A deputada federal, Manuela D'Ávila José Eduardo Cardoso chega para a festa de casamento de
Paula Roussef, filha da ministra-chefe da casa Civil, Dilma Roussef nos
salões da Sociedade Leopoldina Juvenil, que deve reunir 600 convidados. A
cerimônia religiosa aconteceu as 20h30 desta sexta-feira na igreja São
José e contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de
sua esposa, Marisa Letícia, e de pelo menos seis ministros de Estado e
oito governadores. FOTO: Paulo Dias / Preview.com
Publicada em 19/10/2011 às 23h41m
Gerson Camarotti (gcamarotti@bsb.oglobo.com.br) e Maria Lima (marlima@bsb.oglobo.com.br)
BRASÍLIA e MAPUTO (Moçambique) - Sem conseguir conter a crise
política que envolve o ministro do Esporte, Orlando Silva, e seu
partido, o Palácio do Planalto já emitiu sinais de que seria melhor o
PCdoB entregar logo o cargo e conduzir o processo de saída do ministro.
Segundo interlocutores da presidente Dilma Rousseff, quanto mais demorar
essa solução, mais o PCdoB e o governo ficarão fragilizados. Dilma
chega nesta quinta-feira à noite da viagem à África e pode se encontrar
ainda nesta quinta-feira com Orlando e com o presidente do PCdoB, Renato
Rabelo. Dirigentes do partido já admitiam reservadamente que podem
ficar sem o Ministério do Esporte, tamanho o desgaste político.
DENÚNCIA:PM diz que entregará gravação à PF que será um nocaute
INFOGRÁFICO:
Entenda o motivo da queda de cinco ministros
O desgaste atinge não só o ministro, que está no foco de
denúncias de irregularidades, mas todo o partido, uma vez que o PCdoB
comanda a pasta há quase nove anos, desde o primeiro ano do primeiro
mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E desgasta a imagem
do governo da presidente Dilma, que manteve o partido à frente do
Esporte mesmo ciente dos desvios no programa Segundo Tempo nos últimos
anos - a Controladoria Geral da União (CGU) apontou irregularidades em
67 convênios e o governo cobra mais de R$ 49 milhões em recursos
desviados por ONGs, prefeituras e governos estaduais desde 2006.
Enquanto estava em Moçambique, nesta quarta-feira, a presidente
Dilma foi informada por auxiliares do Palácio do Planalto que o tiroteio
contra Orlando se intensificou, apesar das explicações do ministro e da
avaliação política de que ele teve bom desempenho nos depoimentos na
Câmara e no Senado. Já é reconhecido no núcleo do governo de que o
ministro do Esporte está extremamente fragilizado, e que, se ficar no
cargo, será uma espécie de "fantasma" até sua substituição definitiva na
reforma ministerial que deve ocorrer em janeiro.
Integrantes do PCdoB receberam o recado do Planalto. Procurado
pelo GLOBO, o presidente do partido, Renato Rabelo, reagiu à
possibilidade de conduzir a saída de Orlando. Disse que conversaria com a
presidente Dilma para avaliar a situação, mas adiantou que não aceita
fazer acordo para a substituição do ministro.
- Pela boa relação que temos, vou conversar com a presidente
Dilma e ouvir a opinião dela. Quando Dilma chegar, vou deixar claro que o
ministro é dela. Ela é que decide. Neste caso, a dinâmica (para
desgastar os ministros) se repete. Mas o PCdoB reage diferente. Há uma
tentativa de desidratar o ministro e dizer que ele é politicamente
inviável - disse Rabelo. - Foi criada a seguinte situação: "Como vou
manter um ministro que está com desgaste?". Mas o PCdoB não vai piscar
primeiro, não fazemos acordo assim. Vou falar para a presidente: "O
ministro é seu".
Nas conversas de bastidores, setores do PCdoB apostavam na
conversa com a presidente para tentar reverter o quadro, embora já
admitindo que, se não receberem uma manifestação clara de apoio político
de Dilma, a permanência no governo ficará inviável.
- Na luta política, não adianta só o que é justo. Depende muito
da capacidade de reunir forças. E sem o governo do nosso lado, não
teremos forças - reconheceu um líder do PCdoB.
