la. Não é familiar?

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terça-feira, 8 de abril de 2008

IMAGENS; Os Maias (editadas por Elaine Cristina


ABERTURA DE UM DOS VIDEOS


DIVULGAÇÃO


MOSAICO

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IMAGENS : OS MAIAS (editadas por Elaine Cristina)


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