Uma outra preocupação, essa mais pragmática, rondava nesta
quarta-feira o PCdoB: os ataques ao ministro Orlando começam a atingir
outros membros da legenda, com potenciais prejuízos eleitorais nas
eleições municipais do ano que vem. Poderão respingar, principalmente,
em nomes do partido que vão disputar eleições majoritárias em 2012. É o
caso das deputadas Manuela D'Ávila (PCdoB-RS), para a prefeitura de
Porto Alegre; Perpétua Almeida (PCdoB-AC), de Rio Branco; o presidente
da Embratur, Flávio Dino (PCdoB-MA), para a prefeitura de São Luís; e o
prefeito de Olinda Renildo Calheiros, que deve disputar a reeleição.
Os comunistas também constatavam que, se fosse na gestão do
ex-presidente Lula, o ministro Orlando Silva já estaria blindado - o
ministro até já recebeu um telefonema de solidariedade do ex-presidente,
no fim de semana. De forma mais discreta, Lula tem defendido a
permanência de Orlando, segundo relato de petistas.
Do outro lado, no governo, avalia-se que, apesar de Orlando Silva
ter reagido rapidamente às acusações, o ministro e o PCdoB erraram na
condução da crise ao partir para o ataque contra o governador Agnelo
Queiroz (PT-DF). O PCdoB responsabilizou Agnelo pela proximidade com o
soldado João Dias, pivô do escândalo envolvendo denúncias contra o
programa Segundo Tempo.
- Não é inteligente colher inimigos entre os aliados, comentou um palaciano.
Diante disso, o PCdoB decidiu mandar emissários para tentar fazer
uma reconciliação com o governador petista e, com isso, evitar o fogo
cruzado com o aliado histórico. O presidente nacional do PT, Rui Falcão,
foi lacônico ao ser questionado se o ministro tinha o apoio dos
partidos da base aliada:
- Do PT, até o momento, sim - afirmou Rui Falcão sobre Orlando.
Entre os aliados, mesmo depois do depoimento de Orlando no
Senado, o clima é de espera por fatos novos para definir se sustentam ou
não sua permanência no cargo.
- A condição política do ministro não é boa, embora seja
inquestionável que ele está sendo firme, partindo para cima de seu
delator. Mas não ajuda o fato de ele aparecer todo dia nas páginas em
denúncias de corrupção, e não para falar da Copa ou das Olimpíadas. Ele
terá o apoio até que tudo seja esclarecido. Mas se acontecer um fato
novo, ninguém segura - disse um cacique peemedebista.
Dilma monitora passos de Orlando
Da
África, onde está desde a manhã de segunda-feira, a presidente Dilma
está monitorando todos os passos de Orlando Silva e a repercussão
política da crise, tendo avaliado nesta quarta-feira que os
esclarecimentos feitos por ele no Congresso foram adequados, porém não
suficientes para afastar a pressão política pela sua saída. Nem serviram
para eliminar de vez as suspeitas que recaem sobre ele. Quando voltar a
Brasília, ela deverá tratar pessoalmente do assunto. Nesta
quarta-feira, Dilma chegou a Maputo, onde se encontrou com empresários
brasileiros do setor de mineração e da construção civil e depois teve
reunião com o presidente Armando Guebuza.
Para tentar minimizar o clima de apreensão na comitiva
presidencial na África, o assessor especial da Presidência para Assuntos
Internacionais, Marco Aurélio Garcia, repetia nesta quarta-feira o
discurso inicial da presidente Dilma, de que o governo continua se
valendo da presunção de inocência. E criticou as denúncias sem provas do
soldado da PM do Distrito Federal João Dias Ferreira, ex-filiado do
PCdoB:
- Ele (João Dias) não tem currículo, ele tem prontuário. Quero ver como ele vai sair dessa.
Além dos depoimentos do ministro e de outras denúncias sobre
irregularidades em convênios do Ministério do Esporte, Dilma acompanha
atentamente, da viagem, as providências e apurações da Controladoria
Geral da União (CGU). O comando do órgão tem mantido a presidente
informada sobre a existência ou não de comprometimento do ministro em
desvios já constatados.
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O
que antes circulava nos bastidores de Brasília foi dito publicamente
pelo senador Inácio Arruda (PC do B-CE), durante a fala do ministro do
Esporte, Orlando Silva, ao Senado, nesta quarta-feira. O partido,
abalado pelas revelações de um esquema de corrupção no Ministério dos
Transportes, já demonstrou que não vai cair sozinho. Os principais
alvos: PT e PMDB.
A cúpula da legenda já tinha levado ao Palácio do Planalto o
recado de que uma queda de Orlando Silva pode levar a reboque o
governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), ex-titular da pasta
e que responde a um inquérito no Superior Tribunal de Justiça (STJ)
para apurar fraudes no mesmo programa Segundo Tempo – o que aliás, pode
levar a um inquérito unificado no Supremo Tribunal Federal (STF), como
disse o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, nesta quarta.
A ameaça era, até agora, em tom velado. Na audiência do Senado
tornou-se mais consistente. O senador Inácio Arruda questionou a quem
interessaria expulsar Orlando Silva do ministério às vésperas de eventos
como a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Lembrou que que o PC do B
ganhou musculatura política e acabou virando vitrine.”Nós estamos
prestes a completar 90 anos de idade porque nós topamos comprar e
enfrentar todas as batalhas no campo político e ideológico. Senão, não
teríamos 90 anos. Não teríamos chegado aqui. É porque nós topamos”,
disse Arruda.
É esperar para ver os próximos lances. E os próximos alvos.
Ex-filiado aponta desvios para campanha do PC do B
Carta de ex-diretor de esportes de Alvorada
(RS) acusa secretário de uso de verba que sobrava de programas para
financiar campanha de Manuela D’Ávila
Adriana Caitano

Para Manuela D'Ávila, eleição já começou: "Acho o fim fazerem qualquer ilação que me envolva"
(Rodolfo Stuckert/Agência Câmara)
Uma carta divulgada nesta quarta-feira complica ainda mais a situação
do PC do B. Em um texto escrito à mão em maio de 2010, Marcio Taylor,
ex-diretor de esportes da cidade gaúcha de Alvorada, a 27 quilômetros da
capital, Porto Alegre, afirma ter havido desvio de verba pública da
prefeitura para a campanha da deputada federal Manuela D’Ávila
(PCdoB). Na edição desta semana, VEJA
revelou um esquema de corrupção envolvendo o ministro do Esporte, Orlando Silva, do mesmo partido.
O documento foi apreendido pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul
durante a Operação Cartola, deflagrada em julho e que investigava
desvios no valor de 30 milhões de reais de oito municípios gaúchos. Seu
conteúdo foi publicado nesta quarta no jornal
Zero Hora. A assessoria de imprensa da polícia gaúcha confirma a existência da carta, mas não comenta seu conteúdo.
Nela, Taylor, que era filiado ao PCdoB na época, dizia ao secretário de
Juventude e Esportes de Alvorada, Nelson da Silva Flores, ter uma
gravação que poderia provar o que afirmava: o secretário, da mesma
legenda, ameaçava exonerá-lo caso ele não lhe entregasse o dinheiro que
sobrava de projetos do setor.
No texto, ele cita dois programas da secretaria cujas sobras desviadas
por Flores totalizavam 15.000 reais. “O senhor disse que poderia me
exonerar se eu não continuasse trazendo esse dinheiro e que até o
prefeito sabia desse seu modo de conseguir verba para a secretaria”,
comenta o ex-diretor.
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Respostas - Durante entrevista coletiva concedida à
imprensa local, nesta quarta, o secretário Nelson Flores disse que não
sabia da existência da carta e negou as acusações. O prefeito de
Alvorada, João Carlos Brum, também afirma desconhecer o texto e
determinou a abertura de um processo administrativo para investigar o
caso.
De acordo com a assessoria de imprensa de Brum, caso a autenticidade da
carta e as informações que nela constam sejam confirmadas, os
responsáveis serão afastados de seus cargos e punidos.
No site oficial do PC do B, o partido alega que a campanha eleitoral do
partido no Rio Grande do Sul sequer teve contribuição vinda de
Alvorada. “É uma tentativa de aproveitar o momento político nacional
para atacar a deputada Manuela d'Ávila, que hoje lidera todas as
pesquisas de intenção de voto para Prefeitura de Porto Alegre”,
argumenta a legenda.
A deputada Manuela D'Ávila manifestou-se em seu blog pessoal, afirmando
que vai processar Marcio Taylor civil e criminalmente por calúnia.
“Acho o fim fazerem qualquer ilação que me envolva. Mas, pelo visto, a
eleição já começou. Lamento que a opção de alguns seja pela mentira e
tentativa de destruir a honra dos outros. Não é a minha. E nunca será”,
destacou. “Quem tem que provar é ele. Cá entra nós, corrupção de 1500
reais? É patético”, acrescentou, no Twitter.
